O défice comercial da União Europeia com a China continua a aumentar, refletindo aquilo que analistas consideram ser um problema estrutural da economia chinesa: a forte aposta no apoio às empresas e à produção industrial, em detrimento do estímulo ao consumo interno.
O alerta é lançado pelo Mercator Institute for China Studies (MERICS), que considera que a crescente exportação de excedentes produtivos chineses está a pressionar a base industrial europeia.
De acordo com a análise, o apoio estatal às empresas chinesas ascende a cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) indicam ainda que, em 2024, as empresas chinesas receberam um volume de apoios seis vezes superior ao das congéneres europeias.
Esta política tem contribuído para a criação de capacidade produtiva excedentária que não consegue ser absorvida pelo mercado doméstico chinês, levando as empresas a direcionarem os seus produtos para os mercados internacionais. Como consequência, o défice comercial da União Europeia com a China atingiu novos máximos no início de 2026, totalizando 98 mil milhões de euros apenas no primeiro trimestre do ano.
O MERICS sublinha ainda que a União Europeia tem vindo a reforçar os seus mecanismos de defesa comercial. Desde a década de 2010, o número de investigações antidumping e outras medidas de defesa comercial lançadas contra a China triplicou. No entanto, o instituto conclui que estas iniciativas não conseguiram alterar de forma significativa as práticas comerciais de Pequim em relação ao bloco europeu.
Para Esther Goreichy, visiting fellow do MERICS, os instrumentos atualmente disponíveis em Bruxelas são insuficientes para responder à dimensão do problema. “As ferramentas de defesa comercial da União Europeia, limitadas e específicas para determinados setores, não são suficientes para enfrentar esta disrupção”, afirma.
A especialista alerta que o aumento das exportações chinesas de produtos de elevado valor acrescentado, frequentemente comercializados a preços reduzidos, representa uma ameaça crescente para a indústria europeia. “Se a União Europeia não adaptar as suas políticas ao ambiente internacional cada vez mais desafiante e às políticas comerciais ofensivas da China, o seu modelo assente numa concorrência justa e transparente ficará em risco”, conclui.













