A inteligência dos EUA terá ajudado drones ucranianos de longo alcance a contornar as defesas aéreas russas e a atingir alvos no interior da Rússia, contribuindo para uma vaga recorde de ataques contra refinarias que está a pressionar Moscovo e a levar o Kremlin a tentar controlar a cobertura interna dos estragos.
Segundo o ‘Kyiv Post’, que cita uma análise do ‘Financial Times’ baseada em dados da consultora polaca Rochan Consulting, as forças ucranianas realizaram em maio 16 ataques bem-sucedidos contra refinarias russas, o número mensal mais elevado desde o início da campanha. Desde o início de 2026, as refinarias russas terão sido atingidas pelo menos 194 vezes, um aumento de 11 vezes face ao mesmo período do ano anterior.
O ‘Financial Times’ escreve que altos responsáveis ucranianos, não identificados, atribuíram parte do sucesso da campanha ao apoio de inteligência dos EUA. Essa ajuda terá permitido a Kiev identificar rotas de voo mais eficazes para os drones, evitando sistemas russos de defesa aérea e permitindo ataques contra alvos mais profundos no território russo.
Drones ucranianos já pressionam a defesa aérea russa
A campanha também reflete a evolução da própria capacidade industrial ucraniana. Analistas citados pelo ‘Financial Times’ apontam para o aumento da produção doméstica de drones de longo alcance e para uma melhor coordenação operacional como fatores decisivos para a multiplicação dos ataques.
A escala do fenómeno é visível até nos números russos. De acordo com dados oficiais do Ministério da Defesa russo citados pelo ‘Financial Times’, Moscovo afirma ter intercetado 63.933 drones ucranianos sobre território russo e zonas ocupadas da Ucrânia nos primeiros seis meses de 2026. Ainda assim, o forte aumento de ataques está a sobrecarregar a defesa aérea russa e a dificultar a proteção de infraestruturas militares e energéticas.
A Ucrânia tem concentrado parte relevante da campanha em refinarias e instalações ligadas ao setor petrolífero russo. A ‘Reuters’ noticiou que Volodymyr Zelensky aprovou uma campanha de 40 dias destinada a “influenciar” a Rússia a pôr fim à guerra, depois de consultas com os serviços de segurança ucranianos sobre ataques a alvos russos.
Kremlin tenta travar imagens dos ataques
O impacto já não é apenas militar ou económico. A campanha de drones está também a interferir com a narrativa interna do Kremlin, que durante anos tentou manter a população russa afastada das consequências diretas da guerra.
Segundo a ‘Verstka’, meio independente russo citado pelo ‘Kyiv Post’, a administração presidencial russa terá instruído meios de comunicação controlados pelo Estado a deixar de publicar vídeos e fotografias dos estragos causados por ataques ucranianos em território russo. A orientação terá partido diretamente do Kremlin na segunda metade de junho.
De acordo com fontes citadas pela ‘Verstka’ e reproduzidas pela ‘NV’, os meios pró-governo foram aconselhados a reduzir a cobertura dos ataques ucranianos e a destacar antes as consequências dos bombardeamentos russos contra a Ucrânia. Alguns canais de Telegram próximos do Kremlin ou do Ministério da Defesa russo, como Mash, Baza e Shot, terão passado a ignorar ou minimizar ataques contra refinarias e instalações militares.
Moscovo quer mostrar força, não vulnerabilidade
A ordem reflete uma preocupação política evidente: mostrar ao público russo que a guerra continua distante, controlada e favorável a Moscovo. Mas os ataques ucranianos de longo alcance tornam essa narrativa cada vez mais difícil de sustentar.
O ‘Kyiv Post’ recorda que, após um ataque contra Moscovo em junho, um apresentador do canal Solovyov Live chegou a pedir aos serviços de segurança russos que abrissem processos por traição contra residentes que tinham filmado o ataque. Já Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, tentou recentrar a atenção nos ataques russos contra a Ucrânia, pedindo aos jornalistas que olhassem antes para essas imagens.
A pressão sobre a infraestrutura energética russa coincide com uma fase particularmente intensa da guerra aérea. A ‘Reuters’ noticiou que um grande ataque russo com mísseis e drones contra a Ucrânia, no domingo, matou pelo menos 20 pessoas e expôs novamente a escassez de sistemas Patriot e intercetores capazes de travar mísseis balísticos.
Negociações continuam bloqueadas
Apesar da pressão, Moscovo não dá sinais de abrandar as suas exigências. Altos responsáveis ucranianos envolvidos no processo de paz disseram ao ‘Financial Times’ que os negociadores russos continuam a pedir concessões profundas a Kiev e que as conversações mediadas pelos EUA dificilmente serão retomadas antes do fim do verão.
Publicamente, o Kremlin mantém a exigência de que a Ucrânia abandone partes do Donbass que a Rússia ainda não conseguiu conquistar militarmente. O ‘Financial Times’, citado pelo ‘Kyiv Post’, escreve também que Vladimir Putin terá ordenado às forças russas a conquista do restante território da região de Donetsk até ao final do ano, apesar do avanço lento e dispendioso das tropas russas.
Zelensky ironizou recentemente com os prazos russos, dizendo que Moscovo já adiou esse objetivo pelo menos 15 vezes sem conseguir tomar toda a região.
Vance diz que ofensiva russa está perto do limite
A leitura em Washington parece estar a mudar. Numa entrevista ao ‘The Times’, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou que a capacidade russa para obter ganhos através de novas operações ofensivas está a tornar-se “cada vez mais pequena” e a aproximar-se de zero.
Vance defendeu ainda que a estratégia de desgaste, assente numa postura defensiva ucraniana e no uso intensivo de drones, tem sido mais eficaz do que grandes ofensivas convencionais para recuperar território ocupado. Segundo o vice-presidente, a Rússia está a pagar “muito por cada quilómetro quadrado” que conquista, o que pode criar espaço para tentar aproximar o conflito de uma conclusão.
A avaliação surge no momento em que a Ucrânia tenta transformar a guerra de drones numa pressão estratégica sobre Moscovo: atingir refinarias, desgastar defesas aéreas, afetar a economia russa e mostrar à população que a guerra também chega ao território russo.
A guerra já entrou no interior da Rússia
A campanha de Kiev não substitui a necessidade de defesa aérea, munições e apoio militar ocidental, mas alterou o equilíbrio psicológico e operacional do conflito. A Rússia continua a lançar ataques devastadores contra cidades ucranianas, mas já não consegue impedir que drones ucranianos atinjam refinarias, fábricas militares e infraestruturas sensíveis a milhares de quilómetros da linha da frente.
É essa a mudança central: a guerra que o Kremlin tentou manter distante do quotidiano russo passou a aparecer em incêndios, explosões, vídeos apagados e ordens de silêncio. E quanto mais Moscovo tenta esconder esses ataques, mais evidente se torna que a campanha ucraniana de longo alcance deixou de ser apenas simbólica.














