Nos últimos meses, Lisboa tem registado um aumento significativo da criminalidade, marcado pela violência entre grupos juvenis, pelo tráfico de drogas e pela crescente sensação de insegurança nas praias e infraestruturas públicas. As forças de segurança, incluindo a Polícia Marítima, têm intensificado os seus esforços, mas os desafios são evidentes em várias frentes, desde a área metropolitana de Lisboa até às infraestruturas de transporte.
Segundo adianta o Observador, num levantamento feito com as várias freguesias de lisboa e junto das autoridades, das 24 freguesias lisboetas, em pelo menos 15 há pontos de preocupação já identificados pela polícia.
O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, admite em entrevista ao mesmo jornal, que o aumento da criminalidade em Lisboa é preocupante. Moedas destaca que, de acordo com os dados da Polícia Municipal, a cidade tem enfrentado um aumento de crimes e incidentes violentos, incluindo roubos e rixas entre gangues juvenis. “A criminalidade aumentou e não o podemos negar”, afirmou o autarca, sublinhando que, embora a Câmara esteja limitada nas suas competências no que diz respeito à segurança, continua a colaborar com as forças policiais para garantir uma resposta eficaz.
Carlos Moedas reconhece também que o aumento da criminalidade afeta diretamente a sensação de segurança dos lisboetas e dos turistas, especialmente nas áreas mais frequentadas, como o centro da cidade e as zonas balneares. O autarca tem insistido em reforçar a presença policial em áreas críticas e apelado ao governo central para alocar mais recursos às forças de segurança locais.
Em resposta a estas preocupações, o RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) de 2023 revela um crescimento da criminalidade em várias frentes, especialmente na área metropolitana de Lisboa. De acordo com o relatório, a criminalidade geral aumentou 5,9%, enquanto a criminalidade violenta e grave subiu 7,2%. As zonas urbanas sensíveis da cidade, onde a violência grupal é mais frequente, continuam a ser foco de atenção das autoridades.
Conflitos e violência nas praias da Grande Lisboa
As praias da Grande Lisboa, nomeadamente as da Costa da Caparica, têm sido palco de rixas violentas entre gangues juvenis. No final de julho e início de agosto, houve vários incidentes envolvendo facas, incluindo a brutal agressão a um jovem ao final da tarde. Estes episódios levaram a Polícia Marítima a aumentar a presença policial nas praias mais movimentadas. Muitos destes grupos juvenis já estão identificados pelas autoridades, e estão associados ao consumo e pequeno tráfico de droga.
A Polícia Marítima confirma que a atividade criminal juvenil é a sua principal preocupação, especialmente nas áreas balneares de Lisboa e Porto, onde grupos de jovens se deslocam facilmente através da rede de transportes públicos e provocam desacatos. A transformação de concessões balneares em locais de diversão noturna, que atraem grandes multidões, tem contribuído para o aumento de atividades ilícitas, criando desafios adicionais para as forças de segurança.
Crescimento da criminalidade grupal na Área Metropolitana de Lisboa
O RASI de 2023 destaca ainda um aumento de 14,6% na criminalidade grupal, definida como crimes cometidos por três ou mais suspeitos. Este fenómeno tem uma maior incidência nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e é alimentado pela formação espontânea de grupos de jovens com idades entre 15 e 25 anos. Os crimes mais comuns incluem roubos, furtos, ofensas à integridade física e ameaças. As rivalidades entre grupos de diferentes bairros são frequentemente exacerbadas por referências em músicas e videoclips de subculturas musicais, e as redes sociais têm um papel crescente na amplificação destes conflitos.
Perante este cenário, a Polícia Marítima tem feito esforços para combater o aumento da criminalidade nas praias e áreas balneares, registando um total de 906 crimes em 2023, um aumento de 37 crimes em relação ao ano anterior. No entanto, as autoridades reconhecem que a carência de efetivos limita as suas capacidades de atuação. Atualmente, 50 novos agentes estão em formação, com o objetivo de reforçar a presença policial nos próximos quatro anos, mas é necessário um planeamento eficaz para garantir que as zonas mais críticas sejam devidamente patrulhadas.
A colaboração entre as várias forças de segurança — Polícia Marítima, PSP, GNR e Polícia Municipal — é essencial para a implementação de planos de segurança nas áreas balneares, que visam aumentar a sensação de segurança entre os frequentadores das praias.
Infraestruturas de transporte e portuárias sob pressão
Além das praias, as infraestruturas de transporte e portuárias também têm sido identificadas como áreas de preocupação. O aeroporto de Lisboa, a Gare do Oriente, a estação de Santa Apolónia e o terminal de cruzeiros são locais onde o fluxo de pessoas é intenso, o que tem gerado maiores desafios de segurança. A Administração do Porto de Lisboa (APL) assegura que os terminais portuários cumprem rigorosos planos de proteção, mas sublinha que fora das suas instalações, a segurança cabe às autoridades policiais.
Drogas: um fator crescente de insegurança
O tráfico de drogas é outro problema crescente em Lisboa, especialmente em zonas como Campo de Ourique, Lumiar, Beato e Santa Clara. O presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências (ICAD), João Goulão, alerta para o aumento do policonsumo de drogas, que inclui substâncias lícitas como álcool e medicamentos, bem como drogas ilícitas e novas substâncias psicoativas.
Entre as substâncias mais preocupantes está o crack, que tem se espalhado por áreas anteriormente dominadas pela heroína. Goulão destaca que o uso de crack está associado a comportamentos violentos e à dificuldade em tratar os dependentes, uma vez que não existem alternativas terapêuticas eficazes, como no caso da heroína, onde a metadona é amplamente utilizada.
O RASI de 2023 também revela um aumento de 9,2% no número de detenções por tráfico de estupefacientes e um crescimento de 13,6% nas apreensões de drogas. Portugal, com as suas características geográficas estratégicas, tem sido um ponto de entrada para o tráfico de grandes quantidades de cocaína e haxixe destinadas ao mercado europeu.
O Vale de Alcântara, área próxima ao antigo Casal Ventoso, continua a ser um ponto crítico para o tráfico de drogas, e João Goulão alerta que, se nada for feito, esta área poderá cristalizar-se como um polo de atração para consumidores e traficantes.
Para combater o aumento da criminalidade e do tráfico de drogas, João Goulão defende a necessidade de diversificar as respostas às dependências e de aumentar os recursos para tratamento. A proliferação do crack, em particular, é vista como um dos maiores desafios, pois a droga é barata e acessível, e a sua disseminação está a aumentar a violência e a insegurança em várias áreas da cidade.
Enquanto as autoridades tentam gerir os recursos existentes e aumentar a presença policial, o aumento da criminalidade, do tráfico de drogas e da violência juvenil continuam a colocar pressão sobre as forças de segurança e a população de Lisboa, exigindo uma resposta coordenada e eficaz das diversas entidades envolvidas.




