Silly season

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Este período do ano decorria sempre no verão. Era a altura em que os jornalistas, os políticos, as estrelas, os conhecidos e todos nós cidadão anónimos estávamos de férias. Não havia notícias interessantes, excepto no início de agosto quando o governo aproveitava para legislar sobre temas complicados, esperando que ninguém lesse os jornais. Era o momento em que se levava para a praia a revista flash ou outras mais light e quase não havia notícias no clipping. O que infelizmente fazia as capas dos jornais eram os incêndios que destruíam metade do país. Não havia futebol, logo metade das notícias desapareciam e os milhares de comentadores desportivos felizmente também. Assim como os comentadores políticos, que não comentam mas opinam e tentam influenciar opinião de forma não isenta. Era um paraíso para o nosso cérebro pois nesse período, descansava. Não porque deixava de pensar mas porque deixava de ter de escolher entre muitos conteúdos ignóbeis e alguns com qualidade. E era bom porque era um período do ano, ansiávamos por ele e umas semanas depois acabava. Tínhamos de pensar novamente, obrigando os nossos neurónios a voltar a comunicar entre si. 

Infelizmente parece que voltamos a ter “silly season”, mas agora antes do Natal. Basta ligar uma tv, espreitar as notícias na net ou ler um jornal. Já deixámos de ter de pensar outra vez, um neurónio apenas a funcionar. Apenas se fala de trivialidades por comentadores que algumas vezes são os “grunhos do costume”. É a prisão do Rendeiro, o assalto a casa de um futebolista, os penaltis e pretensas irregularidades nos jogos de futebol, o Twitt de Rui Rio, a purga nas listas de deputados do PSD e o Covid19. Mais nada, não há mais temas, nem sequer as (ou os) modelos em fato de banho, em poses sensuais que ainda podíamos apreciar nas revistas no verão. Apenas o covid com as suas variantes traz alguma novidade, pois parece o Netflix, sempre que acaba uma temporada já está a começar outra (Agora a omicron depois da delta…). Até o ministro Cabrita conspirou para esta suspensão intelectual pois demitiu-se e acabou com metade dos temas de abertura dos telejornais. O nosso jornalismo e os nossos meios de comunicação social quando deviam estar a discutir o futuro do país, a recuperação económica, a forma de travar a inflação, de reter talento, de criar emprego, de entender a coligação na Alemanha para aprender como se faz, a tensão na Ucrânia e os seus motivos. Deviam investigar para formar opinião baseada em factos, de espreitar os programas de governo dos partidos candidatos ás eleições, de discutir temas relevantes para a sociedade como o PRR, quase ninguém o faz. Parece que estamos em estado de letargia intelectual como na silly season do verão. Talvez porque o público não o queira e isso não dê audiências, mas era isso que devíamos estar a fazer. Formar e informar os cidadãos, nomeadamente os jovens que estão abandonados aos influencers, YouTubers e bloggers que não têm filtro de qualidade. Ou mesmo de comentadores “mixurucas” que já nem os próprios partidos políticos os querem, para dar opinião sobre temas que desconhecem, mas ouviram falar. Ouvi no outro dia uma sra comentadora, ex candidata, ex política, ex qualquer coisa,  falar de SIFIDE. Não sabia do que falava. Alguém lhe soprou ao ouvido que era mau porque apoiava o “grande capital” (mas afinal cria emprego e desenvolve talento nacional e I&D), portanto disse um chorrilho de disparates pré-anotados no seu bloco de comentários.

Talvez o público mereça os conteúdos das televisões e dos jornais que temos, pois somos nós que geramos audiências. Mas devíamos, incluindo os nossos opinion makers e a maioria dos meios de comunicação social, encontrar uma forma de enaltecer os conteúdos de qualidade e não os conteúdos de oportunidade. Os nossos neurónios merecem isso! 


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