A estratégia económica da China está a criar um problema crescente para a Europa. O que está a acontecer?

O défice comercial da União Europeia com a China continua a aumentar, refletindo aquilo que analistas consideram ser um problema estrutural da economia chinesa: a forte aposta no apoio às empresas e à produção industrial, em detrimento do estímulo ao consumo interno.

André Manuel Mendes

O défice comercial da União Europeia com a China continua a aumentar, refletindo aquilo que analistas consideram ser um problema estrutural da economia chinesa: a forte aposta no apoio às empresas e à produção industrial, em detrimento do estímulo ao consumo interno.

O alerta é lançado pelo Mercator Institute for China Studies (MERICS), que considera que a crescente exportação de excedentes produtivos chineses está a pressionar a base industrial europeia.

De acordo com a análise, o apoio estatal às empresas chinesas ascende a cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) indicam ainda que, em 2024, as empresas chinesas receberam um volume de apoios seis vezes superior ao das congéneres europeias.

Esta política tem contribuído para a criação de capacidade produtiva excedentária que não consegue ser absorvida pelo mercado doméstico chinês, levando as empresas a direcionarem os seus produtos para os mercados internacionais. Como consequência, o défice comercial da União Europeia com a China atingiu novos máximos no início de 2026, totalizando 98 mil milhões de euros apenas no primeiro trimestre do ano.

O MERICS sublinha ainda que a União Europeia tem vindo a reforçar os seus mecanismos de defesa comercial. Desde a década de 2010, o número de investigações antidumping e outras medidas de defesa comercial lançadas contra a China triplicou. No entanto, o instituto conclui que estas iniciativas não conseguiram alterar de forma significativa as práticas comerciais de Pequim em relação ao bloco europeu.

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Para Esther Goreichy, visiting fellow do MERICS, os instrumentos atualmente disponíveis em Bruxelas são insuficientes para responder à dimensão do problema. “As ferramentas de defesa comercial da União Europeia, limitadas e específicas para determinados setores, não são suficientes para enfrentar esta disrupção”, afirma.

A especialista alerta que o aumento das exportações chinesas de produtos de elevado valor acrescentado, frequentemente comercializados a preços reduzidos, representa uma ameaça crescente para a indústria europeia. “Se a União Europeia não adaptar as suas políticas ao ambiente internacional cada vez mais desafiante e às políticas comerciais ofensivas da China, o seu modelo assente numa concorrência justa e transparente ficará em risco”, conclui.

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