Por José João Mendes, Presidente da Direção da Egas Moniz School of Health & Science
A maior vantagem competitiva das organizações durante o século XX foi o acesso privilegiado ao conhecimento. Saber aquilo que os outros não sabiam, aceder a informação difícil de obter e reunir competências raras e especializadas. Era nisto que assentava uma parte significativa da criação de valor. No século XXI, porém, essa realidade está a mudar rapidamente. A inteligência artificial está a reduzir o valor da escassez do conhecimento e a transferir a diferenciação para outro domínio: a capacidade de decidir quando todos têm acesso à mesma informação.
Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Medicine mostrou que modelos generalistas, como o GPT-5.2, o Gemini 3.1 Pro e o Claude Opus 4.6, superaram ferramentas especificamente desenvolvidas para apoio clínico, tanto em conhecimento técnico como no alinhamento com especialistas e na resposta a problemas reais. Qualquer setor que assuma que a sua especialização constitui, por si só, uma vantagem competitiva, poderá estar a subestimar a velocidade a que esta nova tecnologia está a evoluir.
Outro estudo publicado na mesma revista, e que contou com a participação de cerca de 1.300 participantes, demonstrou que disponibilizar inteligência artificial avançada às pessoas não melhorou automaticamente a qualidade das suas decisões. Quando utilizada em contextos reais de tomada de decisão, os resultados não foram significativamente superiores aos obtidos pelos grupos que não recorreram à inteligência artificial.
Podemos concluir, desta forma, que a tecnologia, por si só, não cria valor. A inteligência artificial pode disponibilizar conhecimento, mas continua a ser necessário alguém que compreenda o problema, identifique limitações, avalie riscos e assuma a responsabilidade pela decisão final.
Esta é a verdadeira mudança de paradigma. O principal desafio deixou de estar no acesso à informação e passou para a capacidade de julgamento. Interpretar, ponderar e decidir em ambientes de incerteza continuarão a ser competências exclusivamente humanas. Nenhum algoritmo assume responsabilidade nem constrói a confiança necessária para sustentar decisões com impacto nas pessoas e nas organizações.
As consequências para a gestão de talento são profundas. O relatório Future of Jobs da World Economic Forum identifica o pensamento analítico, a criatividade, a adaptabilidade e a resolução de problemas complexos entre as competências mais valorizadas para a próxima década. Todas elas assentam no julgamento, e não na mera memorização. O desafio das organizações deixa de ser apenas recrutar quem sabe mais e passa a ser identificar, desenvolver e reter quem decide melhor.
A liderança torna-se, por isso, ainda mais importante. Os líderes não são valorizados por possuírem mais informação do que os outros, mas pela capacidade de decidir quando a informação é incompleta, contraditória ou ambígua.
O setor da saúde ilustra esta realidade de forma particularmente evidente, mas o princípio aplica-se a qualquer atividade económica. O profissional de saúde integra fatores biológicos, psicológicos, sociais e éticos que nenhum modelo consegue captar na totalidade.
É também por este motivo que a formação terá inevitavelmente de mudar. Formar deixa de significar prioritariamente transmitir conteúdos e passa a significar desenvolver capacidades de análise, reflexão crítica, tomada de decisão e responsabilidade. As instituições de ensino que forem capazes de integrar o ensino, a investigação, a prestação de cuidados e o impacto social estarão mais bem preparadas para responder aos desafios desta nova realidade, expondo os estudantes a contextos reais, onde o conhecimento é continuamente posto à prova pela complexidade da prática.
Importa, contudo, evitar tanto o alarmismo como o entusiasmo acrítico. Uma análise publicada no início deste ano identificou mais de 4.600 estudos sobre inteligência artificial em medicina produzidos em apenas três anos. Apesar do enorme crescimento científico, continua a existir relativamente pouca evidência proveniente de contextos reais de prestação de cuidados. Este entusiasmo está frequentemente a avançar mais depressa do que a validação científica.
É precisamente neste contexto que o papel das universidades se transforma de forma mais profunda. Se a inteligência artificial democratiza o acesso ao conhecimento, então o valor das instituições de ensino deixa de residir apenas na transmissão de conteúdos e passa a centrar-se no desenvolvimento da capacidade de julgamento. Mais do que ensinar respostas, as universidades terão de preparar profissionais capazes de formular as perguntas certas, interpretar informação contraditória, tomar decisões em contextos complexos e assumir a responsabilidade pelas consequências dessas decisões.
Esta evolução reforça, simultaneamente, a importância de modelos de ensino assentes na experiência prática, na interdisciplinaridade, na investigação e no contacto com problemas reais. Num mundo em que o conhecimento está cada vez mais acessível, a verdadeira diferenciação estará na capacidade de transformar informação em discernimento, conhecimento em responsabilidade e tecnologia em decisões que criem valor para as pessoas e para a sociedade.
Durante décadas procurámos profissionais pelo conhecimento que acumulavam. Nas próximas décadas, o verdadeiro fator diferenciador será a capacidade de exercer julgamento num mundo onde o conhecimento deixou de ser escasso.
Quando a inteligência artificial já sabe, a verdadeira vantagem competitiva passa a ser a capacidade humana de decidir.
* A Egas Moniz School of Health and Science é uma instituição de ensino superior com sede e campus na Caparica (Almada) e unidade especializada em Sesimbra.




