Por Bernardo Soares, Médico Veterinário e One Health Diretor da UPPartner
A maioria das empresas ainda não integra a saúde pública na sua leitura de risco. No entanto, esse fator já está a influenciar diretamente a sua capacidade de gerar resultados, a estabilidade das suas operações e, em última instância, o seu valuation.
Num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam pressão crescente, as cadeias de valor se tornam mais vulneráveis a disrupções sanitárias e a mobilidade global acelera a propagação de ameaças, a saúde pública deixou de ser um tema periférico para passar a integrar o conjunto de variáveis que condicionam o desempenho empresarial.
O valuation de uma empresa resulta da sua capacidade de gerar resultados futuros de forma consistente e previsível. O que muitas organizações ainda não incorporaram é que essa previsibilidade está hoje exposta a riscos que ultrapassam largamente o perímetro tradicional do negócio e que, por isso, não estão devidamente refletidos na forma como avaliam o seu próprio contexto.
As empresas que operam em ambientes onde o acesso à saúde é limitado enfrentam níveis mais elevados de absentismo, menor produtividade e maior volatilidade operacional, ao mesmo tempo que se tornam mais vulneráveis a choques provocados por surtos, crises sanitárias ou falhas nos sistemas de prevenção, com impacto direto nas cadeias de abastecimento, na continuidade do negócio e na confiança dos mercados.
Estes fatores não são excecionais, nem residuais. São riscos sistémicos que, quando se materializam, afetam diretamente resultados, margens e a perceção de risco associada à empresa, condicionando decisões de investimento, custo de capital e, em última análise, o seu valor.
Ignorar esta realidade não reduz a exposição. Apenas cria uma ilusão de controlo, deixando fora da equação variáveis que, quando surgem, têm impacto imediato e difícil de mitigar.
Nos últimos anos, diferentes setores já sentiram de forma concreta este tipo de impacto. A pandemia de COVID-19 expôs a vulnerabilidade das cadeias globais de abastecimento, com paragens operacionais, ruturas logísticas e aumentos significativos de custos em setores como a indústria, o retalho ou a alimentação. Mais recentemente, surtos de doenças animais, como a gripe aviária, têm vindo a afetar diretamente a produção alimentar e a estabilidade de preços, com impacto económico relevante em diferentes mercados.
Por outro lado, as empresas que começam a integrar a saúde na sua leitura estratégica — seja através de políticas internas, programas de prevenção ou contributos para o ecossistema em que operam — estão, na prática, a reforçar a sua capacidade de antecipação e mitigação de risco, protegendo a estabilidade das suas operações e a previsibilidade dos seus resultados.
Ao mesmo tempo, organizações que investem de forma consistente em saúde e bem-estar, quer ao nível interno quer na relação com os ecossistemas em que operam, tendem a garantir maior continuidade operacional e previsibilidade, fatores que são cada vez mais valorizados por investidores e pelo mercado, refletindo-se na forma como o risco é percecionado e no próprio valor atribuído às empresas.
Não se trata de substituir o papel do Estado, mas de reconhecer que o ambiente social e sanitário passou a ser uma variável crítica na equação do valor e que ignorá-la significa tomar decisões com informação incompleta.
É neste enquadramento que o conceito de One Health ganha relevância estratégica, ao propor uma leitura integrada da saúde humana, animal e ambiental, permitindo antecipar impactos que tradicionalmente eram analisados de forma isolada e, por isso, frequentemente subestimados.
Uma disrupção ambiental pode gerar efeitos na saúde animal, afetar cadeias alimentares e refletir-se na saúde humana, com consequências diretas na estabilidade económica e no funcionamento das empresas, demonstrando que esta interdependência deixou de ser conceptual para passar a ser operacional.
Para organizações com exposição internacional, cadeias logísticas complexas ou dependência de recursos naturais, esta leitura integrada deixa de ser opcional e passa a ser um fator determinante na gestão de risco e na proteção de valor.
Existe uma dimensão reputacional associada a este tema, mas essa não é a questão central. O mercado tende a valorizar empresas que demonstram capacidade de antecipar risco e integrar variáveis estruturais na sua estratégia, ao mesmo tempo que penaliza aquelas que continuam a operar com uma leitura limitada do contexto em que estão inseridas.
O ponto crítico está, por isso, na forma como as empresas enquadram a saúde pública: como um tema externo, ou como um fator que já influencia diretamente a sua capacidade de gerar valor de forma sustentável.
Porque o valuation não depende apenas da performance interna. Depende da capacidade de antecipar e gerir os riscos que afetam essa performance.
E, cada vez mais, esses riscos começam fora da empresa. Começam na saúde.



