Qual o custo social da Transformação Digital acelerada e forçada dos últimos dois anos

Opinião de José Leal e Silva, Diretor Executivo da Bee Engineering

Executive Digest

Por José Leal e Silva, Diretor Executivo da Bee Engineering

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O distanciamento social, o trabalho remoto forçado e acelerado pela pandemia, conjugado com uma fortíssima predisposição das gerações atuais (as mais online de sempre), revelaram-se um acelerador na Transformação Digital. No entanto, pelos mesmos motivos, têm um tremendo impacto como desacelerador da continuidade de interação pessoal, ou seja, na construção de relacionamentos. Dificilmente houve uma altura em que estivéssemos tão ligados e conectados entre todos mas, ao mesmo tempo, tão distantes e incapazes de criar relacionamentos reais, verdadeiros e duradouros.

A alteração de paradigma, que nos proporcionou o conforto de fazer quase tudo (dependendo da atividade em questão) à distância, permitiu reduzir o tempo no trânsito e o incómodo de ter de sair de casa. Ora, acontece que quem viveu uma fase anterior a esta reconhece, por norma, as vantagens deste modo de viver, ao mesmo tempo que não prescinde de, sempre que possível, passar tempo diretamente com outras pessoas, quer seja tempo com amigos, família ou em trabalho. Isto porque existe a memória dos benefícios que estas interações trazem, em especial, benefícios a nível da saúde física, mental e como sociedade. Por muito que eu conheça o meu vizinho através de uma rede social, não consigo nunca ter a mesma perceção que terei quando o conhecer no café à porta do prédio, na mercearia, na festa da aldeia, naquela “saída à noite”, ou até, na acalorada reunião de condomínio.

Para as gerações mais novas que viveram a faculdade e/ou os primeiros empregos de uma forma totalmente remota, os benefícios diretos da socialização e dos relacionamentos para além do digital não são tão claros, o que nos traz um desafio enquanto sociedade. Existe, neste momento, um conjunto de pessoas a entrar no mundo do trabalho que, apesar das fortes competências técnicas, demonstram dificuldade na capacidade de criar relacionamentos, de socializar e até, por vezes, de manter atenção e foco. Algumas faculdades nos EUA tomaram inclusive iniciativas de bloqueio de algumas redes sociais nas suas redes Wi-Fi.

A questão de fundo não passa pelo facto de o trabalho ser remoto, presencial ou hibrido, mas sim pela constatação de que o ser humano, fruto do comportamento social recente, está a perder uma faculdade essencial à sua vida. Desde os primórdios da nossa existência que nos baseamos em relações para evoluir. É este um dos principais propósitos da nossa existência, sendo que, ao nos privarmos desta competência e vivência, podemo-nos perguntar: “Será que existe relação entre esta constatação da realidade atual e o aumento de casos de depressão, suicídio, tristeza, sentimento de incapacidade e outros sintomas semelhantes que têm afetado sobretudo os mais jovens da sociedade?”

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As empresas têm um papel fundamental na sociedade, a par de todas as instituições de formação, sendo que é importante ser tomada a responsabilidade de encontrar formas de ajudar os seus colaboradores a não perder esta tão importante capacidade. É necessária criatividade, pois não será, por exemplo, ao introduzir uma regra de obrigatoriedade de presença física, que o problema se resolve. É, sim, muito mais importante fomentar momentos de criação de relações que propiciem a necessidade de interação entre as equipas.

Estas ações tanto podem ser remotas como físicas, mas não podem de todo ser exclusivamente remotas, pois existem aspetos da socialização e do relacionamento que são apenas possíveis de experienciar em pessoa. Criar uma verdadeira cultura em que isto seja possível trará as empresas para a frente do pelotão, pois terão os benefícios do digital com colaboradores altamente qualificados para trabalho remoto, ao mesmo tempo que mantêm a capacidade de interação social que tem caracterizado a nossa sociedade.

O que poderá, então, cada um de nós fazer para impedir a extinção da capacidade intrínseca do ser humano de criar relacionamentos através da socialização e interação direta?

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