A macroeconomia tornou-se mais difícil de antecipar, mas isso não significa que seja impossível de analisar. Esta é a convicção de Paul Diggle, Chief Economist da Aberdeen Investments, que defende uma mudança na forma como investidores e gestores de carteiras encaram as previsões macroeconómicas.
“Macro é impossível de prever – por isso, não tente” é uma ideia que, segundo o economista, se tornou comum entre participantes nos mercados, sobretudo entre investidores focados exclusivamente na análise bottom-up. Embora reconheça que existe uma parte de verdade nesta visão, Diggle considera que a conclusão é errada e pode ter consequências na forma como as carteiras são construídas e os riscos são geridos.
A última década trouxe vários choques que dificilmente faziam parte dos cenários-base dos investidores: uma pandemia, vários choques energéticos provocados por guerras e a subida da inflação ao ritmo mais rápido de uma geração. Ao mesmo tempo, relações que durante anos pareceram relativamente estáveis – entre crescimento e inflação, política económica e mercados ou ações e obrigações – tornaram-se mais instáveis.
“Se a afirmação é que a macro é ruidosa, incerta e sujeita a surpresas, concordo”, afirma Diggle. O problema surge, na sua perspetiva, quando se passa de “incerto” para “incognoscível”.
Para o economista, por baixo da volatilidade existem diferentes regimes macroeconómicos e estes continuam a ser relevantes para os investidores. A inflação é um dos exemplos. Durante grande parte da década de 2010, manteve-se estruturalmente baixa, permitindo aos bancos centrais apoiar os mercados com poucas restrições. Atualmente, é mais volátil e está mais exposta a choques do lado da oferta, sejam eles provocados por fatores geopolíticos, climáticos ou por decisões de política económica.
Essa alteração influencia a reação dos bancos centrais e, consequentemente, a forma como os mercados avaliam tanto os ativos de risco como os ativos considerados de menor risco.
Também a geopolítica deixou de poder ser encarada como um fator secundário. Se anteriormente era possível argumentar que os acontecimentos geopolíticos raramente tinham efeitos prolongados nos mercados, essa perspetiva tornou-se cada vez mais difícil de sustentar. Os conflitos podem agora afetar diretamente rotas comerciais, cadeias de abastecimento e preços da energia, com impacto final sobre a inflação e o crescimento.
É precisamente a repetição destes choques que, segundo Diggle, está a transformar o ambiente macroeconómico. O aumento persistente do risco geopolítico e a maior frequência de choques do lado da oferta representam mudanças estruturais que os investidores devem incorporar na análise.
Nesse contexto, o valor da análise macroeconómica não estará tanto em prever o PIB do trimestre seguinte com uma precisão de uma décima, mas em identificar o conjunto de resultados possíveis para variáveis como crescimento, inflação e política monetária, bem como perceber como essas probabilidades se alteram ao longo do tempo.
A macroeconomia deve, por isso, ser encarada menos como um exercício de previsões pontuais e mais como uma ferramenta para compreender diferentes regimes e construir cenários.
Para as carteiras, a diferença é significativa. Um contexto em que os riscos de inflação estão equilibrados em torno de uma meta de 2% é muito diferente de outro em que a inflação apresenta uma tendência persistente para ficar acima ou abaixo desse nível. Da mesma forma, um mundo em que a geopolítica é apenas um fator de fundo não apresenta os mesmos riscos que um cenário em que um conflito pode fechar importantes rotas marítimas ou interromper cadeias de abastecimento globais.
Ignorar estas mudanças não elimina os riscos, mas deixa os investidores menos preparados para lidar com eles.
Diggle identifica ainda uma dimensão comportamental nesta questão. Considerar a macroeconomia “imprevisível” pode ser uma forma de evitar uma incerteza desconfortável. É mais simples concentrar a análise nos fundamentais das empresas do que incorporar riscos macroeconómicos complexos e em constante evolução.
Mas os investidores não podem ignorar esse contexto. “A macro pode ser incerta – mas é também um dos principais fatores que determinam o ambiente em que todos os ativos são valorizados”, sublinha.
A conclusão do Chief Economist da Aberdeen Investments é, por isso, que a maior dificuldade em prever a economia não deve levar os investidores a abandonar a análise macroeconómica. Deve antes obrigá-los a mudar a forma como a fazem: menos centrada na tentativa de acertar numa previsão específica e mais orientada para compreender riscos, regimes económicos e os diferentes cenários que as carteiras poderão ter de enfrentar.














