A Guarda Revolucionária iraniana afirmou ter atacado alvos militares dos EUA no Bahrain e no Kuwait, numa nova escalada que ameaça destruir o frágil cessar-fogo entre Washington e Teerão e volta a colocar o Estreito de Ormuz no centro da crise energética mundial.
Segundo o ‘The Times’, Teerão declarou ter lançado uma operação conjunta com mísseis e drones contra instalações militares dos EUA em Bandar Salman, no Bahrain, e na base aérea de Ali Al Salem, no Kuwait. A Guarda Revolucionária disse ainda ter abatido um drone MQ-9 americano que estaria a tentar interferir na operação.
As autoridades do Bahrain e do Kuwait acionaram sirenes de alerta aéreo e o exército kuwaitiano afirmou que as defesas aéreas estavam a responder a ataques “hostis” com mísseis e drones. Não houve, numa primeira fase, comentário público dos militares dos EUA sobre os ataques iranianos.
A resposta de Teerão surgiu depois de os EUA terem lançado novos bombardeamentos contra alvos iranianos na zona de Ormuz, em retaliação por ataques a petroleiros que atravessavam o estreito. O Comando Central dos EUA afirmou que a operação atingiu mais de 60 pequenas embarcações da Guarda Revolucionária, além de sistemas de defesa aérea, vigilância costeira, mísseis e locais de lançamento de drones.
Em comunicado, o Centcom acusou as forças iranianas de uma “violação clara e perigosa” do cessar-fogo e de colocarem em causa a liberdade de navegação. Segundo um responsável dos EUA citado pela ‘Reuters’, os ataques visaram sistemas de defesa aérea, vigilância costeira, mísseis terra-ar, mísseis de cruzeiro antinavio e locais de lançamento de drones.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, defendeu a resposta de Washington antes da cimeira de líderes da Aliança em Ancara. “Quando há um cessar-fogo e o Irão está basicamente a violá-lo, acho absolutamente crucial que os EUA reajam com firmeza”, afirmou.
Do lado iraniano, o comando militar conjunto Khatam al-Anbiya classificou os ataques dos EUA como um “ato flagrante de agressão” e prometeu uma “resposta esmagadora”. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, acusou Washington de violar o acordo de cessar-fogo, apontando não só os bombardeamentos, mas também a renovação das sanções ao petróleo e a interferência no controlo iraniano do estreito de Ormuz.
“A era da intimidação e da extorsão acabou. Não recuaremos”, escreveu Qalibaf na rede social X, numa mensagem que reforça a posição de Teerão de que o estreito de Ormuz é uma peça central da sua soberania e da sua capacidade de pressão negocial.
A imprensa iraniana noticiou explosões em vários pontos estratégicos do sul do país, incluindo a ilha de Kharg, Qeshm, Sirik e Bandar Abbas. A ‘Press TV’ afirmou que várias explosões foram ouvidas na ilha de Kharg, principal centro de exportação petrolífera do Irão, embora o Centcom não tenha referido esse local no balanço da operação.
Não foram comunicadas mortes civis no Irão, mas a televisão estatal iraniana relatou feridos por estilhaços depois de um “projétil inimigo” atingir um cais comercial em Sirik. Também terão sido atingidos cais de pesca em Sirik e Bandar Abbas.
A nova escalada representa mais um golpe no acordo provisório entre os EUA e o Irão, assinado em junho para abrir um período de 60 dias de negociações sobre uma solução permanente. O memorando pretendia reduzir a tensão, garantir a reabertura e segurança da navegação em Ormuz e criar margem para negociações sobre o programa nuclear iraniano e sanções.
Washington agravou a pressão ao revogar a licença que permitia ao Irão vender crude e produtos petrolíferos nos mercados internacionais durante o período da trégua. A autorização tinha sido emitida a 22 de junho e devia vigorar até 21 de agosto, mas os EUA deram agora prazo até 17 de julho para encerrar transações em curso.
A decisão teve impacto imediato nos mercados. Os preços do petróleo subiram depois dos ataques e das declarações de Donald Trump, com o Brent a aproximar-se dos 78 dólares por barril e sinais de regresso da volatilidade que marcou as fases mais intensas da guerra.
O Qatar responsabilizou o Irão pelos ataques a embarcações comerciais, incluindo o navio de gás natural liquefeito Al Rekayyat, que terá sido atingido por um drone e registado um incêndio na casa das máquinas. A tripulação foi dada como segura e estava a ser evacuada. Teerão rejeitou as acusações e afirmou estar a cumprir os seus compromissos, embora tenha alertado que navios comerciais correm riscos se usarem rotas não coordenadas com o Irão.
Um petroleiro com bandeira saudita, identificado por fontes de segurança marítima como o superpetroleiro Wedyan, também terá sofrido danos ao largo de Omã, embora a causa ainda não esteja esclarecida.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, afirmou que, nos termos do memorando provisório, as negociações sobre um acordo final “não começarão se as ameaças continuarem”. Donald Trump, por sua vez, tem ameaçado retomar os bombardeamentos se Teerão não aceitar “fazer um acordo”.
A crise volta assim ao ponto mais perigoso: Ormuz continua a ser a alavanca estratégica do Irão, os EUA tentam restaurar a dissuasão pela força e os mercados receiam que cada novo ataque a navios transforme uma trégua frágil numa guerra aberta.









