A canábis medicinal, entre o potencial e o bloqueio

Num pequeno‑almoço executivo promovido pela Executive Digest em parceria com a INCENTEA, representantes do sector da canábis medicinal reuniram-se para abordar eventuais caminhos que levem o mercado português a reflectir todo o seu potencial

Executive Digest

Portugal foi um dos pri­meiros países europeus a avançar com um enqua­dramento legal para a ca­nábis medicinal, criando as condições para atrair investimento e instalar capacidade produtiva, afirmando-se como um dos mercados mais activos neste sector emergente. Quase uma década depois, a base construída é significativa e reconhecida, mas a sua tradução em acesso efectivo para os doentes continua longe de acompanhar essa evolução, num desfasamento que marcou um pequeno-almoço executivo promovido pela Executive Digest em parceria com a INCENTEA.

Ao longo de um encontro que reuniu representantes da indústria, profissionais de saúde, especialistas e diferentes actores ligados à regulação e ao desenvolvimento do sector, a discussão decorreu num registo aberto e aprofundado, assente numa constatação comum: apesar do investimento realizado, da legislação existente e da experiência acumulada, permanece por cumprir o passo mais determinante: transformar capacidade instalada em utilização real. «Criámos capacidade, mas ainda não conseguimos traduzi-la em escala», sintetizou um dos participantes, antecipando uma reflexão que cruzaria, de forma contí­nua, as dimensões clínica, económica e institucional.

Fotografia: Paulo Alexandrino

Estiveram presentes Ricardo Florên­cio, por parte da Multipublicações; M.ª João Vieira Pinto, em representação da Executive Digest; João Antunes, Luís Barreiro, Filipe Fonseca e Fabrício Nobre, pela INCENTEA; Amit Edri e Tiago Fezas Vital, da Portocanna; David Santos, da KannaGenx; Fátima Carvalho, da Associação Nacional de Farmácias (ANF); Gonçalo Pedro, da Agrivabe; Hugo Oliveira, da SAGE Iberia; João Lourenço, da Associação Portuguesa da Indústria de Cannabis (APIC); José Tempero, da Tilray; José Veracruz, da Ordem dos Farmacêuticos; Laura Ramos, do Cannareporter; Miguel Segarra, da The Bridge; e Rui Minhos, consultor.

UMA BASE CONSTRUÍDA QUE CONTINUA DISTANTE DO DOENTE

A canábis medicinal deixou de ser um tema em validação conceptual para passar a integrar, ainda que de forma progres­siva, o conjunto de soluções terapêuticas disponíveis. Esse percurso é sustentado pelo conhecimento acumulado e pela experiência clínica que, ao longo dos últimos anos, tem vindo a demonstrar que existe um espaço efectivo para estas abordagens, nomeadamente em áreas onde as alternativas disponíveis não produzem resposta satisfatória.

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Fotografia: Paulo Alexandrino
Fotografia: Paulo Alexandrino

Os exemplos partilhados durante o encontro permitiram ancorar essa realidade em situações concretas. «Quando vemos doentes com décadas de histórico clínico a responder de for­ma positiva, percebemos que estamos perante algo transformador», referiu um dos intervenientes, evocando casos nas áreas da epilepsia e da oncologia. A discussão afastou-se, assim, da ideia de potencial abstracto para se centrar no impacto real, incluindo numa dimensão muitas vezes menos visível da prática clínica: «Mesmo não falando em cura, falamos de qualidade de vida – e isso altera profundamente a forma como olhamos para estas terapêuticas.» Outro dos participantes acrescentou que «a canábis pode ser altamente transfor­madora, fazendo uma diferença real na qualidade de vida.»

Apesar deste reconhecimento alarga­do do impacto terapêutico, a adopção continua limitada. O número de pres­crições mantém-se abaixo do milhar anual – cerca de 750, segundo os dados referidos durante o encontro – num universo potencial que poderá ultrapas­sar os 150 mil doentes elegíveis apenas com base nas indicações já aprovadas. A discrepância não resulta da ausência de produto ou de enquadramento, mas da dificuldade em traduzir esse enqua­dramento em prática clínica consistente.

O ACESSO CONTINUA A DEFINIR O RITMO DO SECTOR

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A questão do acesso atravessou toda a discussão como o principal factor condicionador do desenvolvimento do sector, não por ausência de enquadra­mento legal, mas pela forma como esse quadro se traduz (ou não) em utilização efectiva. O modelo vigente continua a posicionar a canábis como solução de última linha terapêutica, exigindo que o doente tenha esgotado previamente outras alternativas, o que condiciona o acesso e limita estruturalmente o número de prescrições.

Fotografia: Paulo Alexandrino

A esta condição soma-se a comple­xidade inerente à própria terapêutica, que exige acompanhamento contínuo, adaptação de dosagens e uma curva de aprendizagem mais exigente por parte dos profissionais de saúde. Essa exigência encontra um obstáculo adi­cional na formação, já que a ausência da temática nos currículos de base foi identificada como um dos factores mais estruturais para explicar o reduzido conforto na prescrição. A leitura que encontrou mais consenso na sala é que, sem essa base, é natural que exista maior reserva por parte dos profissio­nais de saúde.

A questão cultural continua igualmente presente, influenciando não apenas os profissionais, mas também a percepção social mais ampla. «A canábis é tratada como canábis, enquanto os opióides não são socialmente encarados como ópio. Esta é que é a grande diferença. Temos opióides que tomamos de forma frequente sem sequer sabermos que são opióides, porque são uma marca. Mas a canábis está sempre associada a erva, e erva não vamos dar aos nossos pais para tomar.»

Esta assimetria contribui para a per­sistência de reservas e para uma adopção mais lenta, reforçando um ciclo em que a falta de familiaridade limita a pres­crição e, consequentemente, a evolução do mercado.

ENTRE A PROCURA REAL E O MERCADO FORMAL

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A distância entre potencial e utilização torna-se particularmente evidente quando analisada à luz da procura existente, uma vez que o sector não enfrenta um problema de inexistência de mercado, mas sim de enquadramento dessa procura dentro do circuito regulado. As estima­tivas apresentadas durante o encontro apontam para um potencial de mercado na ordem das 60 a 80 toneladas anuais em Portugal, o que traduz um volume económico significativo. Em contraste, o consumo regulado permanece resi­dual, não devendo ultrapassar cerca de 100 quilogramas. «O mercado sempre esteve lá. O que muda é a capacidade de o tornar visível quando o acesso existe.» Esta leitura reflecte experiências internacionais onde a simplificação do acesso conduziu a aumentos expressivos na prescrição. O exemplo alemão foi re­ferido como particularmente ilustrativo, demonstrando que o mercado não tem de ser criado, mas sim desbloqueado. O desafio para Portugal passa, assim, por conseguir integrar esta procura no sistema regulado, assegurando qualidade, segurança e acompanhamento clínico.

CAPACIDADE INSTALADA E PRESSÃO SOBRE O MODELO

Enquanto o mercado interno evolui lentamente, a componente industrial do sector apresenta um grau de ma­turidade significativo, sustentado por um volume de investimento superior a duzentos milhões de euros e por um impacto relevante na criação de emprego qualificado.

Uma parte substancial desta capacidade encontra-se instalada em regiões de baixa densidade populacional, contribuindo para a diversificação económica e para a fixação de actividade industrial fora dos grandes centros. Ainda assim, a sustentabilidade deste modelo continua fortemente dependente da exportação, sendo frequente a referência a opera­ções assentes em praticamente 99% de mercado externo.

Fotografia: Paulo Alexandrino
Fottografia: Paulo Alexandrino

Este desequilíbrio torna-se mais evi­dente quando comparado com mercados europeus em expansão, nomeadamente o alemão, que já movimenta volumes muito superiores. A diferença não re­side apenas na capacidade produtiva, mas sobretudo na integração efectiva do produto no sistema de saúde, sendo esse o ponto onde Portugal ainda não conseguiu acompanhar o ritmo.

OPERACIONALIZAR O SISTEMA: ENTRE A REGRA E A PRÁTICA

Os desafios operacionais foram descri­tos de forma detalhada, reflectindo a experiência directa dos intervenientes no funcionamento do sistema. Os pra­zos associados à libertação de lotes, frequentemente situados entre quatro e seis semanas, surgiram como um dos exemplos mais evidentes, sobretudo quando comparados com mercados onde o mesmo processo pode ser con­cluído em três dias. «Não é apenas uma questão de eficiência, é uma questão de competitividade», foi referido.

A estes factores soma-se a necessidade de maior previsibilidade e clareza na comunicação com o regulador. Vários participantes relataram dificuldades em obter resposta em tempo útil e a dificuldade em obter orientação sobre questões tão básicas como se determi­nado lote de flor pode ser recebido, ou se um processo de transformação está conforme, cria incerteza operacional com impacto directo na actividade.

Os efeitos no ecossistema começam a ser visíveis. Durante o encontro, foi referido que catorze empresas com li­cença activa encerraram apenas desde o início de 2026, evidenciando a pressão existente sobre o sector.

Fotografia: Paulo Alexandrino

«Temos de trazer o Infarmed para ser parceiro outra vez. Temos de conseguir restabelecer esse canal, e isso exige um esforço de ambas as partes», referiu um dos participantes, perante a concordân­cia de vários outros, que reforçaram a necessidade de maior coordenação e clareza na comunicação com o regulador.

CIÊNCIA, ESCALA E CONSTRUÇÃO DE CONFIANÇA

A consolidação do sector depende, necessariamente, do reforço da base científica, ainda que este seja um dos domínios onde a especificidade da ca­nábis introduz maior complexidade. A variabilidade das respostas terapêuticas e a natureza multifactorial da planta tornam mais difícil a aplicação dos mo­delos clássicos de investigação clínica, o que levanta desafios na produção de evidência padronizada.

Apesar disso, a necessidade de produ­zir dados robustos foi apontada como incontornável, sobretudo para reforçar a confiança junto dos profissionais de saúde e dos decisores. Neste contexto, a articulação com a academia surge como uma solução estruturante, permitindo desenvolver investigação independente e ultrapassar limitações associadas à credibilidade dos estudos exclusivamente financiados pela indústria.

A criação de parcerias que combinem financiamento privado com desenho científico independente foi identificada como uma das vias mais promissoras, sobretudo tendo em conta que o in­vestimento necessário para ensaios de grande escala ultrapassa largamente a capacidade individual das empresas do sector. Neste ponto, a cooperação surge não apenas como desejável, mas como condição necessária para acelerar a validação científica.

UM SECTOR EM FASE DECISIVA DE CONSOLIDAÇÃO

O encontro terminou com uma leitura clara: o sector da canábis medicinal em Portugal não enfrenta um problema de arranque, mas sim um desafio de consolidação. As condições de base existem, o conhecimento acumulado permite sustentar a evolução e a ca­pacidade instalada posiciona o país de forma relevante no contexto europeu.

O que está em causa é a capacidade de alinhar sistema, mercado e prática clínica, criando condições para que o acesso acompanhe a evolução da indús­tria e para que o potencial identificado se traduza em utilização efectiva.

Esse alinhamento exige acção em múltiplas frentes, desde a eficiência operacional até à formação, passando pela investigação e pela construção de uma narrativa consistente, num percurso que não será imediato, mas que se apresenta decisivo para o futuro do sector.

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