Perspetiva energética global num relance

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest
Novembro 21, 2025
10:33

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

 

Como diz a Agência Internacional de Energia (AIE), a energia está no centro das tensões geopolíticas atuais, dados os riscos de abastecimento de hidrocarbonetos e as restrições ao fornecimento de minerais críticos, só para citar alguns problemas. Acresce que a crescente eletrificação da economia (já se fala até de uma nova Era de Eletricidade) cria também vulnerabilidades no que se refere, por exemplo, a ataques cibernéticos e a fenómenos climáticos extremos e de problemas funcionamento do sistema (quem não se lembra do último apagão?), pelo que há necessidade de maior resiliência neste domínio.

Também segundo a AIE, neste momento há excesso de oferta de petróleo em relação à procura, mas isso é contrabalanceado com os problemas de instabilidade existentes nalgumas áreas geográficas. Parece haver um ímpeto menor nos esforços para a redução das emissões, mas os riscos climáticos não param de aumentar.

Embora as renováveis tenham estabelecido novos recordes, o que é certo é que o consumo de gás natural, petróleo, carvão e a produção nuclear também têm aumentado, face à “voracidade” energética mundial.

No que se refere aos minerais críticos o principal risco é a elevada concentração de mercado. Um único país é o refinador dominante de 19 dos 20 minerais estratégicos relacionados com a energia, com uma quota de mercado de cerca de 70%. Em novembro de 2025, referido pela AIE, mais de metade destes minerais estratégicos estavam sujeitos a uma qualquer forma de controlo de exportação. É preciso reverter este processo, mas essa reversão parece ser lenta.

As alterações climáticas que têm exponenciado secas, cheias, tempestades, incêndios etc. têm provocado menor capacidade de produção, por exemplo hidroelétrica ou via biomassa, ou afetado as instalações energéticas, renováveis ou não, e redes de distribuição. E temos ainda as guerras!

A procura de eletricidade está a crescer de forma muito rápida. Neste momento representa globalmente cerca de 21% do consumo final de energia. Mas o seu crescimento implica novas redes, capacidades de armazenamento e outros investimentos. Isto pode implicar congestionamento e atrasos o que pode ter implicação nos preços, elevando-os. Além disso, a instalação de data centers, grandes consumidores de eletricidade e normalmente geograficamente concentrados, com um crescimento explosivo, será um fator importante a ter em atenção (há quem diga que os dados são o novo petróleo).

Se é certo que o aumento da temperatura pode fazer aumentar o consumo energético para arrefecimento, também é verdade que o diminui para aquecimento. A procura de energia tem crescido muito no sudoeste asiático, na América Latina e em África. Verifica-se que (AIE) 80% do crescimento do consumo de energia global está a ocorrer em regiões com elevada qualidade de irradiação solar, o que não acontecia antes.

Existe uma grande capacidade de produção de painéis fotovoltaicos e de baterias, a maior parte na China, sendo referido que a capacidade produtiva é de mais do dobro do que tem sido produzido. E aqui, mais uma vez a questão da dependência da China.

O investimento no nuclear também tem aumentado e os pequenos reatores modulares poderão ter um papel importante no futuro. Depois de uma estagnação, prevê-se um aumento do nuclear de mais de 30% até 2035.

Prevê-se que, mundialmente, neste ano de 2025, as viaturas elétricas representem já mais de 25% das vendas de carros novos. Por outro lado, com o corte das entregas por gasoduto de gás natural da Rússia à Europa, o gás natural liquefeito passou a ser uma das vias preferidas de comercializar o gás natural a longas distâncias.

O carvão ainda tem muito peso na China, Índia e sudoeste asiático, em que mais de metade da procura é para produção de eletricidade.

De acordo com a AIE, atualmente, ainda existem 730 milhões de habitantes deste planeta que não têm acesso a eletricidade e cerca de 2 mil milhões (cerca de um quarto da população mundial!) que cozinham com base em métodos tradicionais e prejudiciais para a saúde (lenha, carvão…). Por isso será necessário fazer uma forte aposta no clean cooking.

As opções para a redução das emissões são conhecidas e em muitos casos mesmo eficazes em termos de custo. As tecnologias de produção de energia elétrica de baixas emissões (renováveis, nuclear) e o aumento da eficiência energética e ainda o uso de combustíveis de baixo carbono, por exemplo, serão ações a continuar e incrementar.

E assim ficamos aqui com uma perspetiva energética global “at a glance” para nos deixar a pensar nesta vertente do nosso percurso coletivo.

 

 

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