Números e curiosidades recentes da energia na Europa

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Vamos hoje falar de alguns números e curiosidades relacionados com a realidade energética europeia tendo como base dados recentes do EUROSTAT, de forma a ajudar a compreender este complexo tópico.

E comecemos por um número importante: 48% da energia produzida na UE em 2024 teve origem renovável, sendo que a UE importou 57% da energia consumida. É de realçar também, nestes tão atribulados tempos, que os produtos petrolíferos e o gás natural representam ainda a fração principal (59%) do mix energético da UE, havendo naturalmente países mais dependentes do que outros. Por exemplo, em termos de casos extremos, o Chipre depende em 86% dos produtos petrolíferos e a Itália depende 36% do gás natural. O nuclear representa 40% em França e a biomassa sólida/carvão 50% na Estónia.

A energia consumida na UE impõe a importação de países não-UE e, em 2024, a UE importou petróleo e produtos petrolíferos dos EUA (16%), Noruega (12%) e outros países como o Cazaquistão e a Arábia Saudita, o Reino Unido e a Líbia. Quando ao gás natural, 30% foi importado da Noruega e 17% dos EUA. Foi ainda importado carvão da Austrália (31%) e dos EUA (28%). O país mais dependente da importação de energia a nível da UE é Malta (98%) e o menos dependente é a Estónia (5%).

Em 2024, 66% da energia disponível na UE foi utilizada pelos consumidores finais, ou seja, a nível doméstico, transportes, serviços e indústria. O restante 34% foi perdido durante a produção e distribuição de eletricidade, usada para apoio a processos de produção de energia ou consumida em utilizações não-energia (ex. asfalto). Saliente-se que nesse período, os produtos petrolíferos como o fuelóleo, a gasolina e o gasóleo representaram 37% do consumo de energia final, seguido da eletricidade (23%). O uso direto das renováveis, não transformadas em eletricidade, como por exemplo a utilização de lenha, aquecimento solar térmico, aquecimento geotérmico, biogás para aquecimento e águas quentes sanitárias, representou 12%. Este uso direto no consumo de energia final foi mais importante na Finlândia e na Letónia.

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As atividades de transporte representaram, em 2024, 31% do consumo de energia final. 27% foi para uso doméstico, do qual 2/3 para aquecimento. 25% foi consumido pela indústria e 13% pelos serviços. A agricultura, floresta e pescas apenas representaram 3%.

No que se refere, especificamente, à eletricidade, esta representou 23% da energia final consumida na UE em 2024, tendo como base 48% de energia renovável (componente principal eólica), 28% de energia fóssil e 23% de nuclear. Dentro da componente renovável da eletricidade a eólica representou 17%. 85% da eletricidade em Malta teve origem fóssil e 67% teve origem nuclear em França, 58% de eólica na Dinamarca e 58% de hidroelétricas na Áustria.

Relativamente aos preços da eletricidade para fins domésticos, na primeira metade de 2025, o preço mais elevado foi na Alemanha (0,38 €/kWh) e o mais baixo na Bulgária (0,13 €/kWh) sendo as taxas mais elevadas aplicadas na Dinamarca (48%). No que se refere aos preços do gás natural o preço mais elevado para uso doméstico foi na Suécia (0,21 €/kWh) e o mais baixo na Hungria (0,03 €/kWh) sendo as taxas mais elevadas aplicadas nos Países Baixos (54%).

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Em 2024, na UE, o consumo de energia primária atingiu 1209 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtoe) o que é 9% a menos do que em 2014 mas ainda está a 22% do alvo para 2030 (992,5 Mtoe). Isto globalmente pois embora tenha diminuído bastante nalguns países (ex. Luxemburgo), aumentou noutros (ex. Malta).

Em termos de literacia energética, deixo também aqui uma explicação simples. A energia primária refere-se a produtos capturados diretamente a partir de fontes naturais (ex. petróleo, gás natural, carvão, lenha) e a energia secundária refere-se a produtos que resultam de processos de transformação (ex. eletricidade, gasolina) quer a partir de produtos de energia primária quer de secundária. Ambos estes produtos de energia, primária (ex. lenha) ou secundária (ex. gasolina) podem ser utilizados pelos consumidores finais.

Estes números denotam a grande discrepância de situações existentes na UE, quer a nível de países/regiões quer a nível de setores produtivos, o que só amplifica a dificuldade de atuação coordenada face a interesses múltiplos. Muitas vezes fala-se da inoperância das instituições europeias, mas só esta demonstração a nível da energia, sem falar dos outros setores, permite demonstrar a enorme dificuldade de gestão e de estabelecimento de políticas, face à diversidade das situações.

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