A Rússia voltou a levantar o espectro de uma nova anexação no espaço pós-soviético. Sergei Shoigu, secretário do Conselho de Segurança russo e antigo ministro da Defesa, afirmou que Moscovo não exclui integrar a região separatista da Transnístria, território pró-russo internacionalmente reconhecido como parte da Moldávia.
“Nada pode ser descartado, e estamos a considerar todos os cenários possíveis”, declarou Shoigu numa entrevista ao jornal russo ‘Komsomolskaya Pravda’, citada pelo ’20 Minutos’.
A declaração surge num momento de forte tensão no Leste Europeu e reacende receios de que o Kremlin possa repetir estratégias usadas na Crimeia e no Donbass.
O argumento da “proteção dos russos”
Shoigu justificou a ameaça com a presença de cerca de 220 mil cidadãos russos na Transnístria, uma estreita faixa de território entre a Moldávia e a Ucrânia, controlada por separatistas desde os anos 90.
“Se necessário, a Rússia tomará todas as medidas cabíveis e utilizará todos os métodos disponíveis para protegê-los”, advertiu.
A fórmula não é nova. Moscovo usou argumentos semelhantes antes da anexação da Crimeia, em 2014, e da intervenção militar no leste da Ucrânia.
Acusações à Moldávia e à Ucrânia
O responsável russo acusou ainda Kiev e Chisinau, capital moldava, de ameaçarem os interesses da população russa da região.
Segundo Shoigu, as autoridades moldavas estão também a usar a energia como arma política, ao imporem condições consideradas abusivas para o fornecimento de gás à Transnístria.
No entanto, o Governo moldavo recorda que a própria liderança separatista rejeitou no passado ajuda energética europeia, preferindo manter dependência do gás russo.
Porque importa a Transnístria?
A Transnístria tem cerca de meio milhão de habitantes e alberga tropas russas há décadas. Apesar de não ser reconhecida internacionalmente, funciona como Estado de facto, com moeda, forças de segurança e instituições próprias.
A sua localização é estratégica: fica encostada à Ucrânia e próxima da fronteira oriental da União Europeia.
Qualquer tentativa de anexação ou intervenção direta abriria uma nova frente de instabilidade no continente.
Comparação com o Donbass
Shoigu foi mais longe e comparou a atual retórica moldava à usada por Kiev em relação ao Donbass em 2014.
A referência é especialmente sensível: foi precisamente nesse ano que a Rússia anexou a Crimeia e apoiou militarmente os separatistas no leste ucraniano, conflito que acabaria por desembocar na invasão em larga escala de 2022.
Nova lei pode facilitar envio de tropas
O aviso ganha peso adicional porque a Duma russa aprovou recentemente, em primeira leitura, um projeto de lei que permite o envio de tropas para o exterior quando cidadãos russos estiverem ameaçados.
Na prática, trata-se de uma base legal que pode ser usada para justificar futuras operações militares fora das fronteiras russas.
Mais pressão sobre a Europa
A Moldávia tem procurado aproximar-se da União Europeia e reforçar laços com o Ocidente, algo visto com hostilidade por Moscovo.
Ao falar abertamente de anexação, o Kremlin aumenta a pressão sobre Chisinau e envia um sinal claro ao resto da Europa: a disputa pelas fronteiras do antigo espaço soviético está longe de terminar.





