Bill Gates alerta para o potencial destrutivo da inteligência artificial e defende que os governos devem assumir um papel mais ativo na regulamentação da tecnologia. O cofundador da Microsoft considera que os sistemas de inteligência artificial já são suficientemente poderosos para, se forem utilizados de forma maliciosa, desencadearem acontecimentos capazes de provocar a morte de uma parte significativa da população mundial.
“É certo que a inteligência artificial é suficientemente poderosa para desencadear acontecimentos que, sabe, causem mil milhões de mortes”, afirmou Gates numa entrevista ao programa Meet the Press, da NBC, cujo excerto foi divulgado esta sexta-feira e cuja entrevista completa será transmitida no domingo.
O empresário acrescentou que “nunca houve uma arma tão poderosa como a combinação de pessoas com más intenções a utilizar as mais recentes ferramentas de inteligência artificial”, colocando o foco não apenas na capacidade da tecnologia, mas também na possibilidade de ser utilizada deliberadamente por pessoas com intenções maliciosas.
As declarações de Gates surgem num momento em que se intensificam os debates sobre os riscos associados ao desenvolvimento da inteligência artificial e sobre o papel que os governos devem desempenhar na definição de regras para o setor.
Gates rejeita a autorregulação das empresas
Durante a entrevista, Gates foi questionado sobre os alertas de trabalhadores do setor tecnológico que têm manifestado receios de que a inteligência artificial possa, no futuro, representar uma ameaça existencial para a humanidade.
O cofundador da Microsoft foi também confrontado com as posições de Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, que defendeu recentemente uma redução do ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial de fronteira. Amodei propôs que as empresas líderes do setor trabalhassem voluntariamente em conjunto para estabelecer padrões de segurança e defendeu igualmente a intervenção dos governos, embora tenha advertido que a aprovação de legislação pode ser demorada enquanto a tecnologia avança rapidamente.
Gates considera, no entanto, que a autorregulação das empresas de inteligência artificial não é suficiente. “Ninguém pensa que a autorregulação é suficiente”, afirmou, defendendo que deve existir legislação específica e que as autoridades policiais e os responsáveis políticos devem participar na definição das regras.
Segundo o empresário, é necessário estabelecer salvaguardas e mecanismos de monitorização capazes de acompanhar a evolução da tecnologia e limitar os riscos associados à sua utilização.
A posição representa uma mudança face à tradicional resistência de parte da indústria tecnológica à intervenção governamental, ao colocar Gates entre as figuras do setor que defendem uma supervisão pública mais forte sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.
Washington ainda debate como regular a inteligência artificial
O apelo de Gates surge enquanto continua por definir a resposta do Governo federal norte-americano à questão da regulamentação da inteligência artificial.
O debate ocorre num contexto em que líderes republicanos no Congresso têm desvalorizado alguns dos alertas relacionados com os riscos da tecnologia, enquanto o Presidente Donald Trump se manifestou contra a criação de mecanismos de controlo sobre a inteligência artificial e classificou os apelos à regulamentação como uma “farsa”.
Ao mesmo tempo, o setor tecnológico continua a discutir a forma como devem ser estabelecidos limites para o desenvolvimento dos sistemas mais avançados.
É neste contexto que está prevista, para terça-feira, uma reunião entre Trump, o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e responsáveis de empresas de inteligência artificial, segundo vários órgãos de comunicação social. O objetivo concreto do encontro ainda não é conhecido, nem está definido quais os responsáveis do setor tecnológico que participarão.
Johnson afirmou anteriormente que gostaria que Trump e os líderes das empresas de inteligência artificial se reunissem “numa grande sala, fechassem a porta e resolvessem isto”. O presidente da Câmara dos Representantes defendeu também uma discussão deliberada sobre a responsabilidade das empresas em matéria de segurança e sobre o eventual papel que o Governo deverá desempenhar.
O encontro surge depois de vários dos principais nomes da indústria tecnológica, incluindo Elon Musk e o responsável da OpenAI, Sam Altman, terem estado na Casa Branca durante um jantar de Estado na quinta-feira.














