Lucros de 1,2 milhões com guerra iminente levantam dúvidas: apostas suspeitas no Polymarket antes do ataque dos EUA ao Irão

‘Financial Times’ identificou 13 carteiras com padrões considerados atípicos, das quais 12 foram criadas poucos dias – ou mesmo horas – antes do ataque

Francisco Laranjeira
Março 3, 2026
15:36

O ataque dos EUA ao Irão terá sido antecedido por uma série de apostas invulgarmente grandes e oportunas na plataforma de previsões Polymarket, levantando suspeitas de uso de informação privilegiada. Segundo investigação do ‘Financial Times’, 12 contas suspeitas apostaram, nos dias que antecederam os bombardeamentos, um total de 66.993 dólares (cerca de 62.300 euros) na ocorrência de um ataque até sábado, gerando lucros combinados na ordem dos 330.000 dólares (aproximadamente 307.000 euros). Metade dessas apostas foi feita nas seis horas anteriores ao início da ofensiva.

O jornal identificou 13 carteiras com padrões considerados atípicos, das quais 12 foram criadas poucos dias – ou mesmo horas – antes do ataque. A maioria apostava exclusivamente em mercados relacionados com o Irão, não vendeu posições antecipadamente e apresentava um histórico de acertos praticamente perfeito. Num dos mercados analisados, o volume de apostas fora do padrão foi mais de 20 vezes superior ao habitual.



Além disso, as probabilidades implícitas de um ataque aumentaram cerca de 20 horas antes da agressão, contrariando a tendência observada noutros mercados anteriores, onde as probabilidades diminuíam à medida que os prazos expiravam sem ação militar.

Dados adicionais apontam que seis contas terão lucrado cerca de 1,2 milhões de dólares (aproximadamente 1,1 milhões de euros) ao apostarem corretamente num ataque até ao final de fevereiro. Uma dessas carteiras, criada no mês anterior, apostou mais de 26.000 dólares (cerca de 24.200 euros) poucas horas antes das primeiras bombas atingirem Teerão, obtendo um retorno superior a 174.000 dólares (aproximadamente 162.000 euros).

O padrão repete-se noutros episódios recentes. Há menos de dois meses, uma conta anónima terá arrecadado mais de 400.000 dólares (cerca de 372.000 euros) ao prever com sucesso a captura de Nicolás Maduro numa operação conduzida pelos Estados Unidos. Noutra análise, o ‘Financial Times’ identificou oito contas que lucraram 405.000 dólares (aproximadamente 377.000 euros) com apostas invulgares sobre ações das Forças de Defesa de Israel.

O crescimento do fenómeno expõe vulnerabilidades regulatórias. A Polymarket opera maioritariamente com criptomoedas e permite um elevado grau de anonimato, o que dificulta a identificação de eventuais negociadores com acesso a informação sensível. Nos Estados Unidos, os mercados de previsão são supervisionados pela Commodity Futures Trading Commission, que admite negociação informada, mas considera ilegal a utilização de informação confidencial obtida de forma indevida.

O senador democrata Chris Murphy classificou a situação como “insana” e prometeu apresentar legislação para proibir a negociação de ações militares. A CFTC declarou que tem autoridade para investigar fraude, manipulação e apropriação indevida de informação, embora não tenha comentado casos específicos.

Em contraste, a concorrente Kalshi, regulada nos EUA, exige verificação de identidade e anulou recentemente apostas relacionadas com a morte de Ali Khamenei, alegando que não permite mercados que liquidação diretamente com base no falecimento de indivíduos.

A Polymarket foi multada em 2022 em 1,4 milhões de dólares (cerca de 1,3 milhões de euros) por operar como mercado de derivados não registado. Contudo, investigações posteriores foram encerradas sem acusações formais.

Analistas alertam que operações militares, por dependerem do elemento surpresa, são particularmente vulneráveis a este tipo de exploração financeira. A combinação de anonimato, blockchain e mercados de previsão geopolítica pode transformar conflitos armados numa nova fronteira de especulação.

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