Homicídios nos EUA dispararam 30% com a pandemia e as causas estão (ainda) por explicar. É o maior aumento de sempre

Entre 2019 e 2020, primeiros anos da pandemia da Covid-19, para além de todos os efeitos sanitários e económicos verificados, os EUA sofreram um enorme crescimento na criminalidade. Em particular, o número de homicídios verificado nesse período disparou 30% face ao ano anterior, e os motivos na origem deste crescimento estão ainda por explicar.

Pedro Gonçalves
Setembro 27, 2023
12:44

Entre 2019 e 2020, primeiros anos da pandemia da Covid-19, para além de todos os efeitos sanitários e económicos verificados, os EUA sofreram um enorme crescimento na criminalidade. Em particular, o número de homicídios verificado nesse período disparou 30% face ao ano anterior, e os motivos na origem deste crescimento estão ainda por explicar.

Esta violência verificou uma subida exponencial, segundo indicam os dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças CDC) dos EUA, que analisou as causas de morte referidas nas certidões de óbito entre 2019 e 2020, apurando cerca de 21750 homicídios no país com a maior economia do mundo. O número representa um crescimento de 30% face ao ano anterior, e é o maior aumento de sempre neste aspeto, desde que há registos no país (1905).



A análise paralela do FBI não é muito diferente, e aponta para um aumento de 29% no número de homicídios no primeiro ano da pandemia de Covid-19.

A paralisação das forças de segurança durante alguns meses, mobilizadas para fiscalizar a aplicação de medidas e protocolos de controlo sanitário, poderia ser uma das causas, com agentes sobrecarregados a não conseguirem combater a realidade de 466 milhões de armas de fogo ‘à solta’ no país. Mas certo é que, mesmo após o advento das vacinas e levantamento das medidas e restrições, em 2021 e 2022 o número de homicídios manteve-se estabilizado.

Outro fator que poderá ter contribuído foram os protestos e manifestações que se seguiram à morte de George Floyd às mãos da polícia, na maior onda de revolta que o país viu em meio século. Para além dos confrontos e episódios de violência, criou-se receio entre os agentes de que qualquer confronto com suspeitos fosse gravado e contribuísse para agravar a questão.

Ume estudo do Public Policy Institute of California, publicado em 2022, e citado pelo El Confidencial, verificou que, quando a polícia está no centro da atenção mediática por casos de abuso de força ou outros com conotação negativa, os agentes diminuem a sua atividade e a interação com civis, verificando-se um aumento da frequência de todos os tipos de crimes (incluindo homicídio).

Outro aspecto que decorreu dos protestos foi o crescimento do movimento ‘Defund the Police’, de redução do financiamento às polícias, que em algumas cidades, como Minneapolis ou Portland, levou a cortes de 40% nos efetivos policiais.

Em Portland os efeitos foram particularmente notórios: Em poucos meses tornou-se palco de confrontos intensos entre extrema-esquerda e extrema-direita, e de ambos com a polícia que restava, ao mesmo tempo que, entre 2019 e 2022, os homicídios nesta localidade cresceram 200%.

Outros aspeto que pode ter contribuído para o crescimento de homicídios nos EUA foi o impacto e o trauma causado pela recessão económica decorrente da Covid-19. Para além do aumento do desemprego, os confinamentos levaram a um aumento dos problemas de saúde mental, mas também a um crescimento do do abuso de álcool e drogas e, consequentemente, também para uma maior tendência para o comportamento violento.

Contributos também da proliferação das armas de fogo, como habitual: os norte-americanos compraram 60 milhões de armas entre 2020 e 2022.

Perante este cenário sangrento, há uma réstia de esperança: os dados preliminares mais recentes, relativos a este ano, recolhidos em 90 cidades dos EUA, apontam para uma descida de 11% nas taxas de homicídio no primeiro semestre. Filadélfia e Menneapolis encabeçam as reduções, com uma descida de 26,2% e 36,9% respetivamente, no número de homicídios nos primeiros seis meses de 2023.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.