O Ministério Público do Porto acusou 14 cidadãos chineses e oito empresas de integrarem uma alegada rede criminosa que terá branqueado mais de 88 milhões de euros provenientes de vendas sem fatura realizadas por comerciantes da Zona Industrial da Varziela, em Vila do Conde. Segundo a acusação, o esquema permitia recolher dinheiro vivo gerado por transações não declaradas ao Fisco, canalizando posteriormente essas verbas para empresas sediadas na China, sem pagamento de impostos em Portugal. Os arguidos enfrentam acusações de associação criminosa, branqueamento de capitais e falsificação de documentos.
De acordo com informações avançadas pelo Jornal de Notícias (JN), a investigação concluiu que a organização operou pelo menos entre 2023 e 2024 e tinha como núcleo principal quatro alegados responsáveis pelo sistema financeiro montado para transferir capitais para o estrangeiro. O dinheiro era recolhido quase diariamente nas lojas aderentes ao esquema, sendo transportado em grandes sacos de plástico pretos. Posteriormente, era distribuído por estafetas que percorriam várias agências bancárias do Norte do país, realizando depósitos parcelados, geralmente inferiores a dez mil euros, de forma a evitar os mecanismos automáticos de deteção de branqueamento de capitais.
As verbas eram depositadas em contas tituladas por dezenas de empresas sem atividade real, criadas especificamente para esse fim. A investigação identificou 42 sociedades utilizadas na operação, muitas delas constituídas com recurso a documentos falsificados e moradas fictícias. Em alguns casos, as empresas tinham como sede fiscal locais completamente alheios ao esquema. Um dos exemplos apontados pelas autoridades refere-se a um gabinete de psicologia em São João da Madeira que surgia como morada oficial de 38 destas sociedades. Após alguns meses de utilização para movimentação financeira, as empresas eram abandonadas e substituídas por novas estruturas criadas para o mesmo propósito.
Segundo o Ministério Público, depois de entrar nas contas bancárias destas sociedades, o dinheiro era rapidamente transferido através de operações de homebanking para empresas chinesas ligadas aos sectores da importação, exportação e transporte de mercadorias. Os investigadores conseguiram rastrear cerca de 90 milhões de euros movimentados através das contas destas firmas, concluindo que 88 milhões tiveram como destino final a China. Para sustentar o esquema, os arguidos recorriam alegadamente a passaportes, autorizações de residência e outros documentos falsificados enviados a partir da China. As autoridades apreenderam documentação falsa associada a mais de 60 cidadãos que nunca chegaram a estar em território português.
A operação desencadeada pela Polícia Judiciária em maio de 2025 permitiu desmantelar a rede e apreender mais de 1,5 milhões de euros em numerário, a maior parte encontrada em estabelecimentos comerciais da Varziela, além de quatro viaturas de gama alta. Dos quatro principais arguidos detidos, dois permanecem em prisão preventiva e um encontra-se em prisão domiciliária. O Ministério Público pretende que os 1,5 milhões de euros apreendidos revertam a favor do Estado e reclama ainda o pagamento dos restantes 86,5 milhões de euros que considera terem sido obtidos através da alegada atividade criminosa.
O processo continua a desenvolver-se em várias frentes. A acusação refere que foi determinada a separação processual relativamente a sete outros arguidos, incluindo três cidadãos portugueses, por serem necessárias diligências adicionais antes de uma eventual decisão final. As autoridades consideram que o caso revela uma estrutura altamente organizada, assente em empresas fictícias, identidades falsas e movimentação sistemática de dinheiro vivo, que terá permitido retirar dezenas de milhões de euros da economia portuguesa e transferi-los para a China fora do circuito fiscal legal.













