Na passada 2ª feira, o secretário de Defesa americano, Lloyd Austin, garantiu que um dos objetivos dos Estados Unidos no seu apoio à Ucrânia era “enfraquecer” a Rússia. Em declarações à CNN, o antigo comandante da NATO, o general Wesley Clark, apontou que uma maneira de atingir essa meta era enviar “500 tanques, alguns milhares de peças de artilharia e rockets’, acrescentando: “Temos de mover todo o material se quisermos quebrar” a ofensiva russa no Donbass.
Embora possa parecer evidente que a Ucrânia poderia derrotar o ataque da Rússia se o Ocidente fornecesse um grande número de tanques com rapidez suficiente, é no entanto altamente improvável – segundo o site americano ‘1945’, no melhor cenário para a Ucrânia, demoraria quase um ano para se produzir uma capacidade blindada forte o suficiente para expulsar o exército russo do território ucraniano. E, mesmo com toda essa nova capacidade militar, a Ucrânia pode não ser bem-sucedida.
Vejamos a situação atual em território ucraniano:
A maior luta no momento é a Batalha de Donbass, na qual cerca de 50 mil soldados ucranianos defendem-se de um ataque russo de mais de 70 mil soldados. O exército de Putin está a tentar manter o centro de uma frente de 480 quilómetros com uma parte da sua força, tentando penetrar na zona norte das defesas ucranianas com tropas blindadas que se reposicionaram de Kiev enquanto avança pelo sul com tropas recentemente redistribuídas de Mariupol.
A intenção parece ser manter as Forças Armadas Ucranianas (UAF) no local para impedi-las de atacar os flancos das tropas russas que atacam a frente de Donbass. Embora o Governo ucraniano tenha colocado um embargo aos dados das suas perdas em combate, com toda a probabilidade sofreram a níveis semelhantes aos dos russos, que são relatados como mais de 40 mil mortos e feridos. Além da possibilidade de conter alguma força de reserva estratégica, o mais provável é a Ucrânia ter a totalidade das suas forças armadas na Batalha do Donbass.
Para gerar uma força de ataque móvel e blindada com força suficiente para desalojar as tropas russas das suas posições atuais, Kiev precisaria tomar uma série de medidas críticas. No topo da lista, é claro, está a aquisição de um número suficiente de veículos blindados: tanques, peças de artilharia, lançadores de rockets, sistemas de defesa aérea, transportadores de munição e combustível, entre outros.
Para serem eficazes, essas armas devem ser algo próximo da interoperabilidade, ter requisitos de manutenção semelhantes e ser fáceis de operar o suficiente para exigir um tempo mínimo de treino – idealmente, significaria obter todos os tipos de sistemas de combate que a Ucrânia já usa há décadas.
Embora seja ‘sedutor’ usar as armas modernas do Ocidente, nenhum sistema logístico poderia acomodar adequadamente as diferenças.
Terceiro, e mais significativo: uma vez que os desafios de obter equipamentos que possam ser operados e mantidos por tropas da UAF, a Ucrânia precisaria gerar uma nova ‘geração’ de soldados treinados quase do zero. Mas todo o exército ucraniano está atualmente envolvido em combates ferozes em todo o país. Kiev não tem mão de obra para tirar essas tropas da linha da frente e enviá-las para outro local para treino. Teriam de ser criadas novas forças de combate, longe da linha da frente, enquanto as tropas existentes tentam reter os ataques russos.
Para ter uma hipótese de eventualmente expulsar as tropas russas do seu território, a Ucrânia vai precisar de um número significativo de brigadas mecanizadas eficazes – cada uma consistiria numa mistura de tanques, infantaria, artilharia e companhias de defesa aérea (além das unidades de manutenção e logística). Ora, para produzir esse sistema, o processo começa no soldado.
Por exemplo, um tanque. Os tanques T-64 e T-72 do estilo soviético, que a UAF usa há décadas, são operados por uma tripulação de três: o motorista, o artilheiro e o comandante do tanque. Cada um precisa de aprender a fazer seu trabalho e fazê-lo bem. O artilheiro deve saber como operar os vários sistemas de controlo de tiro, miras e técnicas para os alvos. O motorista deve ser proficiente no controlo do veículo, entender onde o tanque pode ou não manobrar, como controlar o veículo e responder às ordens do comandante do tanque.
Pelo seu lado, o comandante do tanque deve conhecer as capacidades e limitações do tanque, assim como o motorista, deve saber como desempenhar as funções do artilheiro e, então, entender como “combater o tanque” em todas as circunstâncias ambientais em que o tanque pode ser necessário para operar.
Uma vez dominadas essas posições individuais, é preciso que o tanque lute em equipa, o que é crucial para o desempenho. Segunda fase: construir um pelotão, que é a unidade tática que enfrenta o inimigo, normalmente composta por três ou quatro tanques, liderados por um tenente que serve como líder do pelotão. Depois, o pelotão precisa de aprender a lutar como parte integrante de uma companhia, composta por três ou quatro pelotões. O comandante da companhia, acompanhado pelo seu suboficial superior e outros sargentos, deve combater os pelotões como uma equipa coordenada, garantindo que cada pelotão cumpre o seu papel, mas também deve conhecer as diferentes tarefas que deve atribuir aos outros pelotões para que todos trabalhem em uníssono para atingir um único objetivo. A finalizar, um derradeiro passo, aprender a trabalhar nuuma brigada.
Cada um desses escalões, do pelotão à brigada, deve ser dominado para que a força de batalha seja bem-sucedida no combate. Mas treinar uma unidade de brigada em tempos de paz é muito demorado.
Por exemplo, no exército americano, um comandante de companhia normalmente tem cinco a seis anos de experiência a nível de pelotão antes de assumir as rédeas de uma companhia de tanques. Um comandante de batalhão deve ter pelo menos 16 anos de experiência e um comandante de brigada, 22 anos. O exército ucraniano praticamente não existia há oito anos.
O Governo de Zelensky deve agora descobrir como treinar várias brigadas mecanizadas enquanto praticamente todo o seu exército está a defender ativamente o seu país. Há dois caminhos: Kiev envia tudo para a linha da frente, na esperança que o equipamento adicional lhe permita contra-ofensivas possíveis; ou a Ucrânia manter as linhas e formar uma nova organização blindada, do zero, numa parte segura do país. Aí seriam necessários vários meses de treino, em forma acelerada, para depois poder ir para a linha da frente.
Obviamente, qualquer um desses cenários não pode ser iniciado até que a Ucrânia receba um conjunto abrangente de equipamentos de combate dos países ocidentais, tivesse o equipamento ajustado aos padrões operacionais e fornecido com grandes stocks de combustível e munição (necessários para sustentar a fase de treino e depois uma campanha ofensiva). Só a montagem dos equipamentos e sustentação levaria entre três e quatro meses – só depois os países ocidentais tomam a decisão de fornecer um kit específico. Então poderiam começar os meses de treino individual, tripulação, pelotão, companhia e batalhão – também medidos em meses.
A guerra simplesmente não funciona assim. Não se trata apenas de ter vários tanques ou lançadores de rockets, mas sim de ter tropas treinadas e disciplinadas que sabem o que estão a fazer, trabalhando em equipa – um pouco como uma equipa de futebol. É possível reunir num plantel um grupo de craques mas se não treinarem juntos para trabalhar em equipa, podem ser derrotados por um adversário menos talentoso mas mais coletivo.
Ou seja, a linha de fundo feia é esta: a Batalha de Donbass quase certamente será vencida ou perdida com as forças atualmente envolvidas nas linhas de frente, com o equipamento que possuem. Levará muito tempo para que os Governos ocidentais apresentem um plano coerente de equipamento e depois preparem, enviem e entreguem o kit no seu destino dentro de um prazo que possa fornecer às tropas de Kiev a capacidade de fazer pender para o seu lado a balança.
A Ucrânia pode ser forçada a escolher entre opções desagradáveis: Zelensky poderia jogar os dados e tentar criar um impasse para manter a Rússia sob controlo durante quase um ano e assim montar uma ofensiva com uma força treinada, ou procurar um acordo negociado nas condições disponíveis para impedir a destruição do seu exército e pessoas.
Tentar forçar e sustentar um impasse era uma garantia que o povo da Ucrânia continuasse a sofrer e morrer, sem garantias de que a criação de uma força ofensiva seria bem-sucedida mais tarde. Mas concordar com um acordo no curto prazo provavelmente cimentaria a perda de algum território do leste ucraniano para a Rússia ou para a população de língua russa, mas acabaria com a destruição no resto do país.
A guerra é horrível e raramente produz vencedores, e este é o mais feio, mais sangrento e mais cruel conflito da Europa em quase um século. Todos devem entender que neste momento não existem “boas” soluções – os líderes da Ucrânia devem escolher entre uma série de opções desagradáveis em busca da menos detestável.





