Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School
Todos nós temos canções que poderemos apelidar de canções da nossa vida. São marcantes para nós, trazem-nos memórias e momentos geralmente de boa disposição, enfim são parte da nossa existência. E, se começamos a pensar nisso, vamos juntando sempre mais uma e outra que até já quase tínhamos esquecido. A memória é assim, quando pensamos em coisas agradáveis, outras lhe sucedem, deixando-nos às vezes bastante mais felizes e animados.
Hoje a música é diferente. Faz-se para consumir num instante, em qualquer playlist da nossa preferência. Quero crer que a grande maioria das músicas deste tempo serão completamente esquecidas, bem como os seus autores e interpretes, daqui a 10 ou 20 anos.
Consta que Phil Collins (quem não conhece que vá ouvir…) decidiu voltar aos palcos quando, um dia, ouviu uns amigos dos filhos perguntarem-lhes o que é que o pai deles fazia ou tinha feito na vida (dado que dava ares de não trabalhar e estar reformado).
A rapidez com que tudo se consome e esquece é estonteante. Como diria alguém numa música (vão procurar se não conhecem) é como um chiclete que se mastiga e deita fora. E esta realidade é dura porque gera baixa qualidade e muita quantidade. É um sistema de fast food que nos atropela a todos, inclusive as empresas. E quem perde com isto é a gestão de longo prazo, tão necessária à subsistência das empresas; ou seja, perdemos todos enquanto sociedade. A voracidade do momento é assustadora e arrebatadora de tudo o que seja pensar e planear o futuro.
Dir-me-ão que na situação política e económica atual, em que se privilegia o facto inventado à própria realidade e em que tudo muda sem haver qualquer pejo em respeitar ética e verdade é difícil – senão impossível – tomar decisões que sejam válidas e apropriadas
Na prática a criação de acontecimentos fictícios a uma velocidade impressionante, leva a que ninguém tenha tempo para assentar uma decisão com base na realidade do momento. Mais me impressiona que bolsa, mercados de futuros e mercado de capitais aceitem essa turbulência, acreditem nela e a reflitam no seu funcionamento, quando deveriam ser aqueles que deviam atuar não com base na ficção, mas sim na realidade. E quando tudo muda em 5 minutos e volta, 5 minutos depois, ao mesmo, para a seguir voltar a mudar, quem ficar quieto, pelo menos em 50% das vezes, está a acertar. A excessiva volatilidade no longo prazo é uma linha em que importa apenas conhecer a tendência e quando não há tendência tem de haver paciência porque mais cedo ou mais tarde tudo vai voltar a ser imprevisível.
Não sei quais serão as músicas da sua vida destas novas gerações. Talvez a “Carmina Burana” de Carl Orff, onde o seu texto em alemão nos relembra o passado e o presente, ou “O voo do moscardo”, que tem como objetivo evocar musicalmente o padrão de voo aparentemente caótico e em rápida mudança de um besouro? Lembra alguma coisa? Esperemos que não acabe tudo com “a mula da cooperativa a dar dois coices no telhado”.




