O mercado de carros usados em Portugal continua a esconder riscos significativos para os compradores, com casos extremos de adulteração de quilometragem a aproximarem-se dos 800 mil quilómetros, revela um estudo da ‘carVertical’. A análise aponta ainda para veículos com múltiplos acidentes, passagens por vários países e históricos incompletos, fatores que dificultam uma avaliação transparente antes da compra.
“Se um carro muda constantemente de mãos, é muito provável que isso indique problemas graves que não estão a ser resolvidos. O veículo é sucessivamente vendido a novos compradores em vez de ser devidamente reparado”, explica Matas Buzelis, especialista de mercado automóvel da ‘carVertical’.
Entre os dados mais reveladores, destacam-se modelos que circularam por vários países ao longo da sua vida útil. Em Portugal, veículos como o Tesla Model 3, Renault Mégane, Audi A5 e Volkswagen Golf chegaram a passar por cinco países diferentes, o que dificulta o acesso ao histórico completo e aumenta o risco de informação em falta.
A elevada rotatividade de proprietários surge como outro sinal de alerta. Um BMW M4 analisado teve 26 donos, seguido por um Honda Civic com 19 e um Volkswagen Golf com 18. “Não é incomum que o próprio proprietário atual desconheça que o veículo já passou por vários países. Se um carro for comprado sem verificação de histórico, é virtualmente impossível obter esta informação por outros meios”, sublinha o mesmo responsável.
Os relatórios analisados revelam ainda veículos com múltiplos registos de danos. Um Audi A3 lidera com 14 ocorrências, seguido por um Mercedes-Benz Classe C com 13 e um Classe CLS com 12. Nos modelos de luxo, os custos associados a danos atingem valores elevados, com um Ferrari GTC4Lusso a acumular 235 mil euros, um Porsche GT3 145 mil euros e um Bentley Continental 125 mil euros.
“Se o valor de danos de um carro atinge dezenas ou até centenas de milhares de euros, o comprador deve evitá-lo ou, pelo menos, fazer uma inspeção minuciosa num centro de assistência autorizado”, alerta Buzelis, acrescentando que “a compra de um carro nestas condições pode vir a tornar-se num pesadelo, especialmente no momento de vender um veículo com o histórico comprometido”.
A adulteração da quilometragem continua a ser uma das práticas mais comuns e prejudiciais no mercado. Em Portugal, os casos mais extremos incluem um Mercedes-Benz Vito com uma média de 786 mil quilómetros manipulados, seguido por um Mercedes-Benz Viano com 551 mil e um BMW Série 5 com 403 mil.
“A quilometragem adulterada é uma característica frequente nos modelos importados do estrangeiro. Uma vez que os países não partilham os dados dos veículos, os históricos permanecem inacessíveis às instituições do país de importação”, explica o especialista.
A falta de partilha de dados entre países europeus, nomeadamente no caso da Alemanha, contribui para este cenário, permitindo que veículos sejam exportados sem um histórico acessível, o que cria oportunidades para práticas fraudulentas.
O estudo da ‘carVertical’ analisou relatórios de histórico de veículos adquiridos entre janeiro e dezembro de 2025 em 18 países europeus, com o objetivo de identificar os casos mais extremos no mercado de usados.
Sem uma verificação prévia do histórico, comprar um carro usado continua a representar um risco elevado. Quilometragem adulterada, danos ocultos e lacunas no passado do veículo podem comprometer não só o investimento, mas também a segurança do comprador.














