Ensaio. Mazda 6e: o anti SUV assumido que quer devolver a elegância ao segmento D

Jorge Farromba esteve ao volante do novo Mazda e explica-lhe porque este é um automóvel desenhado… para ser desejado

Jorge Farromba

O mercado automóvel vive essencialmente de tendências e a moda atual passa pelos SUV; a Mazda, com o 6e, surge como uma rara afirmação da elegância automóvel mas com uma berlina de silhueta coupé com cinco portas, proporções largas, longas e baixas e uma presença visual que tenta recuperar a elegância do segmento sem ceder a algum anonimato formal que hoje domina muitos dos seus rivais.

Existe a noção de este ser um Changan disfarçado de Mazda, mas em bom rigor, é um modelo global desenvolvido numa parceria estratégica entre a Mazda e a Changan, utilizando base técnica chinesa mas profundamente adaptada, afinada e reposicionada pela engenharia e design da Mazda para os mercados internacionais.

A própria marca sublinha essa fusão entre a tradição e a eletrificação, e mesmo o reconhecimento internacional que este modelo tem recebido ao nível de design, reforça que não estamos em presença de mais um automóvel elétrico racional, mas um automóvel desenhado para ser desejado.

Apresenta-se com uma proposta familiar e executiva 100% elétrica, tração traseira com duas baterias para o mercado português – 68.8 kwh e a de 80 kwh. Neste momento estou a ensaiar a primeira e as autonomias oficiais apontam para 479 km (a outra até 552 WLTP). No alcatrão da AE, fiz 289km e a autonomia restante de 18% a uma velocidade limitada de 120km.

No papel, este modelo entra diretamente em concorrência com o Tesla Model 3, Volkswagen iD7 e provavelmente com o Polestar 2 e mesmo com o Mercedes CLA elétrico. No ensaio, aquilo que se nota é que a sua proposta de valor não pretende ser o mais rápido, nem o mais radical, nem o mais futurista, mas sim oferecer uma combinação pouco vulgar, de um design forte com uma apresentação interior cuidada, com elementos de elevada qualidade, boa construção, atenção aos detalhes, um design forte e uma usabilidade familiar.

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Juntamente com isso apresenta uma condução muito afinada para agradar a quem valoriza a ligação entre o volante, o chassis e a estrada, conjugada com conforto. É pois um anti SUV assumido, onde a marca fala numa interpretação moderna do seu Kodo, numa carroçaria criada com linhas fluidas, uma frente iluminada, um perfil limpo com os puxadores embutidos e um spoiler traseiro extensível eletricamente, que não é um mero adereço ao elevar automaticamente a 90 km/h, mas colocado com uma preocupação aerodinâmica.

Teve um prémio no World Car Design do ano 2026 o que ajuda a explicar porque é que este 6e tem mais presença do que outros elétricos. Por exemplo, o ecossistema Mazda com vários botões físicos desaparece e tudo passa a estar centralizado no écran central ou no minimalista volante – de excelente ergonomia e usabilibidade. Possui mais digitalização, mas sem cair na frieza absoluta de não haver botões.

O ecrã central é de 14,6 “, o painel de instrumentos – de boa leitura – é de 10,2 polegadas e o Head-Up display de 50”, além de iluminação ambiente com várias cores e um sistema Sony de bom nível. O teto panorâmico traz uma luminosidade ampla a um habitáculo dominado pelos excelentes bancos am alcântara camel, perfurada, de extremo bom gosto.

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A marca continua a insistir no conceito japonês de espaço e serenidade, da ligação do ser humano à máquina e isso sente-se no modo como o interior clean, mas rigoroso, de qualidade mas elegante, se torna relaxante e, se olharmos para a qualidade percebida, os materiais e os acabamentos são um dos argumentos fortes.

É muito convincente a sensação de qualidade de construção, refinamento e detalhes com a dificuldade de encontrar plásticos rijos nalgum local. A bagageira possui 466 litros e + 72 na dianteira, sendo que se percebe que há espaço suficiente para uma utilização familiar e profissional num espaço interior desafogado para o segmento.

Importa esclarecer um ponto que facilmente pode ser mal interpretado: o Mazda 6e não inclina nas curvas. Não existe aqui qualquer sistema ativo de inclinação da carroçaria. O que o condutor sente é o efeito de um chassis bem afinado, aliado a uma eletrónica particularmente presente, que gere o rolamento, a transferência de massas e, se necessário, suaviza a velocidade à entrada de curva. Esta abordagem confere ao carro uma trajetória limpa, progressiva e previsível — uma sensação que pode ser confundida com ‘inclinação’, mas que é, na verdade, o resultado de engenharia tradicional bem executada e controlo eletrónico refinado.

Quando o conduzimos, aí sim, parece querer preservar a identidade da marca mas no contexto elétrico e globalizado, com um automóvel bem afinado com tração traseira, boa compostura, silêncio a bordo e conforto sério em estradas nacionais e autoestradas. A estabilidade é de bom nível e a direção é suficientemente rápida; existe refinamento no modelo e sensação geral de qualidade. Não é um elétrico pensado para teatralidade mas sim um estradista elegante, sereno, competente e, acima de tudo, credível, para quem faz muitos quilómetros.

Em termos de inovação e inteligência artificial importa ser rigoroso: o que está aqui é a existência de um cockpit inteligente que tem alguns comandos por voz e gestos servidos por uma aplicação dedicada, dinâmica e remota da climatização e do carregamento, além de um conjunto alargado de assistências de condução e à segurança ativa.

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Atualmente é para mim o Mazda mais bonito – exceção para o eterno MX5 – em termos de design interior onde existe uma fluidez e uma qualidade de todos os materiais, uma grande atenção ao detalhe a seleção dos materiais bastante cuidada e mesmo a ergonomia.

Porventura o público alvo que mais se identifica com ele possam ser três três personas:

  • O condutor que quer sair do ecossistema dos SUV sem sacrificar o espaço interior;
  • O profissional que valoriza a imagem o conforto e a qualidade;
  • O utilizador “elétrico” que gosta de uma sobriedade estética japonesa face à exuberância tecnológica

Não é um automóvel que se compra para testar o cronómetro nem para quem mede tudo pela aceleração bruta; este é um sedutor para quem procura um elétrico com identidade visual, tração traseira, ambiente premium e um compromisso sério entre conforto, autonomia, comportamento e a distinção.

Se o conforto é bastante bom e o comportamento surpreende pela positiva, em termos de preço final  começa nos 38.000€ até uns competitivos 47.000€ na versão de topo e long-range.

 

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