O funeral de Ali Khamenei, antigo líder supremo do Irão, termina esta quinta-feira com o enterro em Mashhad, no nordeste do país, depois de vários dias de cerimónias fúnebres que atravessaram cidades sagradas iranianas e iraquianas.
Khamenei, que liderou a República Islâmica durante quase 37 anos, morreu aos 86 anos, na sequência de ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel no final de fevereiro. A morte foi oficialmente confirmada a 1 de março, mas as cerimónias inicialmente previstas para esse mês acabaram por ser adiadas devido à guerra e à necessidade de preparar uma mobilização de grande escala.
As homenagens começaram em Teerão e passaram por Qom, um dos principais centros religiosos do Irão, antes de a urna seguir para o Iraque. Segundo a ‘Reuters’, o caixão chegou na terça-feira a Najaf, cidade sagrada para os muçulmanos xiitas, onde foi recebido por responsáveis iraquianos, incluindo o primeiro-ministro Ali al-Zaidi, e por figuras religiosas.
A passagem por Najaf tem forte peso simbólico. A cidade alberga o santuário do imã Ali, primo e genro do profeta Maomé, e é um dos locais de peregrinação mais importantes do xiismo. A presença do corpo de Khamenei naquele território transformou o funeral numa cerimónia não apenas nacional, mas também regional.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, deslocou-se igualmente a Najaf para participar nas cerimónias. Milhares de pessoas acompanharam a procissão fúnebre pelas ruas da cidade, com bandeiras iranianas e iraquianas e palavras de ordem contra os Estados Unidos e Israel, num ambiente que sublinhou a dimensão política do luto.
A comitiva passou ainda por Karbala, outra cidade sagrada do Iraque, antes do regresso ao Irão para o enterro em Mashhad. A cidade, de onde Khamenei era natural, é também um dos principais centros religiosos do país e acolhe o túmulo do imã Reza, figura central para os xiitas.
Em abril, milhares de iranianos já tinham prestado homenagem ao antigo líder supremo, 40 dias após a sua morte, num rito importante do luto muçulmano. Agora, o prolongamento das cerimónias até esta quinta-feira dá ao regime a oportunidade de reforçar a imagem de continuidade num dos momentos mais sensíveis da história recente da República Islâmica.
Os três filhos de Khamenei — Mustafa, Meysam e Masoud — marcaram presença nas cerimónias em Teerão. Já Mojtaba Khamenei, apontado como sucessor do pai e novo líder supremo desde março, não apareceu publicamente nas homenagens, num contexto em que as autoridades iranianas têm invocado razões de segurança.
A ausência de Mojtaba alimenta leituras sobre o grau de proteção em torno da nova liderança iraniana, depois dos ataques que mataram o pai e abalaram o centro do poder em Teerão. Ainda assim, o regime procurou projetar controlo, continuidade e unidade, transformando o funeral num momento de afirmação interna e externa.
Mais do que uma despedida, as cerimónias de Khamenei funcionam como uma mensagem política. Ao levar o corpo do antigo líder por Teerão, Qom, Najaf, Karbala e Mashhad, o Irão procura ligar a sucessão do poder ao eixo religioso xiita e à rede de influência regional que construiu ao longo de décadas.







