Só um em cada cinco protetores solares é considerado seguro e eficaz, alerta estudo internacional

Apenas cerca de 20% dos protetores solares analisados num novo estudo internacional foram considerados simultaneamente seguros e eficazes, segundo o mais recente relatório do Environmental Working Group (EWG).

Pedro Zagacho Gonçalves

Apenas cerca de 20% dos protetores solares analisados num novo estudo internacional foram considerados simultaneamente seguros e eficazes, segundo o mais recente relatório do Environmental Working Group (EWG), organização norte-americana sem fins lucrativos dedicada à saúde pública e ao ambiente. O “Guia de Protetores Solares 2026”, divulgado esta segunda-feira, avaliou 2.784 produtos disponíveis no mercado e concluiu que apenas 550 cumprem os critérios definidos pela entidade para proteção eficaz contra os raios ultravioletas e utilização considerada segura.

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De acordo com o relatório, são identificadas preocupações tanto ao nível da eficácia real da proteção como da presença de determinados ingredientes químicos associados a potenciais riscos para a saúde e para o ambiente. O guia destaca protetores solares para bebés e crianças, produtos de uso diário com fator de proteção solar (FPS), bálsamos labiais e soluções destinadas a atividades ao ar livre, como praia ou desporto.

O EWG sublinha que, para serem recomendados, os produtos têm de garantir proteção contra os raios UVA e UVB, ambos associados a danos no ADN e envelhecimento precoce da pele. A organização excluiu sprays e pós devido ao risco de inalação e rejeitou produtos que utilizem alegações consideradas inadequadas, como “à prova de água”, ou fatores de proteção acima de 50+. Segundo o relatório, muitos consumidores continuam a optar por produtos mais caros com FPS 100+, apesar de a diferença de eficácia ser reduzida. O estudo refere que um protetor 50+ pode bloquear cerca de 98% dos raios UVB, enquanto um FPS 100+ atinge aproximadamente 99%.

Os investigadores alertam ainda para possíveis discrepâncias entre a proteção anunciada nos rótulos e a proteção efetivamente fornecida. Um estudo revisto por pares, realizado por cientistas do EWG, concluiu que, em média, os protetores analisados disponibilizavam apenas um quarto da proteção UVA indicada e cerca de 59% da proteção UVB anunciada. O relatório também recomenda evitar produtos com palmitato de retinilo, uma forma de vitamina A, e determinados químicos associados a potenciais riscos de cancro, alergias, irritação cutânea, problemas reprodutivos ou neurotoxicidade.

A cientista sénior do EWG, Alexa Friedman, explicou à CNN Internacional que o palmitato de retinilo pertence à família dos retinoides frequentemente usados em tratamentos antienvelhecimento, mas recordou que estes produtos incluem habitualmente avisos para evitar exposição solar. Segundo Friedman, “em 2010, cerca de 40% dos produtos continham palmitato de retinilo”, enquanto atualmente apenas 3% mantêm esse ingrediente, algo que considerou “uma boa notícia para os consumidores”.

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O relatório conclui que a maioria dos produtos recomendados é composta por protetores minerais à base de óxido de zinco e dióxido de titânio, ingredientes aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) norte-americana. Dos 550 protetores considerados seguros, 497 utilizam predominantemente estes minerais, que permanecem à superfície da pele e desviam fisicamente os raios solares. Já os protetores químicos continuam sob escrutínio devido à absorção cutânea de determinados compostos. Em 2019, cientistas da FDA concluíram que seis ingredientes químicos comuns podiam atingir níveis considerados inseguros na corrente sanguínea após apenas um dia de utilização.

Entre os compostos mais criticados estão o homosalato e a oxibenzona. Segundo o EWG, ambos permaneceram no sangue acima dos níveis de segurança durante mais de duas semanas após interrupção da utilização. A União Europeia já regula o homosalato como potencial disruptor endócrino, enquanto a oxibenzona tem sido associada a alterações hormonais, reações alérgicas e possíveis malformações congénitas. O composto foi ainda proibido em regiões como o Havai, Key West, nas Ilhas Virgens dos EUA e na Tailândia devido aos impactos ambientais, incluindo danos em recifes de coral e ecossistemas marinhos.

Apesar das críticas, a indústria rejeita as conclusões do EWG. O cientista-chefe do Personal Care Products Council, Dr. Jaap Venema, afirmou à CNN que colocar em causa a segurança dos protetores solares “prejudica décadas de investigação científica” e pode desencorajar a utilização destes produtos, com consequências negativas para a saúde pública. Já David Andrews, representante do EWG, respondeu que foi a própria FDA que concluiu que 12 dos 16 filtros químicos atualmente utilizados no mercado norte-americano não possuem dados de segurança suficientes para serem classificados como seguros e eficazes.

O relatório destaca ainda que a FDA continua sem concluir a revisão regulamentar iniciada em 2019 relativamente a vários filtros químicos usados nos protetores solares. Apesar disso, a agência norte-americana anunciou recentemente a possibilidade de autorizar o bemotrizinol, ingrediente já utilizado na Europa e considerado pelos investigadores como oferecendo proteção UVA robusta, com menor absorção pela pele.

Os especialistas insistem, contudo, que o protetor solar deve ser apenas uma parte da estratégia de proteção contra o sol. As recomendações incluem o uso de roupa adequada, chapéus de aba larga, óculos de sol e evitar exposição solar entre as 10h00 e as 16h00. O relatório recorda ainda que o protetor solar só é eficaz quando aplicado corretamente, devendo ser usado cerca de 15 minutos antes da exposição solar e reaplicado de duas em duas horas ou após contacto com água e transpiração.

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O estudo deixa também um alerta particular para crianças e bebés. Os especialistas defendem que bebés com menos de seis meses não devem ser expostos diretamente ao sol, sublinhando que queimaduras solares durante a infância podem aumentar o risco de melanoma mais tarde na vida. A médica Kelly Olino, do Yale Cancer Center, recordou que “o melanoma é o cancro mais mortal conhecido”, acrescentando que mesmo tumores muito pequenos já são considerados clinicamente graves.

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