Explicador. A “besta escondida” na Rússia: como as repúblicas são um ‘barril de pólvora’ que pode desafiar Putin

Valerii Pekar, analista ucraniano e professor adjunto na Escola de Negócios Kyiv-Mohyla, alerta que a pressão sobre o Kremlin pode não vir de Moscovo, mas das repúblicas que compõem a Federação Russa

Francisco Laranjeira

Valerii Pekar, analista ucraniano e professor adjunto na Escola de Negócios Kyiv-Mohyla, alerta que a pressão sobre o Kremlin pode não vir de Moscovo, mas das repúblicas que compõem a Federação Russa. Estas regiões, muitas vezes ignoradas, acumulam tensões económicas, políticas e sociais que podem ser decisivas para o futuro do país.

Durante o seu discurso de Ano Novo, Vladimir Putin falou por três minutos desde os muros do Kremlin. Referiu a guerra na Ucrânia apenas por alguns segundos, garantindo aos soldados que lutam “pela pátria, pela verdade e pela justiça” que o povo acreditava na vitória. Descreveu a Rússia como uma “grande, forte e unida família”, mas não detalhou planos de paz. Para Pekar, este silêncio estratégico revela que Moscovo não tem intenção de interromper o conflito: “Putin precisa de mostrar vitórias, mesmo que simbólicas. Sem isso, um ditador na cultura política russa é considerado ilegítimo.”

Por que Moscovo não pode parar a guerra

Em entrevista ao ‘El Confidencial’, Pekar explicou as razões que mantêm a guerra ativa:

Económica: “A Rússia colocou a sua economia em modo de guerra. Não há capital disponível para regressar a uma economia de paz.”

Continue a ler após a publicidade

Política: “As elites russas de alto nível beneficiam diretamente do conflito e vão proteger os seus rendimentos extraordinários.”

Social e militar: “Com 700 mil soldados profissionais no terreno, não se podem simplesmente enviar de volta às cidades sem emprego. O risco de colapso do Estado é real, tal como aconteceu em 1917.”

Para Pekar, a guerra só terminará quando Moscovo esgotar os recursos para a sustentar.

Continue a ler após a publicidade

As repúblicas: instabilidade e potencial de mudança

O analista centra-se nas regiões distantes da Federação Russa, como a Iacútia, muitas vezes vistas como subdesenvolvidas, mas com elevado potencial económico. “Estas áreas acumulam descontentamento, mas precisam de sinais claros do Ocidente de que a democratização é possível sem a morte de Putin”, afirma Pekar.

Segundo o especialista, dois fatores são essenciais: sanções eficazes que limitem os recursos financeiros enviados de Moscovo e a demonstração de que a Europa apoia iniciativas regionais para fortalecer identidades locais. “Enquanto estas regiões estiverem sob controlo absoluto de Moscovo, a guerra continuará”, sublinha.

Garantias de segurança e futuro da Ucrânia

Pekar rejeita garantias de segurança externas para a Ucrânia. “Nenhum país vai lutar pela Ucrânia diretamente. A única proteção possível é uma economia inovadora, integrada na UE, e forças armadas equipadas local e internacionalmente”, explica.

Continue a ler após a publicidade

Ele reforça ainda que o objetivo de Putin não é conquistar território, mas eliminar o Estado e a identidade ucraniana. “A guerra só cessará quando a Rússia não tiver mais capacidade para sustentá-la.”

Cenários pós-Putin

O analista projeta dois cenários: um “Putin 2.0”, mantendo a estrutura imperial e políticas agressivas, ou uma Rússia genuinamente federal, com regiões autónomas e identidades locais fortes. Este segundo modelo permitiria uma paz duradoura, desenvolvimento democrático e novas oportunidades económicas para a Europa e Ásia.

Pekar alerta que a guerra russo-europeia já começou, mesmo sem confrontos tradicionais: “Os ciberataques, drones, guerra eletrónica, operações psicológicas e sabotagem não reconhecem fronteiras. A instabilidade das repúblicas é o próximo ponto crítico.”

Para o analista ucraniano, é nas regiões do país que se encontra a “besta escondida” que poderá, um dia, desafiar o poder de Putin e abrir caminho a uma nova Rússia.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.