O momento mais tenso da visita de Volodymyr Zelensky a Washington, em fevereiro deste ano, não terminou na Casa Branca. Três dias depois do difícil encontro com Donald Trump no Salão Oval, a equipa do presidente norte-americano começou a sondar figuras ucranianas que pudessem emergir como alternativas ao atual chefe de Estado.
Entre os nomes que circularam, um sobressaía: o do general Valeri Zaluzhny, antigo comandante em chefe das Forças Armadas e atualmente embaixador da Ucrânia em Londres. Considerado um ícone militar e uma possível figura presidencial, Zaluzhny tornou-se alvo de contactos discretos por parte de Washington.
Segundo o jornal britânico The Guardian, a aproximação foi feita pelo gabinete do vice-presidente norte-americano JD Vance, que tentou estabelecer contacto com o general através da embaixada ucraniana em Londres. Zaluzhny, depois de consultar a chefia de gabinete de Zelensky, recusou atender a chamada.
Essa recusa traduziu o equilíbrio frágil que o general tem procurado manter desde que, em fevereiro de 2024, Zelensky decidiu afastá-lo do comando militar e nomeá-lo embaixador no Reino Unido.
Tensão crescente entre Washington e Kiev
A tentativa de Donald Trump de se aproximar de Zaluzhny coincidiu com um momento de forte tensão nas relações bilaterais. O encontro no Salão Oval tinha terminado de forma hostil, com JD Vance a adotar uma postura agressiva face a Zelensky. Em Kiev, esse episódio foi interpretado como uma tentativa de humilhação pública. Alguns congressistas republicanos chegaram mesmo a sugerir que o presidente ucraniano deveria demitir-se para abrir caminho a um acordo de paz com Moscovo.
Zaluzhny, de 51 anos, é amplamente reconhecido pela sociedade ucraniana como o militar que conseguiu travar a ofensiva russa nos primeiros meses da invasão. A sua popularidade é tal que, caso houvesse eleições, seria considerado o único capaz de rivalizar com Zelensky. No entanto, a Constituição ucraniana impede a realização de eleições em tempo de guerra e o próprio general evita qualquer declaração sobre o seu futuro político.
Apesar disso, a embaixada em Londres tornou-se palco de visitas regulares de deputados, ativistas, oligarcas e consultores internacionais que procuram avaliar as suas intenções. Até Paul Manafort, ex-conselheiro de Trump, ofereceu os seus serviços para uma eventual campanha presidencial – uma proposta que Zaluzhny rejeitou.
Paralelamente, enviados de Andrii Yermak, chefe de gabinete de Zelensky, tentaram em várias ocasiões convencer o general a integrar formalmente a equipa presidencial. A resposta foi sempre a mesma: manter a lealdade institucional, mas sem compromissos partidários.
O general entre lealdade e pressão política
A prudência de Zaluzhny contrasta com a crescente pressão daqueles que o veem como figura capaz de desencadear uma mudança política. Em privado, o general terá admitido que o seu modelo de Estado se inspiraria em Israel, com foco na segurança nacional e na preparação militar permanente.
Enquanto isso, Trump e a sua administração republicana reabriram canais de comunicação com figuras da elite política ucraniana do passado, incluindo o ex-presidente Petró Poroshenko e a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, ambos recebidos recentemente por altos responsáveis norte-americanos, segundo revelou o Politico. Esse movimento causou apreensão em Kiev e em várias capitais europeias, ao coincidir com esforços diplomáticos do Kremlin para enfraquecer Zelensky.
Um responsável comunitário ouvido por este diário interpretou a situação como reveladora da estratégia de Trump: “É evidente que o seu círculo procura interlocutores mais complacentes com Moscovo. O único que não se enquadra nesse perfil é Zaluzhny, cuja lealdade à Ucrânia não oferece dúvidas.”
Na sua última passagem por Kiev, durante uma cimeira de embaixadores, Zaluzhny manteve-se reservado, evitando aproximações de quem não pertence ao seu círculo próximo. O regresso coincidiu com protestos contra a tentativa do Governo de reduzir competências das agências anticorrupção. Muitos aguardavam uma palavra pública do general, mas ele optou pelo silêncio.
Apesar das fricções com Zelensky, a fotografia de ambos no aeroporto de Londres, divulgada após o episódio da chamada rejeitada, transmitiu uma mensagem clara: a unidade nacional prevalece sobre ambições pessoais.
“Alguns dos seus apoiantes não compreenderam esse gesto, mas ele viu-o como uma questão de princípios”, afirmou uma fonte próxima citada pelo The Guardian.












