O fecho do primeiro semestre de 2026 marca uma inversão de tendência no tecido empresarial português. Se o ano começou com um forte optimismo (46.º Barómetro de Fevereiro), a realidade de Abril (47.º Barómetro) impôs maior prudência. Em Junho (48.º Barómetro), os sinais apontam novamente para uma recuperação assente no crescimento e numa visão mais pragmática da tecnologia, em particular da Inteligência Artificial (IA). Esta evolução evidencia a resiliência do tecido empresarial perante a actual instabilidade geopolítica e os desafios estruturais internos.
Dinamismo e prioridades estratégicas
Segundo os resultados do último Barómetro da Executive Digest, o desempenho das empresas no primeiro semestre de 2026 apresenta sinais claros de vitalidade, com a grande maioria das organizações a indicar um crescimento na sua actividade. Assim, 72% das empresas registaram um aumento no volume de negócios face ao período homólogo, destacando-se 17% que atingiram crescimentos superiores a 20%.
Este cenário de recuperação reflecte-se directamente nas metas anuais: 75% dos gestores antecipam fechar o ano de 2026 com resultados positivos face a 2025, sendo que a maioria (58%) prevê um aumento entre 5% e 20%.
Esta tendência de crescimento dita uma mudança nas prioridades para a segunda metade do ano. A «Expansão de mercado e crescimento económico » consolidou-se como a principal prioridade estratégica para 53% das organizações, superando largamente o foco na digitalização e IA (19%) ou na eficiência operacional e redução de custos (17%).
Investimento e IA: do entusiasmo ao pragmatismo
Os planos de investimento também reflectem esta mudança de sentimento. Em Fevereiro, 56% das empresas planeavam aumentar o investimento face ao ano transacto. Com a incerteza de Abril, esse valor caiu para 39%, com a maioria (53%) a optar pela mera manutenção.
Em Junho, assiste-se a uma retoma, com 50% das organizações a planearem novamente um aumento do investimento para o resto do ano face a 2025.
No campo da inovação, a Inteligência Artificial começa a traduzir-se em ganhos mensuráveis para as empresas.
Actualmente, 67% das empresas já reportam ganhos de produtividade reais derivados da implementação de IA. No entanto, para a maioria (33%), estes ganhos situam-se ainda num patamar inicial de até 5%, indicando que a tecnologia está a ser integrada de forma gradual na estrutura operacional.
Geopolítica: o cansaço da incerteza e a aposta nos biocombustíveis
O impacto do conflito no Irão foi um Energia e Combustíveis (78%) e Logística e Transportes Internacionais (58%) continuam a ser as mais vulneráveis a estes choques geopolíticos.
Como resposta estratégica à crise energética, existe agora um forte consenso (69%) entre os gestores nacionais de que Portugal deve acelerar o investimento em biocombustíveis, para além da electrificação, como forma de garantir competitividade nesta área.
O cepticismo estrutural e a urgência na(s) reforma(s) do Estado.
Institucionalmente, o pessimismo estrutural quanto ao futuro de Portugal mantém-se enraizado. Apenas 6% dos gestores avaliam como boa ou muito boa a preparação do país para os desafios da próxima década (face aos 10% que tinham uma visão positiva no início do ano), com a esmagadora maioria (91%) a considerar a preparação «Moderada» (50%) ou «Insuficiente» (41%). Este cepticismo, já demonstrado em Barómetros anteriores, é reforçado pela percepção de que as reformas essenciais não avançam ao ritmo desejado.
No entanto, a agenda de reformas desejada é constante: a desburocratização afirmou-se como a prioridade absoluta em Abril (56%) e mantém-se exactamente no mesmo nível em Junho (56%). A principal novidade do 48.º Barómetro é o reforço da urgência atribuída à diminuição do IRS, que subiu de 36% em Abril para 42%, superando a celeridade da Justiça (31%) e a descida do IRC (28%).



Este Barómetro conta também com a análise dos especialistas:
– Ana Trigo Morais, CEO / Sociedade Ponto Verde
– Francisco Teixeira, CEO /WPP Media
– João Pinto, Dean / Católica Porto Business School
– José Borralho, Presidente executivo & fundador/ Consumerchoice Europe
– Nelson Pires, General Manager / Jaba Recordati
– Nuno Moreira da Cruz, Dean / Executive Education
– Pedro Carvalho, CEO / Generali Tranquilidade
– Raul Neto, CEO / Randstad Portugal
– Rui Lopes Ferreira, CEO / Super Bock Group
– Sílvia Barata, Head of Country Portugal & Iberia Retail Operations manager/ BP Portugal
– Vítor Ribeirinho, CEO / Senior Partner da KPMG Portugal
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 243 de Junho de 2026













