As orientações da Santa Sé relativas à doação de órgãos por parte dos Papas continuam a suscitar interesse e debate, sobretudo depois de ter sido tornada pública a posição assumida por Bento XVI sobre esta matéria. Embora a Igreja Católica considere a doação de órgãos um gesto de solidariedade e de ajuda ao próximo, existe um protocolo específico que se aplica ao Pontífice após a sua eleição e que impede a doação dos seus órgãos depois da morte.
A questão voltou a ganhar destaque devido ao interesse gerado em torno das normas do Vaticano e das exceções previstas para quem exerce o ministério petrino. Apesar de a Igreja apoiar esta prática junto dos fiéis, as regras estabelecidas pela Santa Sé determinam que o Papa fica sujeito a um regime particular assim que assume o cargo.
Bento XVI tinha-se registado como dador antes de ser eleito Papa
O caso mais conhecido é o de Bento XVI. Antes de ser eleito sucessor de São Pedro, o então cardeal Joseph Ratzinger tinha-se registado como dador de órgãos na Alemanha e possuía um cartão comprovativo dessa decisão desde a década de 1970.
Contudo, segundo esclareceu posteriormente o Vaticano, essa autorização deixou automaticamente de produzir efeitos no momento em que foi eleito Papa. Na prática, a sua condição de dador ficou anulada assim que assumiu a liderança da Igreja Católica.
A questão tornou-se pública quando um médico alemão utilizou o exemplo de Bento XVI numa iniciativa de promoção da doação de órgãos. Face à divulgação dessa informação, foi necessário um esclarecimento oficial da Santa Sé sobre o estatuto do Pontífice relativamente a esta matéria.
Vaticano esclareceu posição oficial
A resposta foi dada por monsenhor Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI, através de uma carta enviada para clarificar a posição oficial do Vaticano.
Segundo informações divulgadas pela Rádio Vaticano, era verdade que Bento XVI tinha sido portador de um cartão de dador de órgãos. No entanto, essa autorização foi considerada sem efeito após a sua eleição como Papa.
O esclarecimento permitiu desmentir informações que apontavam para a manutenção da disponibilidade do Pontífice para doar órgãos após a morte, reforçando que as normas da Santa Sé impedem essa possibilidade.
Corpo do Papa pertence à Igreja após a morte
De acordo com as explicações divulgadas pelo Vaticano, uma das razões para esta restrição prende-se com o estatuto do corpo do Papa após a sua morte.
Segundo a interpretação das normas da Santa Sé, o corpo do Pontífice passa a pertencer à Igreja e deve ser sepultado de forma íntegra. Esta exigência constitui um dos princípios fundamentais do protocolo aplicado aos Papas.
A preservação integral do corpo é, por isso, considerada incompatível com a remoção de órgãos para fins de transplante, mesmo quando exista uma manifestação prévia de vontade nesse sentido.
Possibilidade de canonização influencia as regras
Outro dos argumentos apresentados pelo Vaticano está relacionado com a eventual canonização futura de um Papa.
Caso um Pontífice venha a ser declarado santo, os seus restos mortais podem adquirir um significado religioso especial. Nesse contexto, os órgãos eventualmente transplantados poderiam ser considerados relíquias.
Foi precisamente este ponto que monsenhor Georg Gänswein destacou no esclarecimento enviado em nome de Bento XVI. Segundo explicou, uma eventual doação de órgãos poderia equivaler à doação de futuras relíquias, uma situação que a regulamentação da Santa Sé procura evitar.
Igreja continua a defender a doação de órgãos
Apesar desta exceção aplicável aos Papas, a posição da Igreja Católica relativamente à doação de órgãos permanece favorável.
O próprio Bento XVI manifestou-se publicamente a favor desta prática. Em 1999, classificou a doação de órgãos como um ato de amor e defendeu o seu valor enquanto gesto de solidariedade para com quem necessita de um transplante.
Ainda assim, o protocolo específico estabelecido pela Santa Sé determina que os ocupantes do ministério petrino ficam sujeitos a regras distintas das aplicadas aos restantes fiéis, impedindo a doação dos seus órgãos após a morte, independentemente de qualquer autorização concedida antes da eleição para o papado.













