Brexit deixou Obama horrorizado: a frase privada de poucas letras que agora veio a público

Relato é feito por Kim Darroch, antigo embaixador britânico em Washington, que ocupava o cargo em 2016, ano do referendo

Francisco Laranjeira

A reação privada de Barack Obama à vitória do Brexit foi revelada pela primeira vez e terá sido bem mais dura do que a diplomacia pública deixou perceber. De acordo com excertos do livro “The Brexit Effect”, de Anthony Seldon, o então presidente americano considerou que o Reino Unido se tinha “lixado” (“f***ed”) ao votar pela saída da União Europeia.

O relato é feito por Kim Darroch, antigo embaixador britânico em Washington, que ocupava o cargo em 2016, ano do referendo, indicou o jornal britânico ‘The Independent’. Segundo Darroch, figuras próximas da administração Obama ficaram “horrorizadas” com o resultado e não compreendiam por que razão o Governo britânico convocara uma consulta popular que não era obrigado a realizar sem ter garantias de vitória.

A frase terá sido transmitida ao embaixador por uma pessoa do círculo próximo de Obama, dois dias depois da vitória do “Leave”. Questionado sobre como o presidente tinha visto o desfecho, esse interlocutor respondeu que Obama achava que os britânicos se tinham “completamente lixado”. A mesma fonte terá acrescentado: “O que acontece agora, depois de se terem feito explodir?”

A frase que ficou guardada em Washington

A revelação ganha peso porque Obama já tinha sido uma figura controversa na campanha do referendo. Semanas antes da votação, o presidente americano avisara que, se deixasse a União Europeia, o Reino Unido ficaria no “fim da fila” para negociar um acordo comercial com os Estados Unidos.

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A intervenção foi vista na altura como uma tentativa de ajudar David Cameron a manter o Reino Unido dentro da União Europeia, mas acabou por alimentar críticas entre os defensores do Brexit. Agora, o relato de Darroch mostra que, nos bastidores, a avaliação em Washington era ainda mais negativa.

O antigo embaixador descreve o Brexit como um “ato flagrante de automutilação” que deixou o Reino Unido “diminuído e isolado”. Segundo escreve no livro citado pelo ‘The Independent’, várias figuras de topo americanas partilhavam essa leitura e reagiam ao resultado com perplexidade.

“O que fizeram?”

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Darroch recorda que, nos dias que se seguiram ao referendo, sentiu em Washington um misto de choque e incredulidade. Várias pessoas olhavam para ele como se perguntassem: “O que fizeram?”

Um amigo no Departamento de Estado ter-lhe-á dito que alguns responsáveis americanos se interrogavam sobre qual seria o papel do Reino Unido depois de sair da União Europeia. Para muitos em Washington, a perceção era a de que o país tinha perdido parte da sua utilidade estratégica enquanto ponte entre os Estados Unidos e o bloco europeu.

Darroch escreve ainda que ele e os colegas da embaixada britânica eram questionados várias vezes por dia sobre o que se estava a passar em Londres. Um alto responsável do Departamento de Estado ter-lhe-á confessado que os Estados Unidos estavam habituados a colapsos governativos e caos político em alguns países europeus, mas que julgavam que os britânicos eram “os sensatos”.

Reputação britânica abalada

Para o antigo embaixador, o Brexit danificou uma reputação construída ao longo de séculos, associada a estabilidade governativa, funcionamento parlamentar ordeiro e respeito por tradições institucionais. Na sua leitura, essa imagem perdeu-se com o processo de saída da União Europeia.

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Darroch considera que o Reino Unido ficou numa posição mais frágil, obrigado a negociar com os Estados Unidos e com a própria União Europeia a partir de uma situação de menor força. O antigo diplomata critica em particular o facto de o acordo de saída ter criado uma fronteira rígida com o maior parceiro comercial britânico, apesar da tradição histórica do país como defensor do comércio livre.

A crítica surge num momento em que o ‘The Independent’ está a lançar uma campanha dedicada à reconstrução das ligações entre o Reino Unido e a Europa, com notícias, análises, entrevistas e eventos sobre o impacto do Brexit e o futuro da relação com o continente.

O desabafo atribuído a Obama sintetiza, assim, uma leitura que muitos responsáveis americanos terão feito logo em 2016: para Washington, o Brexit não foi apenas uma escolha europeia dos britânicos, mas uma decisão que reduziu a influência internacional do Reino Unido e complicou a sua relação com os principais aliados.

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