Mário Rocha e o projecto que levou a Antarte (outra vez) ao Papa. “Irrecusável”

Há objectos que nascem para ser discretos, mas carregam em si o peso de um momento histórico. Em angola, na véspera da chegada do Papa Leão XIV, Mário Rocha, CEO da Antarte, revelou o papel que a marca portuguesa desempenhou neste momento único

André Manuel Mendes

A Antarte foi novamente escolhida pelo Vati­cano para criar um conjunto de peças que acom­panharam o líder da Igreja Católica durante a sua visita a Angola.

Mais do que peças litúrgicas, são ele­mentos que transportam uma narrativa feita de detalhe, matéria e contexto. Produzidos a partir de madeira de longui e de pedra calcária rosada da região de Nossa Senhora da Muxima, e combina­dos com tecidos naturais trabalhados artesanalmente, estes objectos reflectem uma aproximação ao território que vai além da função – procuram integrar­-se no lugar onde vão estar, ainda que temporariamente. No entanto, com a marca “Made in Portugal”.

A relação entre a Antarte e a Santa Sé não é nova. Ao longo dos últimos anos, a marca nacional tem vindo a afirmar- se em projectos ligados a diferentes pontificados, do Papa Bento XVI ao Papa Francisco, num percurso marcado por desafios onde a exigência simbólica se sobrepõe muitas vezes à dimensão técnica.

Desta vez, o projecto ganhou forma num contexto particular: Foi a partir de Angola, no terreno e no momento em que tudo se preparava, que Mário Rocha falou à Executive Digest sobre o significado desta colaboração – e sobre o que representa voltar a responder (positiva­mente) a um convite do Vaticano.

Como surgiu o convite para desenvolver estas peças destinadas à visita do Papa Leão XIV a Angola?

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O convite partiu das autoridades ecle­siásticas de Angola que conhecem o histórico da Antarte na criação das peças para o Papa Bento XVI, para o Papa Francisco e também a instalação de arte para a Bienal de Veneza desenhada pelo arquitecto Siza Vieira e que a Antarte materializou.

Quando recebeu o convite, houve algum momento de hesitação ou foi, como refere, “irrecusável”?

É irrecusável, desde logo porque são peças de uma simbologia institucional que muito honra a Antarte. A experiência de 16 anos na criação destes projectos especiais para o Vaticano também foi decisiva, até porque estamos a falar de um conjunto de mais de uma dezena de peças para o espaço de celebração da homilia do Papa em Angola.

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Que desafios criativos e técnicos colocou a exigência de conciliar a sobriedade da Santa Sé com a identidade da Antarte?

O primeiro de todos os desafios é cumprir com os requisitos do Vaticano. Tivemos também de integrar matérias–primas angolanas como a madeira de longui e a pedra calcária rosada extraída na zona de Nossa Senhora da Muxima.

Depois, é necessário ter a sensibilidade de criar peças com um design que res­peite a sobriedade institucional, e para isso adoptámos um design intemporal.

Qual foi o papel concreto da sua direcção criativa no desenvolvimento do cadeirão, do ambão e do altar?

É um papel de fundir design, materiais e processos de produção que se traduzam em peças inconfundíveis na mensagem de sobriedade, serenidade e até espiritualidade que transmitem.

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A utilização de matérias-primas ango­lanas foi uma opção estética, simbólica ou estratégica? Quais foram os maiores desafios?

Fazia todo o sentido usarmos matérias­-primas de um país rico como poucos em materiais nobres e sustentáveis. Angola tem uma diversidade de madeiras como poucos países. O mesmo se aplica à pedra calcária rosada. É uma pedra lindíssima, com uma tonalidade formidável.

O que é mais difícil: criar algo que im­pressione ou algo que desapareça no ritual sem o perturbar?

O mais difícil é criar peças que são apro­vadas ao primeiro esboço. Significa que a Antarte já está capacitada para este tipo de projectos, que também têm prazos apertados para serem materializados.

Acredito que as peças não podem “esconder-se” num cenário tão importante como o de celebração de uma homilia. Até porque vão ser vistas demorada­ mente ao vivo ou por quem assiste pela televisão. Por isso, devem integrar-se no espaço, como se fizessem naturalmente parte dele.

O que é que nunca foi dito durante o processo – mas que foi sempre entendido por todos?

O que foi entendido é que a experiência de todos os intervenientes seria funda­mental para que o processo decorresse sem falhas, sem sobressaltos ou imprevistos, sem atritos na tomada de decisões, para termos tudo pronto a tempo e horas e de acordo com os requisitos pretendidos pelas autoridades eclesiásticas.

Quando tudo chegou ao destino, Angola, sentiu que estava perante um transporte de objectos… ou de significado?

Senti que estava perante peças que fi­carão na história. Ninguém as apagará da memória das pessoas. Há imagens eternas. E quando, ao longo dos anos, forem mostradas as imagens da homilia do Papa Leão XIV em Angola, estará lá a marca da Antarte.

De que forma projectos desta natureza influenciam a percepção da Antarte em mercados internacionais?

São peças que avalizam a competência da Antarte para abraçar projectos de dimensão criativa incomum. E que dizem a qualquer novo parceiro que estamos à altura de projectar o nosso saber fazer em qualquer geografia. Na Europa, na Ásia, no Extremo Oriente, em África? A Antarte é capaz e já deu provas disso.

O que representa, para si, enquanto fundador e CEO, ver peças da Antarte num contexto religioso e global desta dimensão?

Significa que estamos à altura de pro­jectos de dimensão internacional, para qualquer instituição ou personalidade de relevo mundial e em qualquer geografia.

O que é que a Antarte ainda não fez que, secretamente, sente que faz parte do seu caminho natural?

Talvez peças para monarcas. Já fizemos peças para dois presidentes da República: Cavaco Silva e José Ramos Horta. Demos forma a peças para treinadores de classe mundial. Também criámos diversas peças personalizadas para artistas internacionais como Maluma, Anitta ou J. Balvin, quando actuaram em concertos em Portugal. Materializámos mais de 40 peças para o Pavilhão de Portugal na Expo 2025 em Osaka. Creio que criarmos uma ou mais peças para um monarca, seria um bom desafio.

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