O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, defendeu que a “nova ordem mundial será construída a partir da Europa”, com o Canadá a assumir um papel relevante nesse processo, numa declaração que volta a ecoar críticas indiretas à visão internacional de Donald Trump, noticia a revista ‘Newsweek’.
Durante uma visita à Irlanda, Carney afirmou que o Canadá é “o mais europeu dos países não europeus” e sublinhou que Ottawa está a transformar a cooperação com a União Europeia, num momento em que a segurança, a defesa e as cadeias estratégicas se tornaram temas centrais nas relações transatlânticas.
As declarações surgem num contexto de crescente aproximação entre o Canadá e a Europa, em particular na área da defesa, e num momento em que a administração Trump procura reduzir a presença militar americana no continente europeu.
Defesa, minerais críticos e segurança
A possível redução da pegada militar dos Estados Unidos na Europa tem levantado dúvidas sobre o papel que Washington desempenhou desde a II Guerra Mundial como garante da segurança do continente. Trump tem criticado repetidamente os países europeus da NATO por não investirem o suficiente em defesa.
Carney destacou que, em fevereiro, o Canadá se tornou o primeiro país não europeu a integrar o mecanismo SAFE, uma iniciativa da União Europeia dedicada às compras conjuntas na área da defesa.
O instrumento, lançado em maio de 2025, prevê empréstimos até 150 mil milhões de euros para ajudar os Estados-membros da União Europeia a acelerar investimentos em defesa através de aquisições comuns.
O primeiro-ministro canadiano acrescentou ainda que o Canadá estabeleceu 56 parcerias em minerais críticos em mais de dez países, sobretudo na Europa. “Num mundo mais perigoso e dividido, o Canadá escolheu construir e trabalhar em parceria com a Europa”, afirmou.
A crítica indireta a Trump
A leitura da ‘Newsweek’ associa estas declarações a um discurso feito por Carney no Fórum Económico Mundial, em Davos, em janeiro, quando o primeiro-ministro canadiano criticou a erosão da ordem internacional baseada em regras. As palavras foram interpretadas como uma referência à retórica de Donald Trump.
Na altura, Carney defendeu que as potências médias deviam unir-se perante a pressão das grandes potências. “Sabemos que a velha ordem não vai voltar”, afirmou então, acrescentando que era possível construir algo “maior, melhor, mais forte e mais justo”.
Para o chefe do Governo canadiano, são precisamente as potências médias que mais têm a perder num mundo dividido em blocos fechados e mais a ganhar com uma cooperação internacional efetiva.
Uma nova ordem a partir da Europa
Carney já tinha usado uma formulação semelhante em maio, na cimeira da Comunidade Política Europeia, na Arménia, ao defender que a nova ordem global seria reconstruída a partir da Europa.
O primeiro-ministro canadiano ligou essa ideia a uma aposta do Canadá em áreas como defesa, minerais críticos, energia, infraestruturas digitais, espaço, semicondutores, sistemas de pagamento, vacinas e tecnologias limpas.
Durante uma intervenção no Trinity College, em Dublin, Carney afirmou que a Irlanda e o Canadá estão a navegar uma “rutura global” e que “Canadá, Irlanda e Europa estão cada vez mais e imediatamente vulneráveis a ameaças que antes pareciam distantes”.
O primeiro-ministro canadiano defendeu ainda que os primeiros fios desta nova ordem internacional poderão começar a ser tecidos na próxima cimeira do G7, que terá lugar em Évian-les-Bains, em França.
A mensagem política é clara: num mundo em que os Estados Unidos parecem rever o seu papel tradicional na segurança europeia, o Canadá quer apresentar-se como parceiro estratégico da Europa e como parte ativa de uma nova arquitetura internacional.













