O número de pessoas em situação de sem-abrigo que trabalham ou têm rendimentos fixos está a aumentar em Lisboa. Trata-se de um novo perfil de exclusão social que surgiu em paralelo com a especulação imobiliária e o crescimento do turismo, que converteram antigas pensões acessíveis em alojamentos locais e hostels. Este fenómeno foi identificado como um dos fatores que contribuíram para a subida acentuada do número de sem-abrigo em 2023. Segundo explica Alexandra Castro, diretora de Intervenção com Públicos Vulneráveis da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), ao Expresso, este novo perfil de exclusão foge ao tradicional, associado a dependências ou situações crónicas.
Para responder a este desafio, será inaugurado na próxima terça-feira, dia 10 de dezembro, o novo centro de alojamento temporário no Convento do Grilo, na freguesia do Beato. Este espaço, gerido pela SCML, disponibilizará 90 vagas para pessoas que vivem na rua há menos de um ano devido a dificuldades financeiras, apesar de auferirem rendimentos de trabalho ou formação. “É essencial intervir cedo, enquanto estas pessoas ainda têm autonomia e não desenvolveram traumas mais graves associados à vivência na rua”, sublinhou Alexandra Castro.
O convento, anteriormente desocupado, foi adaptado para acolher quartos individuais e duplos, bem como apartamentos para casais. As despesas fixas serão asseguradas pela Santa Casa, mas os residentes pagarão uma renda correspondente a 30% do seu rendimento mensal. A estadia será limitada a um período de seis meses, extensível a nove em casos excecionais. O espaço funcionará 24 horas por dia, com liberdade de horários, lavandaria, banco de roupa, e apoio de uma equipa multidisciplinar.
Antes da inauguração do Convento do Grilo, apenas um espaço semelhante existia em Lisboa: a Unidade Municipal de Prevenção e Autonomia, na Quinta dos Ourives, também no Beato, com 15 vagas para pessoas em situação de sem-abrigo há menos de um mês. Contudo, este espaço gerido pela Associação Crescer esgotou rapidamente e mantém uma longa lista de espera. “Há uma necessidade urgente de criar mais respostas para este perfil emergente de trabalhadores sem-abrigo”, alertou a diretora da SCML.
Apesar dos esforços, Alexandra Castro admite que a autonomização dos residentes enfrentará o obstáculo da especulação imobiliária. Muitos serão forçados a procurar habitação fora de Lisboa, onde os preços são mais acessíveis, uma realidade que dificulta a reintegração local.
Os dados mais recentes revelam um aumento preocupante do número de pessoas sem-abrigo em Portugal. Em 2023, foram identificados 13.128 casos, mais do dobro do registado em 2018. Lisboa lidera com 3.378 pessoas sem-abrigo, enquanto a Área Metropolitana contabilizou 4.871 casos, um aumento de 50% nos últimos cinco anos. Este crescimento foi acompanhado de mudanças no perfil dos afetados, com mais jovens, mulheres e migrantes a enfrentarem esta realidade.
Perante este cenário, o Governo está a rever a Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo. O novo plano, que deverá entrar em circuito legislativo em breve, promete focar-se no diálogo com os municípios e no acesso à habitação como prioridade. A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Ramalho, defendeu recentemente a necessidade de respostas mais próximas e ágeis para combater este fenómeno.














