The Drugs don’t Work

Por Joana Santos Silva, Professora de Estratégia e Diretora de Inovação do ISEG Executive Education

Em 2019, morreram 1,2 milhões de pessoas devido a infeções bacterianas resistentes a antibióticos. O estudo publicado na revista científica The Lancet analisou 204 países e estima ainda que a resistência antimicrobiana (RAM) terá contribuído indiretamente para mais de 5 milhões de óbitos no mesmo ano. Para colocar em perspetiva, terá ultrapassado a totalidade de mortes causadas pela malária e HIV/SIDA que provocaram 640 mil e 860 mil mortes respetivamente.

A maioria das mortes resultam de infeções respiratórias como pneumonia e infeções generalizadas como a sépsis. Infelizmente, a população mais sensível são crianças com menos de 5 anos de idade.

As condições sanitárias e acesso a cuidados médicos fazem com que os países africanos e do sul da Ásia observem 24 mortes por cada cem mil indivíduos comparado com 13/100 000 em países desenvolvidos.

A emergência dos antibióticos e antifúngicos teve um impacto fundamental na medicina e na melhoria da esperança de vida dos países desenvolvidos a partir da segunda metade do último século. Contudo, a utilização massiva e muitas vezes mal orientada dos antibióticos está na origem da criação destas “super-bactérias”. O mundo vai enfrentar uma nova pandemia “escondida” caso a prescrição e utilização de antibióticos não seja revista. À semelhança da COVID-19, a resistência microbiana terá um efeito nefasto à escala global.

Em primeiro lugar, precisamos de reduzir o nível de infeções, especialmente aquelas causadas por condições sanitárias deficitárias e cuidados escassos. A pobreza contribui muito para o uso de antibioterapia. É uma responsabilidade do mundo rico perante o mundo pobre, caso contrário estaremos todos a pagar uma fatura muito dispendiosa.

Em segundo lugar, temos que garantir a utilização judiciosa dos antibióticos existentes. E como nunca é demais repetir, a gripe não se trata com antibióticos. Os antibióticos não matam vírus. Por favor, passem a palavra. Na Índia, o país com maior consumo de antibióticos, o acesso aos mesmos é muitas vezes facilitado, sendo nem sempre necessária uma prescrição, e com preços muito baixos que permitem ser adquiridos pela maioria da população.

Em terceiro lugar, a utilização de antibióticos, em particular, na cadeia alimentar tem de ser reconsiderada. A utilização dos antibióticos na produção animal ajuda a evitar doenças e acelera o desenvolvimento dos animais, o que melhora a performance financeira das empresas e assegura a entrega de produto na cadeia de logística, mas novamente existe um custo.

Por último, será a ciência que nos salvará no futuro. Precisamos de investimentos sérios no desenvolvimento de novas armas no arsenal da antibioterapia, porém teremos que ter o cuidado de as usar apenas em situação limite de forma ponderada e prudente. Para além dos produtos de inovação serem mais onerosos para os sistemas de saúde, se forem usados de forma indiscriminada, também estes perderão a sua eficácia.

Inspirada na personagem Mordo no filme Doctor Strange – “The bill comes due. Always”, ou por outro, existe sempre uma fatura e teremos que a pagar. Sempre. O uso de antibióticos é cómodo, fácil e barato, todavia se não for reequacionada a estratégia mundial do uso destes medicamentos milagrosos, havemos de pagar caro e muito.

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