Lactogal: Gigante do leite português investe milhões

Nascida há três décadas da união de três cooperativas, a Lactogal tornou-se o maior grupo lácteo ibérico. Hoje, representa cerca de 60% da produção nacional e é uma das maiores empresas agroalimentares portuguesas.

André Manuel Mendes

Mas a liderança traz também responsabilidades. Num contexto marcado pela volatilidade dos custos, pela pressão da concorrência internacional, pela concentração da distribuição e pelos desafios da sustentabilidade, o grupo prepara um novo ciclo de crescimento assente num investimento médio de 50 milhões de euros por ano até 2030, reforçando a aposta na inovação, na internacionalização e em novas categorias de negócio.

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Em entrevista à Executive Digest, José Marques, presidente da Lactogal, fala so­bre o equilíbrio entre o ADN cooperativo e a gestão de um grupo com 12 unidades industriais e cerca de 2.500 colabora­dores, analisa os desafios que o sector enfrenta e explica como a empresa quer continuar a criar valor para produtores, consumidores e accionistas num mercado cada vez mais competitivo e global.

A Lactogal nasce da união de cooperativas. Que papel teve essa origem cooperativa na construção do grupo que conhecemos hoje?

A génese do Grupo Lactogal, em 1996, foi uma resposta estratégica aos desafios de transformação que o sector enfrentava na altura.

A criação do Grupo, a partir da união de cooperativas que eram até então rivais (Agros, Proleite e Lacticoop), foi determinante para reforçar a capacidade de resposta do sector leiteiro em Portugal, contribuindo para a sua consolidação e modernização. Esta aliança histórica estabeleceu a identidade e o modelo de negócio do Grupo.

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O propósito central mantém-se inalterado: criar o máximo valor por litro de leite, colocando produtores e accionistas cooperativos no centro da estratégia. A gestão envolve um trabalho conjunto na definição dos planos estratégicos e este modelo, que a empresa chama “equação Lactogal”, é um dos pilares da sua actuação.

Numa operação com a dimensão que hoje tem na Península Ibérica, esta responsabilidade é encarada como essencial para garantir a sustentabilidade e a criação de valor ao longo de toda a cadeia.

Como se gere um grupo com raízes cooperativas, mas com a escala e complexidade industrial que a Lactogal tem hoje?

A nossa estrutura mantém a proximidade com a produção, através das cooperativas accionistas, sendo a gestão assegurada por uma estrutura de direcção executiva. Isto garante que as decisões estratégicas conciliem crescimento, competitividade e criação de valor, sem nunca esquecer o escoamento da produção entregue pelas accionistas.

Hoje, o Grupo Lactogal opera em 12 unidades industriais na Península Ibérica, emprega cerca de 2.500 colabo­radores e valoriza mais de 1.200 milhões de litros de leite por ano, provenientes de cerca de 1.800 produtores.

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2024 foi um dos melhores anos da his­tória. 2025 foi um ano bastante mais desafiante. O que explica esta inversão?

2024 foi atipicamente positivo, tendo-se afirmado como um dos três melhores da história da empresa. Em 2025, en­frentámos um contexto mais exigente, marcado por uma desaceleração em algumas categorias, maior pressão competitiva nos mercados internacionais e uma retracção sentida sobretudo no segundo semestre.

Apesar de a facturação ter aumentado de 1,1 mil milhões para 1,2 mil milhões de euros, o EBITDA desceu de 70 milhões de euros, em 2024, para 40,4 milhões de euros, em 2025, reflectindo o impacto desse enquadramento mais desafiante na performance operacional do Grupo.

Como é que o Grupo está a mitigar o im­pacto dos custos de energia, transporte e matérias-primas?

A volatilidade dos custos continua a representar um desafio para todo o sector agro-alimentar. Para mitigar estes impactos, temos vindo a reforçar a eficiência das operações, a optimizar processos ao longo da cadeia de valor e a promover uma gestão rigorosa dos recursos.

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Em simultâneo, trabalhamos de forma próxima com os nossos produtores, par­ceiros e clientes, procurando garantir o equilíbrio e a sustentabilidade do sector, mesmo em contextos de maior incerteza. A capacidade de adaptação, aliada a uma gestão prudente e de longo prazo, tem sido fundamental para responder às oscilações do mercado e continuar a assegurar a qualidade, a competitividade e a disponibilidade dos nossos produtos junto dos consumidores.

A Lactogal entra num novo ciclo com investimento médio de 50 milhões de euros por ano até 2030. Quais são as prio­ridades absolutas desse investimento?

Reforçar a competitividade através da inovação, da sustentabilidade e da criação de valor acrescentado para o consumidor. A inovação assume um pa­pel central nesta estratégia, permitindo desenvolver produtos diferenciadores que respondam às novas tendências de consumo e às necessidades de uma alimentação equilibrada e segura.

Esta visão está reflectida no nosso Roteiro de Sustentabilidade 2030, nomeadamente no pilar dedicado ao desenvolvimento de produtos e serviços alinhados com as expectativas do mercado e à promoção do leite e dos lacticínios como alimentos de referência.

Exemplo desta aposta é a expansão da gama Mimosa Proteína, cujos produtos são reforçados com proteína natural do leite para responder à crescente procura por soluções nutricionais, bem como o lançamento dos novos Mimosa Colagénio, um alimento funcional que combina colagénio e vitamina C numa saborosa gelatina láctea com alto teor proteico.

Em 2024, o Grupo Lactogal lançou uma inovação mundial – o leite Matinal Livre, o primeiro leite com bifidobactérias tindalizadas, que combina os benefícios nutricionais do leite com ingredientes inovadores associados ao bem-estar digestivo e imunitário.

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Estes exemplos ilustram a nossa aposta na inovação para reforçar a nossa liderança e criar valor sustentável ao longo de toda a cadeia de valor.

A Lactogal representa cerca de 60% da produção de leite em Portugal. Ser líder de mercado é mais uma vantagem ou uma responsabilidade?

Ser líder de mercado é, sem dúvida, uma vantagem em termos de escala, capacidade de investimento e inovação. Mas, no caso do Grupo Lactogal, é sobretudo uma responsabilidade.

Quando se representa uma parte tão relevante da produção nacional, é fundamental assegurar o equilíbrio e a sustentabilidade de toda a cadeia de valor, desde os produtores até aos consumidores.

Essa posição exige uma visão de longo prazo e decisões que conciliem competitividade, criação de valor e desenvolvimento do sector. Mais do que procurar ganhos imediatos, o nosso compromisso passa por valorizar cada litro de leite, investir na transformação da indústria e promover um crescimento sustentável que beneficie todos os intervenientes da cadeia.

Como se equilibra a pressão do mercado com a necessidade de garantir rendimen­tos justos a quem produz?

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Garantir o equilíbrio entre a realidade do mercado e a sustentabilidade da produção é uma das principais respon­sabilidades do Grupo. Trabalhamos diariamente para criar condições que contribuam para a estabilidade da pro­dução e para a sustentabilidade econó­mica dos produtores, sem comprometer a competitividade da cadeia de valor.

Para isso, recorremos a mecanismos internos de estabilização, acompanha­mos de forma contínua a evolução dos mercados e analisamos regularmente os principais indicadores de referência do sector. Esta visão de longo prazo reflecte o nosso compromisso com a valorização da produção nacional e com o desenvolvimento sustentável do sector, cuidando da origem para continuar a alimentar o futuro.

Existe risco de redução do número de produtores nos próximos anos? Como está a Lactogal a preparar esse cenário?

O sector agro-alimentar está em cons­tante evolução e enfrenta desafios que exigem capacidade de adaptação por parte de todos os intervenientes. O Gru­po acompanha permanentemente essa evolução e procura preparar-se para os diferentes cenários, mantendo uma visão de longo prazo assente na inovação, na eficiência e na criação de valor.

Mais do que reagir às mudanças, o nosso objectivo é continuar a contribuir para um sector cada vez mais compe­titivo, sustentável e preparado para responder às necessidades do futuro.

A Europa enfrenta concorrência agressi­va de geografias como Estados Unidos e Nova Zelândia. Que medidas são neces­sárias para equilibrar este jogo?

Para equilibrar esse jogo, a Europa tem primeiro de conseguir pôr em valor o seu próprio modelo de produção. Falamos de um sistema com exigên­cias muito superiores em termos de segurança alimentar, controlo e qua­lidade, e isso tem de ser reconhecido pelo mercado.

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Depois, é essencial haver mais infor­mação e mais previsibilidade no sector, porque hoje há muita volatilidade e pouca capacidade de antecipar o mer­cado. E, em paralelo, é preciso investir na adaptação da indústria, sobretudo em categorias de maior valor acrescen­tado, para que a competitividade não seja feita apenas pelo preço.

No fundo, a resposta passa por mais transparência, mais investimento e por reforçar a marca europeia e, no nosso caso, também a marca ibérica como uma origem diferenciadora.

A empresa nasceu para organizar o sec­tor face à pressão da distribuição e da concorrência internacional. Essa missão mantém-se actual?

A missão que esteve na origem do Grupo Lactogal mantém-se plenamente actual, embora os desafios tenham evoluído. Hoje, mais do que organizar o sector, o nosso papel passa por contribuir para a sua competitividade, sustentabilidade e capacidade de inovação num contexto cada vez mais global e exigente.

Continuamos comprometidos com a criação de valor ao longo de toda a cadeia, investindo na transformação da indústria, no desenvolvimento de produtos diferenciadores e na valorização do leite e dos lacticínios. É uma visão de longo prazo que continua a orientar a nossa actuação e que se reflecte no propósito do Grupo: cuidar da origem para alimentar o futuro.

Qual o peso das exportações para a Lactogal e quais os mercados mais preponderantes?

As exportações assumem um papel cada vez mais relevante na estratégia de crescimento do Grupo. Em 2025, o volume de negócios realizado fora do mercado português ascendeu a 408,8 milhões de euros, reflectindo a importância da internacionalização para o desenvolvimento da nossa actividade.

A nossa presença internacional estende-se a diferentes geografias, com destaque para mercados onde já temos uma posição consolidada, nomeadamente em África, na Europa e na América. Esta diversificação tem sido fundamental para reforçar a resiliência do negócio e responder aos desafios de um contexto global cada vez mais exigente.

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Continuaremos a apostar em produtos de maior valor acrescentado, na valorização das nossas marcas e no desenvolvimento de soluções ajustadas às necessidades dos diferentes mercados, reforçando a presença internacional do Grupo de forma sustentada.

A recente aquisição da Queijos Santiago e a parceria com a CLUN são exemplos de crescimento inorgânico. Podemos esperar mais movimentos deste tipo?

Estamos a entrar num novo ciclo estratégico, com foco no reforço da competitividade, da inovação e da criação de valor.

A recente aquisição da Queijos Santiago e a parceria estratégica com a CLUN, na Galiza, enquadram-se nesse caminho de crescimento, que combina expansão orgânica com crescimento inorgânico sempre que faça sentido. Estes movimentos são importantes para reforçar a presença em categorias em que a Península Ibérica ainda não é autossuficiente e para criar mais valor em segmentos como os queijos e os iogurtes.

Este nível de investimento traduz uma base financeira sólida e confiança na execução da estratégia, até porque, naturalmente, qualquer empresa com ambição de crescimento procura sempre reforçar a sua capacidade de investimento quando reúne as condições para o fazer.

Mais do que o modelo de crescimento — orgânico ou inorgânico — o que nos orienta é a capacidade de gerar valor sustentável e preparar o Grupo para os desafios e oportunidades do futuro.

Ao fim de 30 anos de história, qual é a maior decisão estratégica que a Lactogal ainda não tomou — mas que pode vir a ser decisiva?

Se há algo que as últimas três décadas nos ensinaram é que as decisões mais importantes são muitas vezes aque­las que respondem aos desafios do seu tempo.

Mais do que antecipar uma decisão específica, o nosso compromisso é con­tinuar a preparar o Grupo para o futuro, investindo na inovação, na competiti­vidade e na sustentabilidade, para que estejamos prontos para aproveitar as oportunidades que venham a surgir.

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