Trump, Musk e um braço de ferro: Pode mesmo alguém ser dono de Marte?

A ambição de Donald Trump de expandir a presença dos Estados Unidos para além da Terra chamou a atenção de cientistas e juristas, que apontam os desafios legais e éticos desta ideia. Durante o discurso de tomada de posse, Trump defendeu que era “destino manifesto” da América levar a bandeira dos EUA para Marte. Contudo, especialistas alertam que a colonização e a reivindicação de territórios em corpos celestes como Marte enfrentam barreiras legais praticamente intransponíveis, estabelecidas pelo direito internacional.

Pedro Zagacho Gonçalves

A ambição de Donald Trump de expandir a presença dos Estados Unidos para além da Terra chamou a atenção de cientistas e juristas, que apontam os desafios legais e éticos desta ideia. Durante o discurso de tomada de posse, Trump defendeu que era “destino manifesto” da América levar a bandeira dos EUA para Marte. Contudo, especialistas alertam que a colonização e a reivindicação de territórios em corpos celestes como Marte enfrentam barreiras legais praticamente intransponíveis, estabelecidas pelo direito internacional.

No seu discurso inaugural, Trump afirmou que os EUA deveriam ser uma nação em crescimento, descrevendo este conceito como a capacidade de “aumentar a nossa riqueza, expandir o nosso território, construir as nossas cidades e carregar a nossa bandeira para novos e belos horizontes.” Ele acrescentou: “Seguiremos o nosso destino manifesto até às estrelas, lançando astronautas americanos para plantar a bandeira dos Estados Unidos no planeta Marte.”

A parceria entre Trump e Elon Musk, fundador da SpaceX, alimentou especulações de que os EUA poderiam tentar reivindicar territórios no planeta vermelho. Musk já sugeriu que uma colónia humana em Marte poderia ser uma realidade até 2028, o que levantaria questões legais complexas sobre soberania.

Os limites impostos pelo tratado do espaço exterior

No entanto, o sonho de Trump de transformar Marte no “51.º estado” esbarra num obstáculo fundamental: o Tratado do Espaço Exterior, assinado em 1967 por países como os EUA e a Rússia. Este acordo proíbe explicitamente qualquer reivindicação de soberania sobre corpos celestes.

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O Artigo 2 do tratado afirma que “o espaço exterior, incluindo a Lua e outros corpos celestes, não está sujeito a apropriação nacional por declaração de soberania, uso ou ocupação, ou por qualquer outro meio.”

Dr. Sa’id Mosteshar, professor de direito na Universidade de Londres e diretor do Instituto de Políticas Espaciais, explicou ao MailOnline: “Todos os Estados concordam que, no mínimo, este tratado impede qualquer reivindicação territorial sobre corpos celestes, incluindo Marte. Portanto, qualquer tentativa dos EUA seria ilegal à luz do direito internacional e não seria reconhecida por outros países.”

Dr. Fabio Tronchetti, especialista em direito espacial na Universidade de Northumbria, reforça: “A violação deste princípio seria catastrófica. Os países poderiam abandonar o tratado, resultando no colapso de todo o sistema de cooperação espacial.”

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Embora as nações estejam vinculadas pelo Tratado do Espaço Exterior, empresas privadas como a SpaceX apresentam novos desafios legais. O tratado foi elaborado numa época em que a exploração espacial era exclusivamente conduzida por governos, e não antevia a ascensão de empresas como a SpaceX ou a Blue Origin.

Alguns acreditam que pode haver lacunas legais que permitam às empresas operar em Marte sem violar o tratado. Dr. Tronchetti esclarece que, apesar de as empresas não poderem reivindicar territórios, podem explorar recursos sob autorização governamental, como estipulado no Artigo 6 do tratado. No entanto, qualquer atividade privada continua sob a responsabilidade do país de origem.

Este modelo, argumentam os críticos, cria uma “carta branca” para empresas poderosas. “Para uma empresa como a SpaceX, torna-se cada vez mais difícil dizer ‘não’,” alerta Tronchetti.

As zonas cinzentas da lei espacial

Embora o tratado proíba reivindicações territoriais, ele permite a exploração e utilização de recursos espaciais, desde que isso não interfira nas atividades de outros países. Em 2020, os EUA aprovaram os Acordos Artemis, que defendem a criação de “zonas de segurança” para proteger operações em Marte ou na Lua. Na prática, estas zonas poderiam funcionar como fronteiras de facto, permitindo que países ou empresas estabeleçam bases sem declarar soberania formal.

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Artigo 1 do Tratado do Espaço Exterior afirma que “o espaço exterior, incluindo a Lua e outros corpos celestes, será livre para exploração e utilização por todos os Estados.” No entanto, a ambiguidade do termo “utilização” abre espaço para interpretações que podem justificar a exploração comercial e a criação de colónias.

Dr. Jill Stuart, especialista em direito espacial da London School of Economics, compara o plantio de bandeiras no espaço à subida ao Evereste: “As bandeiras são símbolos de conquista, não de posse. Plantar uma bandeira em Marte não significa que o território pertence a quem a colocou lá.”

As lacunas e ambiguidades no direito espacial têm potencial para gerar conflitos. Com programas como Artemis, dos EUA, e o programa espacial chinês a competirem por recursos na Lua e em Marte, a possibilidade de desentendimentos aumenta. Stuart prevê que as bases lunares serão o palco inicial das discussões legais que moldarão o futuro da governança espacial.

Dr. Tronchetti alerta para as consequências: “Se diferentes grupos de países seguirem regras distintas, isso pode gerar tensões e até conflitos.”

Embora Marte ainda não tenha dono, o planeta vermelho é o próximo grande desafio na exploração espacial. A corrida por recursos e pela supremacia tecnológica promete redefinir os limites do direito internacional, enquanto líderes visionários e controversos, como Trump e Musk, desafiam o status quo terrestre e celestial.

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