Volta muda hábitos e é o “ganha-pão” de Ricardo

O sistema Volta de depósito e reembolso (SDR) está a mudar vidas e hábitos de muitas pessoas, algumas a arrecadar 20 euros por dia. Ricardo Silva chama-lhe o seu “ganha-pão”, que já foi de 50 euros diários.

Executive Digest com Lusa

O sistema Volta de depósito e reembolso (SDR) está a mudar vidas e hábitos de muitas pessoas, algumas a arrecadar 20 euros por dia. Ricardo Silva chama-lhe o seu “ganha-pão”, que já foi de 50 euros diários.

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“Agora está mais fraco porque anda muita gente a apanhar garrafas. Pessoas que têm casa, têm tudo, e andam a apanhar garrafas e latas na mesma, não têm vergonha de chegar ao lixo e apanhar”.

Ricardo, 37 anos, não tem casa e não tem nada. Dorme debaixo de um viaduto e antes de surgir o sistema Volta, em que cada garrafa ou lata até três litros vale 10 cêntimos, tinha uma vida diferente.

“Isto é um suporte extra que a gente tem. O Volta desde que veio muita gente está a aderir. Eu antes andava aqui, a pedir comida, as pessoas davam-me dinheiro e era o meu rendimento. Desde que veio isto do Volta comecei a ir cedo para os caixotes do lixo apanhar (latas e garrafas). Às vezes passo noites inteiras a apanhar”.

Sentado num muro perto da estação de comboios de Sete Rios, em Lisboa, estende o braço e explica que vai da Fundação Gulbenkian até Benfica a apanhar embalagens. Já fez 50 euros num dia, mas agora mal chega aos 20, porque a concorrência está a aumentar. E muito.

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Diz-se ex-toxicodependente, fala de problemas familiares, do que o levou a um viaduto, a pedir para comer, emociona-se e volta a sorrir. Já é mestre na apanha de embalagens Volta, conhece os melhores sítios, as melhores horas.

Junto da rede de autocarros há garrafas, na zona do Cais do Sodré também. Na rua José Malhoa, junto dos hotéis, também. “Encontro mais garrafas no dia dos caixotes amarelos”, diz, um sorriso quando o explica. E tem de ser ao anoitecer, antes da recolha do lixo.

Mas depois há mais locais, as papeleiras, outros contentores, e Ricardo prolonga a noite.

“Por isso é que eu me desenrasco”, diz à Lusa. E acrescenta de seguida: “Agora anda muita gente a apanhar. As raparigas da faxina vão ao lixo, tiram as garrafas, os seguranças, até os varredores de rua já andam com dois sacos, um só para as garrafas. Está tudo a aderir. Isto é um suplemento muito grande para a vida das pessoas”.

E encontram-se garrafas no lixo indiferenciado? “Encontra-se”, diz com ênfase. “Porque muita gente não separa, muita gente põe tudo junto”.

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Na busca de embalagens Volta, muitas pessoas têm virado contentores, espalhando o lixo na via pública. Ricardo diz que nunca o fez, considera “falta de educação”. “A pessoa que está a virar caixotes tem de ter consciência, porque nós somos racionais”.

Na sua procura também revira sacos de lixo, abre-os, e lamenta que as garrafas por vezes estejam amassadas, cheirem mal, tenham pedaços de comida. “Às vezes também nos cortamos. Não sabemos o que está lá dentro”. Abre a mão, mostra uma ferida num dedo, de uma lata de atum há dois dias. “Podemos ficar com problemas à pala disso”.

E não é estranho que as pessoas não façam separação? Ricardo responde assim: “Está a ver aquele prédio ao pé das Twin Towers? Aquele prédio que é milionário? As pessoas não separam nada. E quanto mais dinheiro têm pior”.

Ricardo falava da “Infinity Tower”, um empreendimento de luxo onde um T2 custa mais de um milhão de euros, segundo anúncios consultados pela Lusa.

“Há pessoas que não fazem reciclagem. Muita gente”, diz Joaquim Santos, também ela na volta das garrafas. “Entra” pelas 08:30 e sai pelas 18:00. Depois pelas 20:00 faz a ronda dos hotéis. “Não ando muito à noite porque não vejo bem”.

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Joaquim Santos já foi sem-abrigo, mas agora vive numa pensão paga pela assistência social, refeições incluídas, porque a mulher, doente oncológica e com problemas respiratórios, “usa máquina de ar”. O dinheiro da Volta é um suplemento.

Não diz como usa o dinheiro, e sem que a Lusa lhe pergunte atira: “O que está a dar mais polémica nisto é aqueles gajos que espalham o lixo todo no chão. Eu entro dentro de prédios, as pessoas estão fartas de me ver lá e nunca ninguém me mandou para a rua. Porque quando eu saio o chão está igual ao que estava. Não espalho nada”.

E sim, encontra muitas embalagens no lixo indiferenciado quando abre os sacos. Como Ricardo, lamenta que a recolha se tenha generalizado.

“Tudo a apanhar. Até pessoas bem vestidas. Você olha para elas e vê que não precisam daquilo para nada, mas andam a apanhar garrafas”.

Fica uns segundos calado e remata: “A confusão que me faz é que as empregadas de limpeza no tempo que andam a apanhar garrafas estão a dar prejuízo à empresa”.

Joaquim Santos não tem sugestões para melhorar o sistema, mas Ricardo tem uma, ainda que diga logo que “as pessoas se calhar não vão fazer”.

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No seu entender, devia haver um caixote do lixo ao lado dos outros, só para embalagens. “Assim, quando as pessoas que apanham essas garrafas e essas latas chegam lá já não têm de estar a sujar as mãos com comida, é mais higiénico”.

Na realidade a sugestão já foi posta em pática. É o contentor amarelo. E há outra realidade, que os contentores virados mostram diariamente: garrafas e garrafões de plástico, embalagens de todos os géneros misturadas com restos de comida.

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