Putin admite nova escalada contra Kiev e não exclui cenário nuclear

A Rússia estará a ponderar uma nova intensificação dos ataques contra a Ucrânia, incluindo contra Kiev, perante o impasse nas negociações de paz, com fontes próximas do Kremlin citadas pela Bloomberg.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Rússia estará a ponderar uma nova intensificação dos ataques contra a Ucrânia, incluindo contra Kiev, perante o impasse nas negociações de paz, com fontes próximas do Kremlin citadas pela Bloomberg a admitirem que, no limite, Moscovo poderá equacionar o recurso a armas nucleares táticas. A informação foi divulgada pela agência norte-americana e reproduzida pela agência ucraniana UNN, que alerta para uma possível mudança de escala no conflito.

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Segundo as fontes citadas pela Bloomberg, a Rússia concluiu que os esforços diplomáticos para alcançar um acordo de paz chegaram a um ponto de bloqueio. Neste contexto, Moscovo estará a avaliar o reforço dos ataques com mísseis balísticos convencionais de elevada potência contra Kiev, incluindo contra zonas centrais da capital, bem como contra infraestruturas localizadas noutras cidades ucranianas.

A informação surge num momento em que, de acordo com as mesmas fontes, os diferentes formatos de negociação terão perdido eficácia e as duas partes estarão novamente próximas das posições de partida. O Kremlin, segundo os interlocutores da Bloomberg, não considera que a pressão económica provocada pelas sanções ou os ataques ucranianos contra refinarias, instalações petrolíferas e redes logísticas russas sejam suficientes para levar Vladimir Putin a abandonar os objetivos militares.

Negociações de paz entram num novo impasse
A avaliação atribuída às fontes próximas do Kremlin é particularmente relevante porque coloca a eventual intensificação militar diretamente em paralelo com o fracasso dos esforços diplomáticos. Os Estados Unidos têm procurado promover um entendimento entre Moscovo e Kiev, mas as negociações não terão produzido o avanço esperado.

De acordo com a informação divulgada, a situação agravou-se depois de a administração norte-americana ter concentrado parte significativa da sua atenção no conflito com o Irão. Ao mesmo tempo, o Kremlin terá recuado de um entendimento que, segundo a sua própria interpretação, Vladimir Putin e Donald Trump tinham alcançado durante a cimeira realizada no Alasca em agosto.

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Uma das questões mais difíceis nas negociações continua a ser o futuro do Donetsk. A Rússia pretende que a Ucrânia aceite a entrega da chamada “faixa de cidades fortaleza” nessa região, enquanto Kiev tem rejeitado de forma consistente essa exigência.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deixou claro em junho que Washington não partilhava a posição russa sobre essa questão. “Se tivesse sido alcançado um acordo, a guerra já teria terminado”, afirmou então Rubio, numa declaração citada no artigo da UNN.

Moscovo vê ataques ucranianos como confrontação com a NATO
Outro elemento destacado pelas fontes é a crescente perceção, dentro do Kremlin, de que os ataques ucranianos contra território e infraestruturas russas não são exclusivamente operações de Kiev. Segundo essa avaliação, Moscovo considera cada vez mais que o fornecimento de armas e informações por parte dos países da NATO transforma esses ataques numa ação apoiada diretamente pela Aliança Atlântica.

Essa perceção poderá contribuir para aumentar a pressão no sentido de uma resposta militar mais severa. As fontes citadas pela Bloomberg consideram, aliás, que a atual fase da guerra ainda não corresponde ao nível máximo de escalada que a Rússia poderá estar disposta a atingir.

A possibilidade de novos ataques de grande intensidade contra Kiev não surge, contudo, num vazio. A Rússia tem vindo a recorrer de forma recorrente a mísseis balísticos e drones em ataques de larga escala contra cidades e infraestruturas ucranianas, enquanto a Ucrânia tem aumentado a capacidade de atingir alvos em profundidade no território russo. Avaliações do Institute for the Study of War também têm identificado esforços russos para intensificar campanhas de ataques contra Kiev e infraestruturas energéticas.

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Kremlin espera novas propostas, mas não prevê avanço rápido
Apesar do bloqueio diplomático, Moscovo ainda espera que Jared Kushner e Steve Witkoff possam deslocar-se à Rússia com novas propostas destinadas a reabrir o processo negocial. As fontes próximas do Kremlin citadas pela Bloomberg consideram, contudo, que as possibilidades de um avanço significativo permanecem reduzidas.

A mesma avaliação sustenta que a liderança russa entende já ter feito várias concessões ao longo do conflito e considera que cada uma delas acabou por enfraquecer a posição de Moscovo. Nesse contexto, a cimeira de Anchorage é apresentada internamente como mais um compromisso que não produziu os resultados esperados.

Sem progressos diplomáticos, as fontes consideram que o Kremlin vê poucas alternativas à intensificação da guerra como forma de tentar alcançar os objetivos militares definidos por Putin.

A hipótese nuclear volta a ganhar espaço
É neste contexto que surge a parte mais preocupante da avaliação divulgada pela Bloomberg: o recurso a armas nucleares táticas.

Segundo os interlocutores citados pela agência, o aumento da intensidade dos ataques está a levar um número crescente de responsáveis russos a admitir que Vladimir Putin poderá, em última instância, decidir utilizar armas nucleares táticas na Ucrânia como último recurso.

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A possibilidade não significa, por si só, que exista uma decisão tomada ou que esteja iminente um ataque nuclear. A própria informação divulgada descreve-o como um cenário extremo que alguns responsáveis russos estarão a considerar no contexto de uma eventual escalada.

O risco de utilização de armas nucleares pela Rússia tem sido uma preocupação recorrente dos governos ocidentais desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O cenário seria particularmente grave por representar a primeira utilização de armas nucleares num conflito armado desde os bombardeamentos norte-americanos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

A retórica nuclear russa também se intensificou ao longo de 2026. Avaliações independentes têm registado um aumento das referências a armas nucleares táticas por parte de setores mais radicais do discurso político e militar russo.

Ao mesmo tempo, análises ocidentais têm distinguido entre a existência de retórica ou preparação militar relacionada com armas nucleares e sinais concretos de que Moscovo esteja efetivamente a preparar a utilização de uma arma nuclear. Não são, portanto, equivalentes uma ameaça ou discussão interna e uma decisão operacional de emprego.

O conflito continua a aumentar a pressão sobre Moscovo e Kiev
A eventual intensificação dos ataques surge também num contexto de crescente pressão sobre ambas as partes. A Ucrânia tem procurado atingir refinarias, instalações energéticas e redes logísticas russas, procurando limitar a capacidade de Moscovo sustentar o esforço de guerra. Do lado russo, a campanha de ataques de longo alcance contra cidades e infraestruturas ucranianas continua a constituir um dos principais instrumentos de pressão militar.

Segundo avaliações do Institute for the Study of War, a Rússia tem reforçado a produção e modernização de mísseis balísticos e drones, ao mesmo tempo que procura adaptar os seus sistemas de ataque às capacidades de defesa aérea ucranianas.

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É neste cenário que a possibilidade de uma nova ofensiva aérea e de mísseis contra Kiev ganha particular relevância. A informação atribuída às fontes próximas do Kremlin aponta para uma possível intensificação dos ataques convencionais, enquanto o cenário nuclear é apresentado como uma possibilidade extrema caso a liderança russa conclua que os restantes instrumentos não permitem alcançar os objetivos definidos.

Para já, a informação disponível não demonstra que Vladimir Putin tenha tomado a decisão de utilizar armas nucleares. O que está em causa, segundo a Bloomberg, é a existência de discussões e avaliações dentro do aparelho russo sobre uma eventual escalada e sobre até onde Moscovo poderá estar disposto a ir perante o fracasso das negociações de paz.

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