Os custos com medicamentos oncológicos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) aumentaram 74% entre 2020 e 2024, o equivalente a mais 317 milhões de euros. Os dados constam do relatório ‘Desafios e Estratégias’, do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, divulgado esta quarta-feira pelo jornal ‘Público’, e revelam também um crescimento de 25% na quantidade de medicamentos dispensados, mais 6,2 milhões de embalagens.
Segundo o mesmo documento, estes números ainda não incluem o período entre janeiro e outubro de 2025, durante o qual a despesa com medicamentos oncológicos atingiu 766,3 milhões de euros, representando 34,7% do total da despesa hospitalar do SNS. Em comparação com o período homólogo, o aumento foi de 19,6%. No mesmo intervalo, registou-se um acréscimo de 67% no número de doentes operados e sujeitos a tratamentos.
Crescimento transversal nos principais grupos terapêuticos
O relatório sublinha que a quase totalidade da dispensa e dos encargos com medicamentos oncológicos ocorre em regime de ambulatório, sendo residual a utilização em internamento. O crescimento da despesa é descrito como transversal aos três principais subgrupos terapêuticos utilizados nos tratamentos oncológicos.
No caso dos citotóxicos, associados à quimioterapia, houve um aumento de 27% na quantidade dispensada e de 44% nos encargos suportados pelo SNS. Nas hormonas e anti-hormonas, o crescimento foi de 23% na quantidade e de 67% nos custos. Já nos imunomoduladores, verificou-se, entre 2020 e 2024, um aumento de 61% no número de embalagens dispensadas e de 101% nos encargos.
Este último grupo inclui terapêuticas inovadoras, como as CarT-Cells, que apresentam um custo elevado por unidade. O relatório refere que, em 2024, três medicamentos deste tipo tiveram um custo total de 15 6141 683 euros para o tratamento de 53 utentes.
Inovação terapêutica e pressão sobre os custos
Em declarações ao jornal diário, a diretora do programa, Isabel Fernandes, reconhece que o aumento dos custos é uma preocupação. “Tivemos mais acesso às CarT-Cells, que são medicamentos que vão quase a meio milhão de euros por doente. Tivemos mais de 10% dos doentes tratados quer com quimioterapia e imunoterapia quer com radioterapia. À medida que aumenta a inovação, aumentam os novos medicamentos e aumentam os custos”, afirma.
A responsável destaca a importância da prevenção, nomeadamente através da redução do consumo de tabaco e álcool, associados a vários tipos de cancro, e da deteção precoce da doença.
Mais cirurgias e redução de atrasos
A área oncológica foi definida como prioritária pelo Governo, que em 2024 criou o programa OncoStop para reduzir o número de doentes à espera de cirurgia além do tempo máximo de resposta garantido. De acordo com o relatório, nos últimos cinco anos houve um aumento de 67% no número de doentes operados por doença oncológica, o que corresponde a mais 31.178 cirurgias realizadas.
Em 2024, foram operados mais 10 mil doentes com tumores malignos face a 2023, tendo-se registado também um aumento superior a 10% nos tratamentos com radioterapia e quimioterapia. A percentagem de doentes operados acima do tempo máximo de resposta diminuiu de 26,4% para 25%.
Elevadas taxas de sobrevivência em alguns cancros
Apesar de ainda não existirem dados consolidados para avaliar a evolução em 2025, Isabel Fernandes destaca as taxas de sobrevivência aos cinco anos em dois dos tumores mais frequentes. No cancro da próstata e no cancro da mama, mais de 90% dos doentes permanecem vivos ao fim desse período.
Dados do Registo Nacional Oncológico, relativos a 2022 e divulgados no ano passado, indicam um aumento de 0,4% no número de novos casos. O cancro da próstata foi o mais frequente nos homens, com 7.345 diagnósticos, enquanto nas mulheres 33,3% dos tumores corresponderam a cancro da mama.
Mortalidade desce, mas impacto permanece elevado
O relatório aponta para uma tendência decrescente da taxa de mortalidade padronizada, atribuída a fatores como os rastreios, a redução do consumo de tabaco e melhorias na cirurgia e na radioterapia. Ainda assim, as doenças oncológicas continuam a ser uma das principais causas de anos potenciais de vida perdidos.
As principais patologias oncológicas foram responsáveis por 47.381 anos potenciais de vida perdidos, quase o dobro do total associado às doenças cerebrovasculares e às doenças isquémicas do coração. Em 2023, registaram-se cerca de 70 mil internamentos no SNS com diagnóstico principal de neoplasia maligna.
Rastreios com avanços desiguais
No rastreio do cancro da mama, a cobertura populacional atingiu 90,5% em 2024, com uma taxa de adesão de 49,5%. Foram convidadas 877 mil mulheres e rastreadas 440 mil, o maior número de rastreios de sempre. Já nos rastreios do cancro do colo do útero e do cólon e reto, as taxas de cobertura permanecem abaixo da meta de 90% prevista para 2030.
No rastreio do cancro do cólon e reto, a cobertura manteve-se nos 32%, com uma adesão próxima dos 50%. No do colo do útero, apesar de se ter registado o maior número de convites e rastreios de sempre, a meta de cobertura populacional não foi alcançada, verificando-se ainda uma ligeira tendência de aumento da incidência e da mortalidade, possivelmente associada a fatores como a migração de populações oriundas de países sem programas de vacinação ou rastreio.














