Mundial 2026: Como EUA, Canadá e México se estão a preparar para travar o risco de surtos de Ébola?

A principal preocupação das autoridades sanitárias está relacionada com o surto de Ébola que afeta atualmente várias regiões da República Democrática do Congo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A realização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, organizado conjuntamente pelos Estados Unidos, Canadá e México, está a obrigar as autoridades de saúde pública a mobilizar recursos sem precedentes para prevenir surtos de doenças infecciosas durante um dos maiores eventos internacionais desde a pandemia de Covid-19.

Apesar de, quando apresentaram a candidatura conjunta à FIFA em 2018, os três países terem destacado a ausência de grandes doenças infecciosas endémicas nos seus territórios, o cenário global mudou significativamente. Hoje, o foco das autoridades está virado para ameaças como o Ébola, o hantavírus, o sarampo e outras doenças transmissíveis que podem circular entre milhões de visitantes provenientes de todos os continentes.

Porque existe preocupação com o Ébola durante o Mundial?
A principal preocupação das autoridades sanitárias está relacionada com o surto de Ébola que afeta atualmente várias regiões da República Democrática do Congo.

A seleção congolesa tem jogos agendados em Houston, Atlanta e Guadalajara, o que levou os responsáveis de saúde pública a reforçarem os mecanismos de vigilância epidemiológica.

Embora o risco de transmissão em larga escala seja considerado controlável, a chegada de adeptos, equipas técnicas, jornalistas e outros visitantes provenientes de diversas partes do mundo cria um contexto que exige monitorização constante.

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Segundo Anish Mahajan, diretor-adjunto dos serviços de saúde do condado de Los Angeles, a concentração de pessoas oriundas de múltiplos países representa inevitavelmente um risco acrescido.

“Vamos ter pessoas de todo o mundo a chegar à cidade e ao condado para estes jogos, e isso é ótimo. Mas também representa um enorme risco para várias infeções”, alertou.

Como estão os Estados Unidos a monitorizar possíveis surtos?
A resposta está a ser coordenada pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), que assumiu um papel central na recolha e análise de dados epidemiológicos.

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Nas últimas semanas, responsáveis do CDC realizaram reuniões semanais com os departamentos de saúde das 11 cidades norte-americanas que vão receber jogos do Mundial.

Além disso, equipas especializadas foram enviadas para o terreno para apoiar as autoridades locais na preparação e resposta a eventuais emergências sanitárias.

Uma das principais ferramentas será um sistema de vigilância sindrómica, capaz de identificar tendências de sintomas reportados em hospitais e serviços de urgência.

Os dados recolhidos pelas autoridades estaduais e locais serão integrados num painel específico dedicado ao Mundial, permitindo acompanhar em tempo real potenciais ameaças à saúde pública.

O que são os “detetives de doenças” destacados para o Mundial?
O CDC mobilizou mais de uma dezena de especialistas conhecidos internamente como “detetives e detetores de doenças”.

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Estes profissionais pertencem a programas especializados em epidemiologia e análise laboratorial e estão a apoiar estados como Texas, Kansas e Washington no reforço da monitorização de águas residuais e na ampliação das capacidades de teste laboratorial.

O objetivo é detetar precocemente qualquer sinal de circulação de agentes patogénicos antes que surjam surtos significativos.

Porque estão as águas residuais dos estádios a ser analisadas?
Uma das iniciativas mais inovadoras está a decorrer em Los Angeles.

Pela primeira vez, as autoridades de saúde vão utilizar tecnologia desenvolvida durante a pandemia de Covid-19 para monitorizar um grande evento desportivo através da análise das águas residuais produzidas pelos espectadores.

O estádio SoFi, com capacidade para cerca de 70 mil pessoas e palco de oito partidas do Mundial, será alvo de recolhas antes, durante e após cada encontro.

As amostras serão analisadas em laboratório através de sequenciação genómica, permitindo identificar dezenas de agentes patogénicos diferentes, incluindo Covid-19 e sarampo.

Segundo Mahajan, esta capacidade simplesmente não existia há poucos anos.

O investimento federal realizado durante a pandemia permitiu criar infraestruturas laboratoriais e sistemas de vigilância que agora estão a ser reaproveitados para o Mundial.

Barbara Ferrer, diretora dos serviços de saúde do condado de Los Angeles, sublinhou que a pandemia alterou profundamente a forma como as autoridades encaram os riscos.

“Tudo no nosso trabalho é diferente desde a Covid”, afirmou.

A responsável acrescentou que, embora não seja esperado qualquer incidente grave durante o torneio, as autoridades já não consideram impossível a ocorrência de eventos sanitários de grande dimensão.

Como estão os hospitais a preparar-se para um possível caso de Ébola?
Em Nova Iorque, os preparativos incluem exercícios extremamente detalhados que simulam cenários de alto risco.

No Hospital Bellevue, uma das principais unidades norte-americanas especializadas em agentes patogénicos perigosos, foi recentemente realizado um exercício em que um paciente diagnosticado com Ébola sofria uma paragem cardiorrespiratória.

O objetivo era testar simultaneamente a capacidade de salvar a vida do doente e proteger os profissionais de saúde contra a contaminação.

Durante o exercício, médicos e enfermeiros utilizaram equipamento de proteção individual completo, incluindo múltiplas camadas de luvas, fatos de proteção integral, proteção facial e sistemas de comunicação adaptados.

A estabilização do paciente simulado demorou cerca de 45 minutos.

No entanto, segundo os especialistas, o momento mais crítico não é o tratamento, mas sim a remoção do equipamento de proteção.

Um único erro durante esse processo pode provocar contaminações cruzadas.

Porque estão os hospitais a realizar tantos simulacros?
Segundo Erin McGuire, diretora médica da Unidade de Agentes Patogénicos Especiais do Bellevue, estes exercícios fazem parte de uma rotina permanente e não surgiram apenas devido ao Mundial.

“É importante fazermos sempre estes exercícios, independentemente do que está a acontecer no resto do mundo”, explicou.

Nos últimos meses, os hospitais de Nova Iorque realizaram simulações relacionadas com surtos de sarampo, gripe suína, doenças respiratórias, falhas energéticas, ondas de calor extremas e até ataques biológicos com antraz.

Também foram ensaiados cenários envolvendo a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS).

Para Alister Martin, responsável pelo Departamento de Saúde e Higiene Mental da cidade de Nova Iorque, existe atualmente uma vantagem importante em relação ao início da pandemia.

“O mais importante que temos agora é tempo”, afirmou. “Não tivemos isso durante a Covid.”

Os riscos limitam-se ao Ébola?
Não.

Na realidade, muitos especialistas consideram que os problemas mais prováveis são bastante mais comuns.

Questões relacionadas com segurança alimentar, intoxicações, doenças transmitidas por alimentos, stress térmico e gestão de multidões continuam a ser algumas das principais preocupações das autoridades.

Alister Martin considera que os riscos mais relevantes podem não estar associados a grandes surtos internacionais.

“As questões menos interessantes são muitas vezes as mais importantes”, afirmou. “Trata-se de saber se os alimentos consumidos pelas pessoas são seguros e se a forma como se juntam em grandes multidões é segura.”

Como estão as cidades anfitriãs a preparar-se para esses desafios?
Na Florida, as autoridades acumularam equipamentos de emergência que incluem barreiras de segurança, sistemas de iluminação móvel, camiões de apoio logístico, reboques utilitários e meios para tratar pessoas afetadas pelo calor intenso do verão.

O Centro de Operações de Emergência da Florida funcionará com equipas reforçadas durante o torneio para garantir respostas rápidas a qualquer incidente.

Já em Los Angeles, quase metade dos profissionais de saúde destacados para o Mundial terá como missão fiscalizar vendedores ambulantes e garantir a segurança alimentar nas zonas de concentração de adeptos.

As autoridades estão também a divulgar campanhas de sensibilização dirigidas aos visitantes, incentivando práticas de consumo mais seguras e alertando para riscos associados ao consumo de substâncias ilícitas.

O financiamento disponível é suficiente?
Apesar de muitos dos sistemas atualmente utilizados terem sido desenvolvidos graças aos investimentos feitos durante a pandemia, os responsáveis de saúde pública alertam para limitações financeiras significativas.

Os departamentos locais podem candidatar-se a verbas provenientes de um fundo federal de 625 milhões de dólares destinado ao Mundial, mas a concorrência entre estados e agências governamentais tem sido intensa.

Los Angeles, por exemplo, estima gastar mais de quatro milhões de dólares apenas nas operações de preparação e vigilância sanitária associadas ao torneio.

Contudo, recebeu recentemente uma confirmação de reembolso de apenas 961.424 dólares, menos de um quarto do valor previsto.

Barbara Ferrer admite que esta diferença poderá criar dificuldades futuras para os serviços de saúde locais, sobretudo numa altura em que o condado já foi obrigado a encerrar seis clínicas devido a cortes orçamentais federais.

O Mundial 2026 pode transformar-se numa emergência sanitária?
As autoridades insistem que não existe qualquer indicação de que tal venha a acontecer.

No entanto, a experiência da pandemia alterou profundamente a forma como os riscos são avaliados.

Com milhões de adeptos a deslocarem-se entre três países e dezenas de cidades anfitriãs, o Mundial 2026 tornou-se também um enorme teste à capacidade dos sistemas de saúde pública modernos para detetar, monitorizar e conter ameaças sanitárias em tempo real.

A preparação passa por tecnologia avançada, vigilância epidemiológica reforçada, simulações hospitalares e coordenação internacional. Mas também por um desafio crescente: manter níveis elevados de prontidão num contexto em que os recursos financeiros disponíveis estão muito longe daqueles que existiam durante a pandemia de Covid-19.

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