A inteligência artificial está a entrar numa nova fase de maturidade. Depois de anos marcados por testes-piloto e experimentação, as organizações procuram agora transformar o potencial da tecnologia em ganhos concretos de produtividade, eficiência e escala. A agentificação, a soberania tecnológica e o impacto da IA no mercado de trabalho são conceitos que colocam novos desafios às empresas. Em entrevista à Executive Digest, João Viana Ferreira, partner da NTT DATA Portugal, analisa a forma como a inteligência artificial está a ser integrada e os investimentos necessários para acelerar a passagem da experimentação à criação de valor.
A inteligência artificial está no centro da discussão empresarial. Estamos perante um hype ou uma transformação real?
As duas. Existe sempre uma componente de hype associada às grandes mudanças tecnológicas, onde a velocidade das nossas expectativas é muito superior à velocidade a que o mundo físico, em toda a sua complexidade social, consegue reagir. Este facto é exacerbado pela dinâmica da comunicação digital e das redes sociais (onde tudo acontece ao minuto), muito mais rápido que o mundo físico, onde é necessário construir data centers, montar modelos de negócio, formar e gerir equipas. Aconteceu com a internet, com a cloud e com o mobile (e em períodos anteriores com os caminhos-de-ferro, a aviação ou o telégrafo). Mas reduzir a inteligência artificial a uma tendência passageira é um erro. Hoje já existem impactos concretos e mensuráveis.
O Global AI Report 2026 da NTT DATA, baseado num inquérito a mais de 2.500 executivos em 35 países, mostra que as organizações mais avançadas em IA têm 2,5 vezes mais probabilidade de crescer acima de 10% em receitas e três vezes mais probabilidade de atingir margens superiores a 15%. O que demonstra que a IA deixou de ser apenas experimentação tecnológica: Está a tornar-se num factor real de transformação da forma como vivemos, trabalhamos e interagimos. A nuance é que ainda estamos numa fase inicial, não conseguimos vislumbrar claramente onde o processo vai terminar. Como tal, ainda estamos numa fase de transição.
Muitas organizações continuam entre a experimentação e a transformação efectiva do modelo operativo, porque esta demora tempo. A tecnologia evolui rapidamente, mas as empresas transformam-se de forma gradual porque existem processos, cultura, sistemas legados e responsabilidade operacional. A dúvida não é se a IA vai ser relevante. Isso sabemos que será. O verdadeiro desafio é transformar potencial tecnológico em valor económico e social sustentável.
Muitas empresas continuam focadas em provas de conceito. Como é que se passa do piloto para a criação de valor?
Esse é provavelmente um dos temas mais importantes desta fase. Nos últimos anos, assistimos a uma enorme vaga de pilotos e experimentação, o que foi positivo porque permitiu aprender rapidamente. Mas um piloto não é transformação. E, no limite, as organizações precisam é de tempo. Vivemos hoje num contexto muito imediatista, onde esperamos que tudo aconteça rapidamente. Mas a própria história da tecnologia mostra-nos que as grandes transformações levam tempo a amadurecer. A democratização da internet, por exemplo, demorou praticamente duas décadas e continua ainda hoje a evoluir.
No fundo, a questão deixou de ser perceber o potencial da IA. Esse potencial já ninguém discute. O verdadeiro desafio agora é operacionalizar, integrar e escalar,
enquanto o negócio “business as usual” tem de continuar, estamos simultaneamente a garantir que tudo continua a correr como “normalmente”, e a transformar a forma como trabalhamos.
O estudo global da NTT DATA mostra que apenas 15% das organizações podem hoje ser consideradas verdadeiros “líderes em IA”. E o que as diferencia não é apenas tecnologia. É sobretudo a capacidade de execução. Essas organizações vão conjugando vários factores, com diferentes níveis de equilíbrio: i) estratégias claras, com liderança interessada e presente no tema ii) governação estruturada, iii) foco em domínios de elevado valor económico; iv) uma abordagem transversal da transformação; e v) integração com os processos reais do negócio.
Quais são os temas tecnológicos e sociais mais relevantes nesta evolução?
A IA envolve muito mais do que tecnologia. Talvez um dos aspectos mais fascinantes desta evolução seja precisamente a diversidade e amplitude de temas que cobre, desde desafios altamente técnicos até questões económicas, sociais, ambientais e até filosóficas. Naturalmente, existem temas tecnológicos fundamentais como cloud, dados, cibersegurança, AI engineering ou integração de sistemas. Mas rapidamente percebemos que esta transformação vai muito além da dimensão técnica. A sustentabilidade é um bom exemplo. O crescimento da IA vai aumentar significativamente as necessidades energéticas globais. O debate sobre eficiência energética, data centers e capacidade computacional será cada vez mais relevante.
Existe igualmente a questão da soberania tecnológica. O estudo da NTT DATA mostra que muitas organizações estão a reforçar investimentos em cloud privada e soberana, precisamente para reduzir dependências externas e aumentar o controlo sobre dados críticos.
Outro tema central é o impacto nas competências e no mercado de trabalho. E aí talvez estejamos perante uma das mudanças mais profundas. A forma como diferentes gerações vão adaptar-se será naturalmente muito distinta. Integrar GenAI no quotidiano profissional aos 45 ou 50 anos é muito diferente de entrar hoje no mercado de trabalho depois de um percurso académico já suportado por estas tecnologias. Algumas funções serão automatizadas parcial ou totalmente, mas também surgirão novas especializações.
Fala-se muito sobre “agentificação”. O que significa exatamente esse conceito?
A agentificação representa uma das mudanças mais profundas desta nova era tecnológica. Durante décadas habituámo-nos a utilizar software como ferramenta. Agora começamos a ter agentes digitais capazes de executar tarefas, tanto no contexto profissional como pessoal (como programar, marcar férias de um utilizador ou fazer compras) de forma relativamente autónoma, com base em todo o conhecimento histórico acumulado, personalizável, que têm de um utilizador (incluindo interacção autónoma entre diferentes agentes, sem envolvimento humano, mas representando diferentes humanos e diferentes empresas). Estamos a caminhar para um modelo onde pessoas e agentes digitais coexistirão em praticamente todos os sectores: empresas, saúde, educação, administração pública ou serviços financeiros.
O que significa tudo isto para as organizações?
Significa que as empresas terão de aprender a operar num ambiente de enorme aceleração e incerteza. As organizações mais bem-sucedidas serão aquelas que conseguirem combinar capacidade tecnológica, velocidade de aprendizagem e abertura cultural. O Global AI Report da NTT DATA mostra precisamente isso: os líderes em IA distinguem-se pela combinação entre visão estratégica, governação forte, modernização tecnológica e capacidade de execução.
As empresas terão de criar espaço para experimentar, adaptar-se rapidamente e promover aprendizagem contínua. Durante décadas, as organizações foram desenhadas sobretudo para estabilidade e eficiência. Agora precisam também de ser desenhadas para adaptação contínua.
Isso terá inevitavelmente impacto na própria estrutura das organizações: na forma como as equipas se organizam, na distribuição geracional dentro das empresas, nos modelos de liderança e até na forma como os processos internos são desenhados e executados. Mas, com tudo isto, emerge a questão: qual passa a ser o papel social de uma organização quando ganha toda esta flexibilidade?
Portugal pode beneficiar desta transformação?
Sem dúvida. Portugal tem uma oportunidade muito relevante nesta nova vaga tecnológica. Temos talento qualificado, capacidade de engenharia, universidades competitivas e uma crescente reputação internacional em tecnologia, que também nos permite atrair talento internacional. Num momento em que as organizações procuram parceiros capazes de combinar cloud, dados e IA de forma integrada, Portugal pode posicionar-se como um hub internacional de inovação, engenharia avançada e serviços digitais.
O conceito de Value Shore ganha aqui especial relevância. Hoje, as empresas não procuram apenas eficiência de custos. Procuram talento especializado, capacidade de execução e criação de valor. Se conseguirmos fortalecer o ecossistema tecnológico nacional, isso terá efeitos multiplicadores, num círculo virtuoso: mais inovação, mais start-ups, maior sofisticação económica e maior exportação de conhecimento, aumentando a exigência do próprio modelo económico e social do país – fica por pensar e definir, mais uma vez, o que acontece a quem fica fora deste círculo virtuoso, e como se distribuem os ganhos desta transformação.
O que está a NTT DATA a fazer nesta área?
A NTT DATA está a investir fortemente na capacitação dos colaboradores, no desenvolvimento de competências e na criação de soluções concretas de transformação com IA. A partir de Portugal já trabalhamos em modelos de Value Shore para diferentes geografias e sectores, incluindo aviação e serviços financeiros.
Temos equipas nacionais envolvidas em projectos internacionais nas áreas de AI engineering, cloud, data, data science e computer vision. Estamos igualmente envolvidos em projectos relevantes de transformação em Portugal, ajudando organizações a modernizar operações, a acelerar a adopção de IA e a criar modelos mais sustentáveis de crescimento.
O nosso foco não é apenas desenvolver tecnologia. É construir capacidade sustentável.
Isso significa formar pessoas, criar equipas multidisciplinares, desenvolver governação responsável e ajudar organizações a transformar-se de forma segura e orientada para valor.
Acreditamos que o maior diferencial competitivo dos próximos anos será a combinação entre talento humano e utilização responsável da Inteligência Artificial.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Transformação Digital”, publicado na edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.













