O paradoxo da inovação na saúde

Opinião de Ana Rita Silva, Business Development Manager de Medical Devices

Executive Digest

Nos últimos anos, os wearables têm vindo a revolucionar o quotidiano de milhões de pessoas. Entre relógios inteligentes, sensores contínuos e soluções de monitorização remota, são várias as opções que têm vindo a influenciar comportamentos. Estes dispositivos conseguem fornecer-nos métricas como frequência cardíaca, padrões de sono, atividade física ou níveis de glicose de forma contínua, com potencial para antecipar riscos e apoiar decisões mais informadas.

No entanto, esta abundância de informação traz consigo um equívoco recorrente: assumir que a conectividade equivale à interoperabilidade entre os wearables e os serviços e infraestruturas de saúde. O verdadeiro desafio reside em integrar essa informação de forma estruturada, compreensível e clinicamente relevante nos sistemas de saúde, como clínicas ou hospitais. Sem uma base comum de interpretação, estes dados podem permanecer desconectados da prática clínica e não criar o impacto pretendido. Ou seja, a questão que devemos colocar é “o que fazer com estes dados?” e não tanto “como os recolher?”.

Surge, neste âmbito, o problema do excesso: grandes volumes de dados que, muitas vezes, não são utilizados ou não conseguem ser traduzidos em decisões concretas. É fundamental por isso ter forma de filtrar, contextualizar e integrar toda esta informação. Sem essa transformação, corre-se o risco de introduzir mais ruído num setor que já tem os seus desafios.

A criação de valor depende, por isso, da integração efetiva dos dados na jornada do paciente. E essa jornada é composta por momentos concretos onde decisões críticas são tomadas: tempos de espera, transições entre níveis de cuidados, episódios de agudização ou períodos de recuperação. É nestes pontos que os dados provenientes de wearables podem ter impacto, permitindo, por exemplo, a deteção precoce de eventos clínicos, o acompanhamento remoto após uma alta hospitalar ou a gestão mais eficiente de doenças crónicas.

Mas o potencial vai além do benefício direto para o paciente. Do lado dos sistemas de saúde, a monitorização contínua em ambulatório pode traduzir-se em poupanças significativas: menos internamentos evitáveis, menor pressão sobre urgências e uma utilização mais racional dos recursos hospitalares. Para os médicos, que trabalham, na sua maioria, com agendas sobrecarregadas e tempo limitado por consulta, a disponibilidade de dados contínuos e contextualizados representa uma mudança qualitativa. Em vez de dependerem exclusivamente do relato do doente num momento pontual, chegam à consulta com um historial objetivo do período anterior. Mais do que isso, a monitorização remota permite uma triagem implícita: os doentes estáveis, acompanhados em casa pelos seus dispositivos, libertam tempo e atenção clínica para aqueles que mais precisam de cuidados presenciais. É uma lógica de priorização de que o sistema de saúde há muito necessita, mas raramente consegue operacionalizar.

Continue a ler após a publicidade

Os profissionais de saúde precisam de garantias claras para integrar estes dados na prática clínica, enquanto os reguladores exigem evidência robusta do seu impacto e segurança. Paralelamente, os próprios pacientes assumem um papel cada vez mais ativo, questionando quem acede à sua informação, com que finalidade e sob que mecanismos de controlo. A mudança está a surgir, mas é preciso criar uma estratégia mais eficiente e clara.

Os wearables abriram caminho para uma nova forma de pensar a saúde, mas o verdadeiro desafio está agora em consolidar essa transformação, assegurando que a inovação tecnológica se traduz em melhores decisões, maior eficiência e, acima de tudo, melhores resultados para as pessoas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.