Uns destroem drones russos que atacam cidades ucranianas. Outros percorrem centenas de quilómetros para atingir refinarias de petróleo em território russo. Mas há um pormenor que também está a chamar a atenção: os nomes pouco convencionais dos drones desenvolvidos pela Ucrânia.
Segundo o ‘Kyiv Post’, humor, trocadilhos e mensagens de desafio tornaram-se parte da guerra psicológica travada contra Moscovo, transformando os próprios nomes dos aparelhos numa arma de propaganda e de resistência.
“Pissioun”: o drone que virou um fenómeno
Um dos casos mais conhecidos é o PS-1 Sun, desenvolvido pela empresa ucraniana SkyFall. Rapidamente ganhou o apelido de “Pissioun”, uma expressão da gíria ucraniana para “pénis”, e o nome acabou por ultrapassar o próprio modelo.
O sucesso foi tal que nasceu até um novo verbo entre militares e apoiantes da Ucrânia: quando um drone kamikaze russo é abatido, diz-se que foi “pissiouned”, numa mistura de humor negro com provocação.
Na feira aeronáutica de Farnborough, no Reino Unido, a empresa apresentou uma nova versão, o PS-1 Sun Jet Killer, concebido para intercetar drones Shahed a jato utilizados pela Rússia. Um dos porta-vozes surgiu mesmo com uma t-shirt onde se lia apenas uma palavra: “Pissioun”.
Ao ‘Kyiv Post’, responsáveis da SkyFall explicaram que a intenção era criar um equipamento eficaz, mas também elevar o moral dos soldados. O resultado, garantem, superou todas as expectativas, transformando o drone numa “estrela global”.
Há drones chamados “F***-se Putin”
Nem todos os nomes chegam ao público.
A Fire Point, fabricante especializada em drones de longo alcance, comercializa oficialmente os modelos FP1 e FP2, mas, internamente, a sigla tem outro significado bem mais explícito: “F***-se Putin”.
É mais um exemplo de como o humor, a irreverência e a provocação passaram a fazer parte da identidade da indústria militar ucraniana.
“Inferno”, “Fevereiro” e até um pão tradicional
Também a estatal Ukroboronprom escolhe cuidadosamente os nomes dos seus drones.
O Liutyi, utilizado em ataques profundos contra refinarias russas, significa simultaneamente “furioso” e “fevereiro”, uma referência ao mês em que Moscovo lançou a invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022.
Outro modelo recebeu o nome Palianytsia, o tradicional pão branco ucraniano cuja pronúncia é conhecida por denunciar quem fala russo, tendo sido usada como forma de distinguir ucranianos de infiltrados russos.
Já Peklo, que significa “Inferno”, foi o nome escolhido pelo presidente Volodymyr Zelensky para outro drone de ataque.
Segundo o ‘Kyiv Post’, um responsável da Ukroboronprom explicou que a designação simboliza a “vingança por toda a Ucrânia” e a punição pela destruição provocada pela Rússia, incluindo a do lendário Antonov An-225 Mriya, o maior avião de carga do mundo.
Mais do que armas, símbolos de resistência
Para os fabricantes, estes drones representam muito mais do que simples equipamentos militares.
“Este não é apenas mais um produto comercial feito para gerar lucro. É um objeto que nos protege, que nos permite viver mais um dia e voltar a ver os nossos entes queridos”, afirmou um alto responsável da Ukroboronprom, citado pelo Kyiv Post.
Num país em guerra há mais de quatro anos, até os nomes dos drones passaram a fazer parte da resistência, misturando humor, provocação e vontade de mostrar que, apesar dos ataques russos, a capacidade de rir e desafiar o inimigo continua intacta.



















