Nos últimos anos, os wearables têm vindo a revolucionar o quotidiano de milhões de pessoas. Entre relógios inteligentes, sensores contínuos e soluções de monitorização remota, são várias as opções que têm vindo a influenciar comportamentos. Estes dispositivos conseguem fornecer-nos métricas como frequência cardíaca, padrões de sono, atividade física ou níveis de glicose de forma contínua, com potencial para antecipar riscos e apoiar decisões mais informadas.
No entanto, esta abundância de informação traz consigo um equívoco recorrente: assumir que a conectividade equivale à interoperabilidade entre os wearables e os serviços e infraestruturas de saúde. O verdadeiro desafio reside em integrar essa informação de forma estruturada, compreensível e clinicamente relevante nos sistemas de saúde, como clínicas ou hospitais. Sem uma base comum de interpretação, estes dados podem permanecer desconectados da prática clínica e não criar o impacto pretendido. Ou seja, a questão que devemos colocar é “o que fazer com estes dados?” e não tanto “como os recolher?”.
Surge, neste âmbito, o problema do excesso: grandes volumes de dados que, muitas vezes, não são utilizados ou não conseguem ser traduzidos em decisões concretas. É fundamental por isso ter forma de filtrar, contextualizar e integrar toda esta informação. Sem essa transformação, corre-se o risco de introduzir mais ruído num setor que já tem os seus desafios.
A criação de valor depende, por isso, da integração efetiva dos dados na jornada do paciente. E essa jornada é composta por momentos concretos onde decisões críticas são tomadas: tempos de espera, transições entre níveis de cuidados, episódios de agudização ou períodos de recuperação. É nestes pontos que os dados provenientes de wearables podem ter impacto, permitindo, por exemplo, a deteção precoce de eventos clínicos, o acompanhamento remoto após uma alta hospitalar ou a gestão mais eficiente de doenças crónicas.
Mas o potencial vai além do benefício direto para o paciente. Do lado dos sistemas de saúde, a monitorização contínua em ambulatório pode traduzir-se em poupanças significativas: menos internamentos evitáveis, menor pressão sobre urgências e uma utilização mais racional dos recursos hospitalares. Para os médicos, que trabalham, na sua maioria, com agendas sobrecarregadas e tempo limitado por consulta, a disponibilidade de dados contínuos e contextualizados representa uma mudança qualitativa. Em vez de dependerem exclusivamente do relato do doente num momento pontual, chegam à consulta com um historial objetivo do período anterior. Mais do que isso, a monitorização remota permite uma triagem implícita: os doentes estáveis, acompanhados em casa pelos seus dispositivos, libertam tempo e atenção clínica para aqueles que mais precisam de cuidados presenciais. É uma lógica de priorização de que o sistema de saúde há muito necessita, mas raramente consegue operacionalizar.
Os profissionais de saúde precisam de garantias claras para integrar estes dados na prática clínica, enquanto os reguladores exigem evidência robusta do seu impacto e segurança. Paralelamente, os próprios pacientes assumem um papel cada vez mais ativo, questionando quem acede à sua informação, com que finalidade e sob que mecanismos de controlo. A mudança está a surgir, mas é preciso criar uma estratégia mais eficiente e clara.
Os wearables abriram caminho para uma nova forma de pensar a saúde, mas o verdadeiro desafio está agora em consolidar essa transformação, assegurando que a inovação tecnológica se traduz em melhores decisões, maior eficiência e, acima de tudo, melhores resultados para as pessoas.



