Há uma portuguesa na corrida: nove cidades disputam nova agência aduaneira da UE

Nova Agência Aduaneira da UE, conhecida como EUCA, está prevista para entrar em funcionamento em 2028

Francisco Laranjeira

Nove cidades europeias estão na corrida para acolher a futura Agência Aduaneira da União Europeia, uma nova estrutura criada para reforçar o controlo sobre os milhões de encomendas de baixo valor que entram diariamente no espaço comunitário, muitas delas provenientes da China. A decisão insere-se numa ampla reforma da legislação aduaneira do bloco, concebida para responder ao crescimento exponencial do comércio eletrónico e às fragilidades de um sistema considerado desatualizado e fragmentado.

Criada em 1968, a união aduaneira foi uma das primeiras grandes realizações da integração europeia, ao eliminar direitos alfandegários entre os Estados-membros e estabelecer uma tarifa comum para importações externas. No entanto, segundo o ‘POLITICO’, o modelo atual sofre de falta de harmonização, com 27 administrações nacionais a operar com competências sobrepostas e critérios distintos para identificar cargas de risco, desde brinquedos inseguros a drogas ilegais.

Essa realidade deverá mudar com a criação da nova Agência Aduaneira da UE, conhecida como EUCA, prevista para entrar em funcionamento em 2028. A nova entidade contará com cerca de 250 funcionários e terá como missão central a gestão de um vasto centro de dados europeu, responsável por concentrar e cruzar toda a informação relativa às remessas que entram e saem do território da União.

Disputa política sobre o processo de escolha

A escolha da cidade anfitriã está longe de ser consensual. Capitais nacionais e Parlamento Europeu continuam em desacordo quanto ao método de decisão, com os eurodeputados a resistirem às tentativas dos Estados-membros de manterem controlo exclusivo sobre a escolha final. Ainda assim, o processo avança e a Comissão do Mercado Interno e da Proteção dos Consumidores do Parlamento Europeu começou a ouvir formalmente as propostas das nove candidaturas.

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Entre as cidades em competição estão grandes centros políticos, logísticos e simbólicos do projeto europeu, cada um com argumentos próprios. De acordo com o ‘POLITICO’, a francesa Lille surge como uma das favoritas iniciais, depois de se ter antecipado ao processo e apresentado uma candidatura sólida, embora essa vantagem tenha gerado resistências políticas informais entre outros Estados-membros.

Haia aposta na sua localização estratégica entre o porto de Roterdão e o aeroporto de Schiphol, além da proximidade a agências europeias ligadas à justiça e à segurança, enquanto Roma sublinha o peso simbólico de acolher uma agência da UE numa capital que ainda não alberga nenhuma, destacando também a robustez técnica do edifício proposto.

Do sul ao leste da Europa

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Mais afastada de Bruxelas, Málaga procura afirmar-se como polo digital e de cibersegurança, argumentando que a baixa latência das suas ligações de internet garante a eficiência operacional da futura agência. Varsóvia, por seu lado, associa a função aduaneira à gestão das fronteiras externas da UE, invocando a experiência acumulada com a Frontex, cuja sede se encontra também na capital polaca.

Zagreb apresenta-se como candidata em nome do equilíbrio institucional, lembrando que a Croácia ainda não acolhe qualquer agência europeia, enquanto o Porto invoca a sua tradição histórica ligada às alfândegas e ao comércio marítimo, propondo instalar a EUCA junto à antiga Alfândega do Porto, numa das zonas mais emblemáticas da cidade.

Liège entra na corrida com o argumento logístico, por albergar um dos principais centros de carga aérea da Europa e estar no epicentro do fluxo de encomendas do comércio eletrónico, embora a candidatura sofra, segundo diplomatas citados pelo ‘POLITICO’, de falta de apoio político claro ao nível federal belga.

A candidatura mais inesperada surge de Bucareste, que defende que a instalação da EUCA na Roménia reforçaria a coesão europeia e reconheceria o papel estratégico da região na segurança das cadeias comerciais, sobretudo após a guerra na Ucrânia.

Uma decisão com impacto estrutural

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Independentemente da cidade escolhida, a criação da nova Agência Aduaneira da UE representa uma mudança estrutural na forma como o bloco gere as suas fronteiras comerciais. O objetivo é centralizar dados, harmonizar critérios de risco e reforçar a proteção dos consumidores europeus, num contexto de pressão crescente sobre os sistemas nacionais.

A decisão final sobre a localização da EUCA deverá tornar-se também um teste político à capacidade da União Europeia de equilibrar eficiência operacional, coesão territorial e disputas institucionais num dos dossiês mais sensíveis do mercado interno.

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