“E a alma?”: O que significa a estranha pergunta feita por Putin ao diretor do centro de investigação nuclear da Rússia

Durante uma reunião realizada no Kremlin, Vladimir Putin, presidente da Rússia, fez uma pergunta inesperada e curiosa ao diretor do Instituto Kurchátov, principal centro de investigação e desenvolvimento de energia nuclear do país: “E a alma?”. O momento, captado pelas câmaras, provocou surpresa e reflexão no interlocutor, Mijaíl Kovalchuk, que respondeu de imediato: “A terceira prioridade [do Instituto Kurchátov] são a alma e o intelecto”.

Pedro Zagacho Gonçalves

Durante uma reunião realizada no Kremlin, Vladimir Putin, presidente da Rússia, fez uma pergunta inesperada e curiosa ao diretor do Instituto Kurchátov, principal centro de investigação e desenvolvimento de energia nuclear do país: “E a alma?”. O momento, captado pelas câmaras, provocou surpresa e reflexão no interlocutor, Mijaíl Kovalchuk, que respondeu de imediato: “A terceira prioridade [do Instituto Kurchátov] são a alma e o intelecto”.

A interação entre Putin e Kovalchuk sublinha a natureza simbólica e ideológica que o presidente russo procura associar ao poderio científico e militar da Rússia. Num país onde a Igreja Ortodoxa tem grande influência e apoia incondicionalmente a guerra na Ucrânia, Putin reforça constantemente a imagem da Rússia como guardiã de valores morais contra o que vê como o liberalismo decadente do Ocidente.

Novo Zembla: o regresso de um polígono nuclear histórico

O encontro no Kremlin coincide com o anúncio oficial de que a Rússia concluiu a preparação das instalações do polígono nuclear em Nova Zembla, no Ártico, cenário do último teste nuclear soviético em 1990. Este desenvolvimento surge em resposta às ações recentes dos Estados Unidos, que, segundo Moscovo, têm reforçado as suas infraestruturas relacionadas com testes nucleares.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguéi Riabkov, afirmou que o polígono está em “plena preparação” para recomeçar as atividades de teste nuclear em grande escala. “Se a ordem for dada, podemos iniciar os testes em qualquer momento”, disse o vice-almirante Andréi Sinitsin, chefe das instalações de Nova Zembla, em declarações ao jornal Rossískaya Gazeta. A declaração sugere que os militares russos estão prontos para retomar os ensaios nucleares, caso seja essa a decisão das autoridades.

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Ao mesmo tempo, Riabkov sublinhou que, apesar da preparação, a posição oficial da Rússia em relação aos testes nucleares não sofreu alterações desde que, em novembro de 2023, Putin revogou a ratificação do Tratado de Proibição Completa dos Ensaios Nucleares (CTBT). “Podemos realizar esses testes, mas não o faremos, desde que os EUA também se abstenham de tal ação”, afirmou Riabkov.

Reações ao envolvimento ocidental na Ucrânia

Esta discussão sobre testes nucleares surge num contexto de crescente tensão entre a Rússia e o Ocidente devido ao apoio militar da NATO e dos Estados Unidos à Ucrânia. Recentemente, Putin advertiu que, se o Ocidente permitir que Kiev use mísseis de longo alcance contra alvos em território russo, isso significaria uma escalada significativa. “Os países da NATO, os EUA e os países europeus estarão em guerra com a Rússia”, avisou o líder russo.

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Nos últimos meses, vários analistas e políticos russos instaram o Kremlin a retomar os testes nucleares como uma forma de aviso ao Ocidente, que continua a fornecer armas à Ucrânia.

A herança da “Bomba Zar”

O polígono de Nova Zembla é um local simbólico na história nuclear da Rússia. Foi lá que, a 30 de outubro de 1961, a União Soviética realizou o teste da “Bomba Zar”, a maior explosão nuclear de todos os tempos, com uma potência equivalente a 50 megatones. O teste aéreo foi executado com o auxílio de um bombardeiro Tu-95, e a bomba foi lançada com um paraquedas para garantir a sua detonação segura.

A URSS efetuou o seu último teste nuclear a 24 de outubro de 1990, em Nova Zembla, utilizando oito cargas nucleares com uma potência de 70 kilotoneladas, encerrando assim uma era de ensaios atómicos que moldaram a Guerra Fria.

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