Durante décadas, a reforma do Estado foi sinónimo de legislação nova, reorganizações de organismos e projetos de digitalização. Cada governo chegou com as suas promessas de modernização, cada mandato trouxe novos diplomas, mas o resultado, na maioria dos casos, foi um Estado que ficou mais complexo. Em 2026, esse ciclo começa a mudar: os avanços regulatórios deste ano são reais e representam uma base positiva, que cria condições para investir e inovar com mais confiança. Mas a regulamentação, por si só, não transforma. A verdadeira mudança exige tecnologia e, em particular, Inteligência Artificial (IA) como motor de execução.
É por isto que a IA já não pode ser considerada uma tecnologia a adicionar ao catálogo de iniciativas digitais. É uma mudança de paradigma na forma como as organizações tomam decisões, executam projetos e interagem com os cidadãos. No setor privado, essa realidade já chegou e, segundo dados da Eurostat, em 2025, 20% das empresas europeias com mais de dez trabalhadores utilizavam IA nos seus processos, o dobro face ao ano anterior. Na Dinamarca esse valor chega a 42%, na Finlândia a 38%. Em Portugal, esse caminho está ainda no início e na administração pública, ainda mais.
Trabalho diariamente com organizações privadas e algumas entidades públicas que operam na contratação pública. Vejo de perto o que significa gerir centenas de processos em simultâneo, cada um com a sua documentação, os seus prazos, as suas particularidades legais. A contratação pública em Portugal vive há anos presa a um desequilíbrio difícil em que se exige rapidez, através de um modelo pesado que dificulta a execução e que se foca excessivamente no controlo formal. O problema não é a falta de vontade das pessoas, mas sim a quantidade de informação que uma pessoa ou equipa consegue processar num dia de trabalho e, neste campo, nenhum decreto aumenta essa capacidade.
Entre os principais fatores que travam a adoção de IA no setor público estão a dificuldade em aceder a dados de qualidade, a resistência à mudança e as lacunas de competências dentro das organizações públicas. Na minha experiência, há um fator igualmente crítico que raramente aparece nas estratégias governamentais: a capacidade de adquirir e implementar tecnologia de forma ágil. O Estado pode ter a melhor intenção do mundo e os melhores técnicos, mas se os processos de aquisição demoram dois anos, a tecnologia que se compra já não é a tecnologia de que se precisa.
Apesar destes obstáculos, em Portugal começam a surgir sinais de mudança. A AMA expandiu em janeiro de 2025 o seu assistente virtual no portal gov.pt para mais de 2.300 serviços públicos, disponível em 12 línguas. O Governo propôs alterações às regras da contratação pública com o objetivo de reduzir burocracia e acelerar a execução, entre elas o princípio ‘só uma vez’, que eliminaria a necessidade de entregar documentos que o Estado já possui. Foram ainda aprovados a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial, a Estratégia Digital Nacional e o Pacto de Competências Digitais, com a ambição de colocar Portugal entre os dez países digitalmente mais avançados da Europa até 2030. Sem dúvida que estes são objetivos relevantes, contudo a questão, como sempre, é a execução, e a margem para hesitar é cada vez menor.
A urgência não é retórica, uma vez que a OCDE, no seu último relatório em 2025, indicou que apenas 33% dos países utilizam IA para melhorar a conceção e implementação de políticas públicas, que é precisamente o domínio onde o impacto seria mais transformador. Os países que conseguirem integrar IA nos seus processos administrativos vão ter Estados com maior capacidade de execução, serviços públicos mais rápidos e políticas mais bem calibradas, o que se traduz em menos tempo perdido por empresas em processos burocráticos, em projetos executados dentro do prazo e numa administração que responde à velocidade que a economia e os cidadãos exigem. Para as pessoas e para o tecido empresarial, essa diferença será estrutural daqui para a frente.
Portugal tem atualmente uma janela de oportunidade, mas também sabemos que as janelas se fecham. Ao longo dos últimos tempos, vi de perto organizações que demoraram demasiado a perceber que o mundo à sua volta já tinha mudado, e o custo dessa hesitação raramente aparece numa linha de relatório, mas sente-se na competitividade perdida, nos projetos que não avançaram e nas decisões que chegaram tarde. O Estado não é diferente. A IA não vai esperar que a administração pública esteja pronta, vai continuar a transformar o setor privado, a economia e as expectativas dos cidadãos. A questão que me preocupa não é técnica nem orçamental, mas cultural. Se o país não desenvolver, rapidamente, a capacidade de adotar tecnologia no setor público, as empresas que dependem do Estado para crescer, para contratar, para concorrer, para executar projetos, vão continuar a perder tempo e dinheiro em processos que podiam ser resolvidos numa fração de tempo. E tempo perdido em burocracia é tempo que não foi investido em inovação, em talento, em internacionalização e em criação de valor para a economia portuguesa.



