Explicador. O que prevê o cessar-fogo entre Israel e Líbano… e será que vai durar?

Acordo arranca envolto em controvérsia: as tropas israelitas vão manter posições profundas no sul do território libanês

Francisco Laranjeira

Israel e o Líbano acordaram um cessar-fogo apoiado pelos Estados Unidos para travar os combates entre Israel e o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irão. No entanto, o acordo arranca envolto em controvérsia: as tropas israelitas vão manter posições profundas no sul do território libanês.

A informação foi divulgada pela ‘Reuters’, que teve acesso ao texto do entendimento anunciado por Washington. O cessar das hostilidades entrou em vigor a 16 de abril às 21h00 GMT e terá uma duração inicial de 10 dias, período destinado a abrir negociações mais amplas entre as partes.

O que prevê o acordo

O Governo libanês compromete-se, com apoio internacional, a tomar “medidas significativas” para impedir ataques do Hezbollah e de outros grupos contra alvos israelitas.

O texto reconhece ainda as forças de segurança libanesas como únicas responsáveis pela soberania e defesa nacional, numa referência à tentativa de Beirute de limitar ou desarmar o Hezbollah.

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Israel, por sua vez, mantém o direito de adotar “todas as medidas necessárias de autodefesa” perante ataques planeados, iminentes ou em curso.

Ao mesmo tempo, compromete-se a não realizar operações militares ofensivas contra alvos libaneses por terra, mar ou ar.

O ponto mais polémico

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Apesar da trégua, o acordo não obriga Israel a retirar-se do sul do Líbano.

Segundo responsáveis israelitas citados pela ‘Reuters’, as forças militares mantêm posições até 10 quilómetros dentro do território libanês, numa zona tampão criada para impedir ataques do Hezbollah.

Essa permanência acontece após meses de operações militares em aldeias e infraestruturas no sul do país, numa área que representa cerca de 8% do território libanês.

Ao contrário do que sucede com Israel, o texto não prevê explicitamente um direito semelhante de autodefesa para o Líbano.

Hezbollah não aprova totalmente

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O Hezbollah suspendeu ataques a alvos israelitas quando o cessar-fogo entrou em vigor, mas evitou apoiar formalmente o acordo.

O grupo xiita afirmou que qualquer trégua não pode conceder a Israel “liberdade de movimento” dentro do Líbano e acrescentou que a presença continuada de tropas estrangeiras em solo libanês dá à população “o direito de resistir”.

O que falhou antes

Este não é o primeiro entendimento recente entre os dois lados. Em novembro de 2024, Israel e Líbano aceitaram uma trégua mediada pelos EUA que previa o desarmamento do Hezbollah.

Esse acordo acabou por não estabilizar a fronteira. Israel continuou ataques contra alvos ligados ao grupo e, segundo Médicos Sem Fronteiras, essas ações provocaram 370 mortos no Líbano.

Em 2025, Washington chegou a propor um plano para desarmar totalmente o Hezbollah em troca da retirada israelita de posições ainda ocupadas no sul do país.

Mas o movimento xiita e os seus aliados exigiram a ordem inversa: primeiro retirada israelita, depois negociações sobre armas.

Trégua ou pausa tática?

O novo acordo poderá abrir caminho a contactos mais amplos entre Estados Unidos e Irão, objetivo estratégico subjacente ao entendimento.

Ainda assim, a manutenção de tropas israelitas em território libanês, a ausência de consenso sobre o Hezbollah e a curta duração inicial de apenas 10 dias deixam dúvidas sobre a real solidez da trégua.

Para já, o cessar-fogo existe. A paz duradoura continua longe de garantida.

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