Explicador. Funeral de Khamenei marca o fim de uma era no Irão. A próxima pode ser ainda mais dura?

Vazio deixado pelo líder supremo não está a ser preenchido apenas pelo seu sucessor formal. Está também a abrir espaço a uma liderança mais coletiva, mais militarizada e cada vez mais dependente dos Guardas da Revolução

Francisco Laranjeira

Depois de cinco dias de cerimónias fúnebres e de novos confrontos com os países que o mataram, o funeral de Ali Khamenei marca o fim de uma era na República Islâmica. Mas, no Irão, o vazio deixado pelo líder supremo não está a ser preenchido apenas pelo seu sucessor formal. Está também a abrir espaço a uma liderança mais coletiva, mais militarizada e cada vez mais dependente dos Guardas da Revolução.

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Segundo a ‘Newsweek’, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, já é apresentado como novo líder supremo, mas não apareceu no funeral do pai nem foi visto ou ouvido publicamente desde o ataque em que terá ficado ferido e no qual morreram vários membros da família. A ausência alimenta dúvidas sobre a sua real capacidade de exercer o poder, mesmo que, no plano formal, a estrutura do regime continue a funcionar em seu nome.

A primeira ideia a reter é esta: o Irão não parece caminhar para uma rutura imediata. Analistas ouvidos pela publicação admitem que a arquitetura oficial da República Islâmica deverá manter-se, com o poder concentrado no topo do sistema. Ainda assim, nos bastidores, vários centros de influência procuram ganhar margem, entre órgãos do Estado, fações políticas e, sobretudo, os Guardas da Revolução Islâmica.

Mojtaba Khamenei herda uma posição complexa. Tal como o pai em 1989, chega ao cargo com dúvidas sobre a legitimidade religiosa necessária para liderar um sistema construído em torno da figura do jurista islâmico. Mas parte de uma base ainda mais frágil: não tem o mesmo percurso revolucionário de Ali Khamenei, nem a experiência de ter sido presidente durante a guerra Irão-Iraque. A sucessão, feita em contexto de guerra e urgência, pode acelerar uma transformação que já estava em curso: a passagem de uma República Islâmica dominada por clérigos para um regime cada vez mais condicionado pelo aparelho militar.

É aqui que entram os Guardas da Revolução. Para vários especialistas citados pela ‘Newsweek’, a morte de Ali Khamenei reforça o peso do IRGC, que sai do conflito recente com maior capacidade para definir prioridades políticas e estratégicas. Mojtaba e o establishment clerical sabem que a sobrevivência do regime depende, em larga medida, da força dos Guardas da Revolução. O novo líder supremo pode manter o selo religioso e constitucional do poder, mas a máquina que sustenta esse poder parece cada vez mais militar.

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A ausência pública de Mojtaba torna o cenário ainda mais invulgar. Um dos analistas compara a situação a uma espécie de “ocultação” política: um líder que existe como figura de autoridade, mas que não aparece, enquanto outros governam em seu nome. De acordo com essa leitura, o Irão estará a ser conduzido por uma liderança coletiva de cinco elementos, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian, o presidente do Parlamento, Mohammed Bagher Qalibaf, o chefe do poder judicial, Gholam Hossein Mohseni Ejehi, o comandante dos Guardas da Revolução, Ahmad Vahidi, e um representante não identificado do Exército regular.

Esse modelo não significa necessariamente caos. Pelo contrário, a perceção de ameaça existencial vinda de Israel e dos EUA pode estar a unir fações que, noutro contexto, competiriam de forma mais aberta pelo poder. Ainda assim, há uma mudança importante: se Mojtaba Khamenei continuar ausente ou politicamente enfraquecido, a sua autoridade pode passar a funcionar mais como legitimação formal das decisões de outros do que como comando efetivo.

No plano interno, o novo Irão deverá manter uma linha dura. Mehrzad Boroujerdi, especialista em assuntos políticos e religiosos iranianos, antecipa que Mojtaba Khamenei continuará a abordagem autoritária do pai na política doméstica e tentará reanimar o chamado “Eixo da Resistência”, a rede de aliados e milícias apoiadas por Teerão no Médio Oriente. Mas há uma possível nuance: o novo poder poderá aliviar algumas restrições sociais e culturais, não por convicção liberal, mas por pragmatismo, para reduzir descontentamento e garantir a estabilidade do regime.

Essa distinção é essencial. Qualquer abertura limitada no plano social não significaria, necessariamente, democratização. Seria antes uma válvula de segurança. O regime pode tentar dar algum espaço à sociedade em áreas menos sensíveis, enquanto mantém controlo apertado sobre política, segurança, oposição e política externa.

A grande pergunta, depois do enterro de Ali Khamenei, é que tipo de República Islâmica vai emergir. Há três cenários que se sobrepõem. O primeiro é a continuidade institucional: o regime mantém as regras formais, com Mojtaba no topo. O segundo é a militarização: os Guardas da Revolução ganham poder real na definição da estratégia. O terceiro é uma liderança coletiva informal, em que várias figuras do Estado governam em nome de um líder supremo fragilizado ou ausente.

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O contexto externo será decisivo. O conflito em curso com os EUA e Israel continua a moldar a transição. A ameaça de Donald Trump de romper o cessar-fogo, referida pela Newsweek, aumenta a pressão sobre Teerão e reduz o espaço para disputas públicas dentro do regime. Em tempo de guerra, a prioridade da elite iraniana tende a ser a sobrevivência do sistema, não a reforma profunda.

Por isso, o funeral de Ali Khamenei não fecha apenas um capítulo biográfico. Fecha a era de um líder que governou o Irão durante 37 anos e abre uma fase mais opaca, em que o poder pode estar menos visível, mas não necessariamente menos duro. O novo Irão que agora surge pode ter o nome de Mojtaba Khamenei no topo. Mas a força que o sustenta parece cada vez mais vir dos quartéis, dos serviços de segurança e dos homens que controlam a guerra.

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