“A IA já deixou de olhar para os anúncios da Google e vai começar a ligar-se diretamente aos marketplaces”

O ucraniano Illia Polosukhin é um dos responsáveis pela revolução da Inteligência Artificial generativa. Esteve na capital para participar na Blockchain Confluence 2025, um evento que decorreu na reitoria da Universidade NOVA de Lisboa, organizado pela Nova SBE e Nova IMS

Executive Digest

“Têm uma década para programar e desenvolver programas; depois disso, tudo será criado por Inteligência Artificial (IA).” Foi este o aviso que Illia Polosukhin deixou aos alunos e professores que encheram o anfiteatro da Reitoria da Universidade NOVA, em Campolide, Lisboa, durante a sua palestra na Blockchain Confluence 2025. Em conversa com a Executive Digest, Illia Polosukhin explicou como a IA vai transformar por completo a economia, mas também como a falta de segurança poderá conduzir a uma sociedade distópica.

Qual foi a sua participação na construção da arquitetura Transformer, que deu origem ao ChatGPT e ao Google Gemini, entre outros modelos de IA?
Antes do advento da arquitetura Transformer (veja caixa), não existia um método viável para escalar facilmente o treino de modelos de IA. Graças aos Transformers, a OpenAI e outras tec­nológicas conseguiram expandir a dimensão dos modelos e o volume de dados utilizados, o que resultou numa sofisticação e inteligência crescentes destes sistemas. O Transformer impulsio­nou todas as abordagens modernas. É esta a arquitetura base utilizada, por exemplo, quando se pede a geração de uma imagem ao ChatGPT.

Mas o seu papel foi de…

Fui um dos engenheiros originais. Fiz parte da equipa do primeiro protótipo.

Diz que a evolução da IA poderá resultar numa utopia ou numa distopia. Porquê?

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Se olharmos para os últimos duzentos anos, tudo tem sido pensado para a automação. A automação do trabalho manual, das fábricas, etc., cresceu ex­ponencialmente. Mas essa mudança incidiu sobre o trabalho físico efetivo. A Inteligência Artificial vem agora al­terar o trabalho intelectual, o trabalho de “colarinho branco”. Essas funções estão agora a ficar automatizadas e mais baratas. O custo de operar estes mode­los baixa todos os anos cerca de cinco a 10 vezes e o acesso ao conhecimento está a ser democratizado. Não apenas o conhecimento para pesquisas em motores de busca, mas o saber aplicado a problemas concretos. E isso é bom. A diferença face à automação anterior é que agora temos inteligência capaz de inventar coisas novas por si mesma, e de forma barata. Os humanos vão sempre querer fazer, mas muitas tarefas de “colarinho branco” serão automatizadas. Esta premissa pode resultar em distopia se todo o poder estiver concentrado numa única pessoa, organização ou país. Porque esse indivíduo/organização/país pode efetivamente implementar as mudanças que quiser. Os LLMs (Large Language Models/Grandes Modelos de Linguagem) são muito bons a convencer e manipular, o que pode criar um cenário semelhante ao descrito em «1984», o livro de George Orwell. Nesse mundo, haverá um Big Brother nos nossos bol­sos – os smartphones – sempre a ouvir­-nos e a fingir que estão do nosso lado, quando, ao mesmo tempo, nos darão instruções sobre o que fazer. Por outro lado, poderá resultar numa utopia, em que, de facto, todos teremos uma espécie de anjo da guarda digital do nosso lado, a proteger-nos.

Se a IA fizer o que os humanos fazem, será uma sociedade virada para o ócio?

Será uma combinação de várias coisas. Os humanos, em geral, têm um desejo por rankings e necessidade de se classi­ficar. Já o fazemos em muitas situações sem ligação à produção de rendimento, como o desporto. Não existe aumento de produtividade por alguém correr mais depressa, mas, como humanos, gostamos de ver, participar e competir.

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Acredito que a economia poderá evo­luir nessa direção, num modelo mais centrado em jogos de rankings e menos sobre rendimento, será mais sobre par­ticipar, ver e apostar. As tarefas mais aborrecidas, como extrair metais de minas, serão automatizadas pela IA e nem vamos precisar de pensar nisso.

Sublinha a questão da segurança como um dos maiores problemas do futuro da IA.

Atualmente, a questão é saber como as pessoas abordam a segurança. Ou seja, tenta-se impedir que certos modelos de linguagem façam coisas erradas, como ensinar a construir uma bomba nuclear ou criar um vírus. O que os programa­dores fazem é uma espécie de “cirurgia cerebral”, cortando funcionalidades, como a impossibilidade de fazer física nuclear. Mas, não é uma solução eficaz. Precisamos de uma abordagem diferente no que respeita à segurança.

Com legislação?

A legislação tem um grande desafio: move-se demasiado devagar. Não é feita com IA (risos). Na minha empresa, a Near Protocol, estamos a desenvolver uma experiência de governação por IA através de blockchain, tentando intro­duzir IA nesse processo. Porque, sim, é preciso usar IA para acelerar. Por isso, acho que é muito difícil legislar neste momento, quer para as pessoas eleitas, como para os especialistas, porque tudo se move muito rapidamente. A segu­rança terá de vir de produtos melhores, combinando aspetos financeiros como o blockchain.

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Está a desenvolver um chat e um serviço de cloud. O que trazem de diferente?

Estamos a desenvolver duas soluções: o private.near.ai, um chat de IA privado, com dados encriptados e dados não partilhados, e o cloud.near.ai, serviço de cloud para programadores, sem terem acesso aos dados dos clientes, construí­rem, por exemplo, um serviço de IA para ajudar jornalistas a pesquisar. Assim, é também benéfico para programadores que querem construir produtos de IA, mas não querem assumir todos os riscos de responsabilidade de dados, etc.

O modelo de publicidade vai mudar. Como?

A IA já deixou de olhar para os anún­cios da Google e vai começar a ligar-se diretamente aos marketplaces… É um pouco complicado e ainda não descobri como explicar melhor. Será uma espécie de mercado universal porque a IA já lá está. E, se uma empresa não estiver presente, uma IA vai telefonar e pedir o produto, fazendo a ponte com o mundo real. A interface será simples, mas nos bastidores haverá a IA, empresas e, tal­vez, algumas pessoas a trabalhar para que tudo aconteça.

Como vai beneficiar a IA com o blockchain?

Com blockchain obtém-se privacidade e verificabilidade: saber que dados entram, que enviesamentos existem. Depois, o passo seguinte passa por assumir que à me­dida que a IA muda o modelo económico, o blockchain fornece a nova camada financeira e estrutural, garantindo segu­rança, privacidade e verificabilidade.

ARQUITETURA TRANSFORMER
O Transformer é a arquitetura de rede neural mais importante da última década. Foi apresentado pela Google em 2017, no artigo “Attention Is All You Need” (“Atenção é tudo o que precisas”). Antes do Transformer, os computadores tinham dificuldade em compreender textos longos ou o contexto subtil das frases. O Transformer resolveu esse problema e permitiu a criação dos LLMs, como o GPT-4 (ChatGPT) e o Gemini.

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