A Alemanha está a preparar uma presença militar permanente na Lituânia, junto à fronteira com a Bielorrússia, numa operação destinada a reforçar o flanco leste da NATO e a dissuadir uma eventual agressão russa.
Segundo a Euronews, cerca de 3.000 militares participaram durante seis semanas no exercício Freedom Shield I, em Pabradė, a poucos quilómetros da fronteira bielorrussa. A maioria pertence às Forças Armadas alemãs e treinou com drones, guerra eletrónica, blindados pesados, artilharia, infantaria, helicópteros e aviões de combate.
O objetivo foi simular a defesa do território da NATO perante aquilo que os militares descrevem como um “agressor convencional”.
Alemanha quer 4.800 militares na Lituânia até 2027
Uma das principais unidades envolvidas é a 45.ª Brigada Blindada, também conhecida como Brigada da Lituânia.
Berlim decidiu há mais de três anos instalar de forma permanente cerca de 4.800 militares no país até ao final de 2027. A brigada deverá ficar distribuída por dois locais e incluir cinco batalhões.
O objetivo assumido é dissuadir a Rússia.
A Alemanha participa desde 2017 no grupo de combate multinacional da NATO na Lituânia, integrado na presença avançada reforçada da Aliança. Até agora, porém, o modelo assentava sobretudo em rotações periódicas de militares e equipamento.
Depois da invasão russa em larga escala da Ucrânia, a Lituânia começou a pressionar por uma presença mais robusta e permanente.
Em junho de 2022, o então chanceler Olaf Scholz comprometeu-se a liderar uma brigada alemã no país, com capacidade para ser rapidamente reforçada em caso de crise.
Presença permanente ganhou força após motim do Wagner
Inicialmente, a Alemanha não planeava estacionar toda a brigada de forma permanente. Apenas o quartel-general ficaria na Lituânia, enquanto as tropas de combate continuariam a deslocar-se a partir da Alemanha para exercícios ou situações de crise.
Esse plano mudou no verão de 2023.
De acordo com a Euronews, a alteração ganhou força depois da rebelião falhada de Yevgeny Prigozhin contra a liderança militar russa e da posterior transferência de um número significativo de combatentes do grupo Wagner para a Bielorrússia.
O Governo alemão afirmou que estes acontecimentos não foram a única razão para a decisão, mas reconheceu que deram novo impulso ao debate.
A Alemanha acabou por optar por uma mudança histórica: pela primeira vez, uma brigada de combate da Bundeswehr ficará permanentemente estacionada fora do território alemão.
O ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou então que a missão passa por desempenhar um papel central na defesa do flanco leste da NATO.
Faltam ainda milhares de voluntários
A brigada deverá ser constituída sobretudo por voluntários, mas esse modelo já está a revelar limitações.
Segundo dados citados pela Euronews a partir do jornal Bild, cerca de 60% dos lugares previstos terão sido preenchidos por voluntários, o que deixa uma falta de aproximadamente 2.000 militares.
Entre as forças que já estão na Lituânia, a taxa de preenchimento ronda os 92%, sobretudo graças ao grupo de combate multinacional destacado no país desde 2017.
O Batalhão de Carros de Combate 203 e o Batalhão de Infantaria Mecanizada 122 só deverão mudar-se para a Lituânia em 2027 e, segundo a mesma informação, continuam com um défice de cerca de 40% do pessoal necessário.
O comandante do Batalhão 203, tenente-coronel Oliver Kaufmann, afirmou à Euronews que a maioria dos seus militares está disponível para seguir voluntariamente para a Lituânia.
Kaufmann sublinha que prefere trabalhar com soldados que acreditam na missão e estão dispostos a assumir essa responsabilidade.
Especialistas em informática e logística entre os mais difíceis de encontrar
Boris Pistorius reconheceu que existem carências, sobretudo em áreas especializadas, como informática e logística, embora tenha salientado que os problemas de recrutamento não se limitam a essas funções.
A Alemanha continua, para já, a apostar no voluntariado e promete criar condições favoráveis também para as famílias dos militares destacados.
O ministro admitiu, contudo, que outras soluções poderão ser consideradas caso todas as possibilidades de recrutamento voluntário sejam esgotadas.
Pistorius lembrou ainda que uma colocação noutro país não é algo invulgar na carreira militar e deixou em aberto a possibilidade de militares serem enviados para a Lituânia mesmo sem se terem oferecido inicialmente.
Missão permanente muda também a vida das famílias
A Euronews acompanhou militares alemães destacados na Lituânia e encontrou opiniões diferentes sobre a mudança.
Alguns consideram natural uma missão deste tipo, enquanto outros admitem que militares com família poderão mostrar maior resistência a uma transferência permanente.
Apesar de existirem ligações aéreas regulares entre Vilnius e a Alemanha, o serviço na Lituânia deverá funcionar como qualquer outra colocação militar, com exercícios, guardas, períodos de prevenção e outras tarefas que também podem ocupar os fins de semana.
Por trás da estratégia política de dissuasão e dos números da brigada estão, assim, milhares de militares que terão de adaptar a vida pessoal e familiar a uma presença permanente junto ao flanco mais exposto da NATO.
A mensagem política de Berlim está resumida numa frase do chanceler Friedrich Merz colocada numa placa na Câmara de Vilnius: a segurança da Lituânia é também a segurança da Alemanha e proteger Vilnius significa proteger Berlim.














