A Inteligência Artificial (IA) está a mudar a relação entre sustentabilidade e desempenho empresarial, ao permitir que as empresas reduzam custos, desperdício e riscos enquanto melhoram a produtividade e a eficiência.
Esta é uma das principais conclusões de um novo estudo da Boston Consulting Group (BCG), realizado em parceria com a Temasek, que estima que a aplicação de IA em setores ligados ao clima e à sustentabilidade poderá desbloquear entre 580 e 615 mil milhões de dólares por ano em valor económico até 2028.
“A grande mudança é que, com a IA, sustentabilidade e performance empresarial deixam de ser agendas separadas: passam a reforçar-se mutuamente”, afirma Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa.
Para o responsável, a oportunidade está na aplicação da tecnologia a “problemas muito concretos”, como a eficiência industrial, a redução de custos e desperdício, a avaliação do risco climático, a otimização de redes elétricas e sistemas de armazenamento, a descoberta de materiais e a educação inclusiva.
O estudo “The Private Capital Opportunity in AI-Enabled Climate and Sustainability Sectors” analisa mais de 40 subsetores e conclui que a próxima fronteira do investimento sustentável poderá estar precisamente na interseção entre tecnologia, eficiência e sustentabilidade. Em vez de olhar para estes temas como objetivos distintos, a IA permite criar soluções em que a melhoria do desempenho económico contribui diretamente para resultados ambientais ou sociais.
A eficiência industrial é, neste contexto, a maior oportunidade identificada pela análise, com um potencial estimado de 300 mil milhões de dólares por ano. A utilização de IA em áreas como a manutenção preditiva, otimização de processos, gestão energética, controlo de qualidade e segurança laboral pode reduzir simultaneamente custos, emissões e desperdício, aumentando a produtividade e a resiliência das empresas.
Esta lógica aplica-se também à gestão dos riscos associados às alterações climáticas. O estudo estima que a utilização de IA para antecipar e avaliar riscos físicos poderá gerar cerca de 75 mil milhões de dólares por ano até 2028. Ao cruzar grandes volumes de dados, a tecnologia pode ajudar seguradoras, empresas de serviços públicos essenciais, operadores logísticos, investidores e entidades públicas a obter avaliações de risco mais precisas e a antecipar potenciais perdas.
Na transição energética, a gestão inteligente das redes elétricas, o armazenamento e a flexibilidade dos sistemas poderão representar uma oportunidade de cerca de 32 mil milhões de dólares anuais. A IA pode, neste caso, otimizar o funcionamento das baterias, melhorar a monitorização dos ativos, reduzir congestionamentos e facilitar a integração de energias renováveis, contribuindo para redes mais eficientes e rentáveis.
O relatório identifica ainda oportunidades na educação inclusiva, com um potencial estimado de 13 mil milhões de dólares, e na descoberta de materiais, avaliada em cerca de 3 mil milhões de dólares. No primeiro caso, a IA pode personalizar a aprendizagem, reduzir tarefas administrativas e ampliar o acesso ao ensino. No segundo, pode acelerar a descoberta de materiais necessários para baterias, captura de carbono, agricultura e biotecnologia.
A ideia transversal é que a sustentabilidade pode deixar de ser vista apenas como um custo ou uma obrigação regulatória e passar a estar diretamente ligada à criação de valor. Quando uma empresa utiliza IA para consumir menos energia, desperdiçar menos matérias-primas ou otimizar os seus ativos, está simultaneamente a melhorar os seus indicadores ambientais e a sua eficiência económica.
“O valor da IA aplicada à sustentabilidade vem da sua utilização em problemas muito concretos: eficiência industrial, redução de custos e de desperdício, avaliação do risco climático, otimização de redes elétricas e armazenamento, descoberta de materiais e educação inclusiva”, sublinha Carlos Elavai.
Segundo o estudo, esta mudança abre também novas oportunidades para o investimento privado. Empresas desenvolvidas de raiz em torno da IA poderão captar capital de risco e growth equity, enquanto organizações que integrem a tecnologia nos seus processos, produtos ou ativos físicos poderão tornar-se alvos relevantes para estratégias de private equity. Ao mesmo tempo, investidores em infraestruturas poderão beneficiar de ativos como redes elétricas, sistemas de armazenamento, centros de dados e operações industriais cuja rentabilidade pode melhorar através da integração de IA.
Um dos aspetos destacados pela análise é que o valor gerado por esta transformação não deverá ficar concentrado nos fornecedores de tecnologia. A maior fatia deverá ser capturada pelas próprias empresas que adotam IA, através da redução de custos, de uma melhor utilização dos ativos, da criação de novas receitas e de decisões mais precisas. Os fornecedores de soluções de IA deverão, segundo o estudo, capturar apenas entre 15% e 25% do valor total criado.
Apesar do potencial, a adoção da tecnologia enfrenta obstáculos. A confiança nos modelos de IA, a qualidade e disponibilidade dos dados, a possibilidade de perda de desempenho ao longo do tempo, a incerteza regulatória e as questões de responsabilidade em decisões críticas são alguns dos riscos identificados.
Ainda assim, a pressão para reduzir custos, melhorar a eficiência energética, gerir os riscos climáticos e aumentar a resiliência operacional deverá continuar a acelerar a procura por soluções de IA. Para a BCG e a Temasek, é precisamente nesta convergência que reside uma das grandes oportunidades da próxima fase da transição sustentável: utilizar a tecnologia para fazer com que aquilo que é melhor para o negócio seja, cada vez mais, também melhor para o ambiente e para a sociedade.













