A Europa pode estar a entrar numa nova crise energética — e os sinais já começam a chegar ao bolso dos consumidores. A escalada do conflito no Médio Oriente, com epicentro no Irão, está a pressionar os preços e a levantar dúvidas sobre o abastecimento, levando Bruxelas a preparar medidas de emergência, avança o ‘El País’.
No centro do problema está o Estreito de Ormuz, uma das principais artérias energéticas do mundo, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás globais. O risco de encerramento desta rota, aliado aos ataques a infraestruturas energéticas no Golfo — fundamentais para o fornecimento de gás natural liquefeito à Europa — está a desestabilizar os mercados e a criar um novo foco de tensão energética.
Os efeitos já são visíveis. Desde o final de fevereiro, os preços do gás dispararam cerca de 70% e os do petróleo cerca de 60% na Europa. No mesmo período, a fatura europeia com importações de combustíveis fósseis aumentou em cerca de 14 mil milhões de euros, pressionando famílias, empresas e governos.
Para já, a Comissão Europeia garante que não existe risco imediato de escassez. Ainda assim, os primeiros sinais de tensão no abastecimento já surgem. Em Itália, aeroportos como Bolonha, Veneza ou Milão-Linate admitem possíveis restrições no combustível de aviação. Já a Eslovénia avançou com limites à compra de combustível para evitar ruturas e fenómenos de açambarcamento.
Perante este cenário, Bruxelas prepara um conjunto de medidas que recordam a resposta à crise energética provocada pela guerra na Ucrânia. Entre as soluções em estudo estão limites à temperatura em edifícios, promoção do teletrabalho, redução de velocidades nas estradas ou incentivos ao uso de transportes públicos. Em caso de agravamento, não está excluído o recurso a racionamento de energia ou à imposição de tetos de preços.
Apesar de a União Europeia estar hoje mais preparada do que em 2022 — graças à diversificação de fornecedores e ao reforço das reservas — a dependência de combustíveis fósseis continua a ser uma vulnerabilidade. A origem do problema mudou, mas o risco mantém-se.
É por isso que o debate sobre a política energética voltou ao centro da agenda europeia. Enquanto alguns defendem um regresso a fontes tradicionais, outros sublinham a necessidade de acelerar a transição para energias renováveis. Estudos recentes indicam que os países menos dependentes do gás são também os que melhor resistem à subida dos preços.
Mas o impacto desta crise pode ir além da energia. Especialistas alertam para possíveis efeitos no fornecimento de fertilizantes, na produção alimentar e até na disponibilidade de medicamentos, ampliando o alcance da instabilidade.
Num contexto de grande incerteza, uma coisa é já clara: mesmo que o conflito abrande, os efeitos nos mercados não desaparecerão rapidamente. A Europa pode ainda não estar numa crise total — mas está cada vez mais próxima de enfrentar um novo choque energético com consequências diretas no dia a dia.













